saber ensinar

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Para a família Isley: May Malen , Felix Isley, Camila de Isley (nascida Iturra González, e Javier, mi Weñe,  que hoje completa dois meses…! Pura criação….

Andamos a pensar no ciclo de ensino e aprendizagem. Sobre educação temos falado bastante. Sobre ensinar, começamos hoje, a partir de um ensaio que reescrevo. Dois acidentes aconteceram no caminho da vida da família Isley:

: May Malen começou a assistir ao infantário, onde arrecadou muitos amigos pela sua simpatia, alegria de viver como corresponde a quem se é nomeada Malen, nome Mapudungun, a língua dos Mapuche que habitam, como Nação autónoma, parte das Repúblicas do Chile e da Argentina, explicado antes em outros ensaios indigenistas da minha autoria. Malen que, na nossa língua, significa rapariga linda e alegre. May Malen tinha aprendido com os seus pais formas de falar, não sujar a roupa e a rir com eles, por ser uma família alegre e autónoma como os Mapuche. Mas nunca antes tinha sido ensinada por pessoas de fora da família. Ela gostou, adaptou-se a este segundo lar em que sentia como na casa doméstica.

 O segundo acidente dos Isley, foi o nascimento e Javier Max Raúl Isley, a 18 de Agosto deste ano. Nem chora nem reclama, excepto se tem fome ou está molhado. Javier, por Javiera o segundo nome da mãe, Cammila Javiera, Max, para ter um nome britânico ente tantos estrangeiros, e Raúl, para honrar-me, como May: eles sabem que vivo com o clã Picunche dos Mapuche, grupo social estudado e analisado por mim, como Devereux e os Mohave, etnia que tem uma forma particular de usar a psicanálise, que eu aprendi com ele em Paris, na École dés Hautes Études en Sciences Sociales e como Philipe Descola que morou e estudou os Xívaros da Amazónia do Equador. E outros, como Maurice Godelier e os Baruya da Nova Guine, ou Pierre Bourdieu e os Kabila da Argélia. Éramos os indigenistas do Laboratoire D’Anthropologie Sociale do Collège de Françe. Dormíamos com eles em rucas diferentes enquanto residíamos com eles nos seus acampamentos.

Foi assim que aprendemos que ensinar era um processo heterogéneo, variável e diferente em cada sítio do mundo, que o ensinado variava de grupo a grupo, bem como o conteúdo da transferência do saber, como explica em detalhe Émile Durkheim no seu livro de 1912: Les formes élémentaires de la vie religieuse, PUF, Paris. O ensinado está dividido em ensinar a ser caçador, guerreiro, formas humanas de reprodução, calcular para saber quantos somos e quanto necessitamos, cuidar e ovos e larvas para reproduzir o necessário para subsistência e tomar conta dos novos animais, para que o alimento não acabe, a feitura do sal entre os Baruya para trocar por penas de pássaros da que cresciam. A escrita era usada em escoas especiais, entre os mais novos dos Maori da nova Zelândia, para não esquecer a sua história, mitos e rituais que explicavam a origem do povo, todo feito com papel e lápis introduzidos pelos missionários, Etnoantropólogos como eu e pelos Firth, estudados nas escolas da coroa inglesa, mais tarde Sir Raymond Firth, o meu professor em Cambridge.

Ensinar é a tarefa mais difícil da vida. Começamos por aprender em pequenos, passamos a estudar mais crescidos, e já adultos, somos nós que ensinamos. Mas, o quê?

Até onde eu saiba, há escola de pais para aprender a ensinar. É uma permanente improvisação que nasce do fundo da nossa alma pelos sentimentos que criamos para as nossas crianças que, com paixão, fazemos. Eis o motivo do nome criança: são nossas, as fazemos, as amamos, as cuidamos.

Fazer uma criança é praticamente uma declaração de amor que entregamos à mulher que amamos e que nos corresponde com paixão, carinho e cuidado e com bebés para nós, com ela, tomarmos conta dos que vão aparecendo na História da vida. O melhor de tudo, é essa afectação que nasce porque amamos a nossa obra. Nem os frescos de Michelangelo Buonarroti na Capela Sistina de Roma, são capazes de exprimir a paixão que acorda a criação de seres humanos que fazem seres humanos. Há uma distância entre a mão que cria e a criatura que nasce, uma distância curta, mas distância.

Quando fazemos crianças, nem sabemos se essa distância existe, tão enrolados ficam os corpos dentro do amor que acorda a paixão. Para os ensinar. Para os criar, para estar ao seu serviço. O que Michelangelo cria, é uma metáfora tomada como verdade, retirada do anseio de eternidade que todo o ser humano tem. Anseio impossível na individualidade da existência, mas mais do que possível quando se pensa a pessoa como um conjunto sucessivo de família. Reparem, ontem a nossa neta fez um ano e nove meses, a mãe, essa nossa filha, entra pelos trinta e o seu namorado, o seu marido, dois dias depois, entra na mesma idade da sua mulher. No começo da fila do aniversário, apareço eu, no fim da fila, aparece Javier Max Raúl Isley: tudo parece como se tivesse sido ontem: todos fizemos esse primeiro ano de idade, esse ano em que parecia que nada sabíamos. De facto, nada sabíamos, excepto comer, chorar e gatinhar até aprendermos a andar com as duas pernas, para passarmos do Édipo à vida sem ciúmes.

Perguntava eu antes, ensinar o quê? A passar de criatura criada pelo dedo da divindade de Buonarroti, a ser humano que estica o seu dedo para criar um ser humano que, normalmente, adora.

Não há escola de pais? O que acontece, pois, com a paixão envolvente que acaba em bebé? Não apenas os criadores de crianças sabem debater entre eles como tratar os seus ratinhos, sabem também, porque passaram por essa idade e os seus pais souberam tomar conta deles, comportamento amoroso que nunca mais se esquece. Também, há os outros pais que ajudam, com o debate da sua experiência, a tomar conta dos seus descendentes.

A escola, ajuda a saber ensinar? Não será, por acaso, a necessidade de um ser humano carinhoso, que com palavras meigas, transfere o saber doutoral dos livros para facilitar a dificuldade de entender as palavras novas que, em casa, com os pais, são explicadas mais uma vez? Ou na conversa de casa? O debate à mesa de jantar, ou na conversa não programada, a seguir ao almoço?

Certo está quem escreve estas linhas, que nem sempre estes factos acontecem. Vivemos numa sociedade de classes, em época de crise financeira, com ancestrais que nem pisaram a escola, tanta é a necessidade de toda a família trabalhar para uma magra subsistência.

Saber ensinar começa por entender, por parte de quem ensina, da compreensão de dois factos: a referida avassaladora sociedade de classes, definida por Marx em 1846 e o permanente desentendimento entre os que têm e enviam os mais novos para escolas pagas e caras, em que aprendem o saber científico como saber erótico.

O melhor professor é quem começa a acarinhar os seus discípulos, com essa distância natural de pais e filhos. Hoje em dia, o perigo da pedofilia é quase universal em internatos, colégios privados e pelo que tenho investigado, entre a vizinhança. Não apenas a muito expandida pedofilia, como o estupro, a violação, a sedução, factos punidos pela lei, mas que acontecem por causa de uma libido que não sabe ensinar. Os docentes, ou são muito éticos no seu comportamento por amarem os seus pequenos, ou podem deixar-se seduzir pelos mais novos que sabem qual o comportamento habitual, sabem usá-lo e ganhar dinheiro com as suas artimanhas.

Será que saber ensinar passa também pelo erotismo? Parece-me que sim, excepto entre os docentes sérios que amam e são amados. Ensinar a saber é amor de casta pura e de entendimento do crescimento dos mais novos.

Não há escola de pais, mas sim de professores. Onde se aprende a saber ensinar sem punir, mas com o entusiasmo do que o adulto transfere ao mais novo. A escola de professores, é também útil aos pais se há bom entendimento entre os dois grupos.

Cumprimento a minha família dos aniversários desta semana e ofereço, além de outras prendas, estas meditações pascalianas.

Ensinar é um processo mais difícil e heterogéneo que o de aprender.

Ideias escritas em conjunto com Pierre Bourdieu, Maurice Godelier, w as minhas equipas francesas, britânicas e portuguesas.

Comments

  1. MAGRIÇO says:

    A “Ensinar é um processo mais difícil e heterogéneo que o de aprender”, eu acrescentaria: e com muito mais responsabilidade. De facto, considerando o reprovável comportamento de alguns pais relativamente aos professores, ainda vamos ter que criar escolas para pais ou, em extremo, obrigar os pais a recorrerem previamente a testes psicotécnicos para aquilatar da sua competência como educadores.

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