Todos contra a Barragem 0,1% – Depoimentos sobre o Douro e o Tua. 8 – Sant’Anna Dionísio (II)

(continuação)

Por momentos, a penediaparece querer esmorecer. É, porém, por enquanto, rebate falso. Mais um túnel (túnel das Falcoeiras). Volta a cornija quase suspensa sobre o profundo barranco. Agora surge um paredão estranho cujas raízes mergulham no leito tortuoso e cascalhento do rio, cujas águas, pueirs e rápidas, resvalam e brincam em consecutivos assaltos de espuma e granito.
De vez em quando o afluente recebe de um lado ou de outro algum córrego, nascido sabe-se lá onde, nalgum recôndito lameirinho só conhecido de alguma lontra lampeira, ou algum silvado vizinho do Reino dos Quintos. Ali temos, por exemplo, um desses ribeiros que vem das bandas de Carrazeda, e que dá pelo nome bíblico de Barrabás!
Cortes e mais cortes em esporões rochosos, amarelados, como que concentrados num inviolável mutismo.
Ao dobrar de um dos cotovelos do apertado e pedregoso vale, descobre-se na margem direita do rio, num recôncavo montanhoso, uma povoação empoleirada. É a aldeia de Amieiro.

– 13,5 km. Santa Luzia, est. (D).
O «desfiladeiro» começa a perder um pouco seus ímpetos dantescos. Ainda surge, porém, uma vez por outra, um ou outro recho de penedia grimpante.

– 15,5 km. S. Lourenço (est. (D.).

Desenham-se, à volta, alterosos cabeços e montados.
No Estio, o rio corre límpido e um pouco brincalhão; no Inverno, parece uma torrente enlouquecida, com redemoinhos temerosos.
Aparecem, a meia encosta, alguns trechos de vinha.
O vale, discretamente, vai-se alargando.
Segue-se em demorada horizontal. Estamos em

– 21 km. Brunheda, est. (D)..
O troço mais pedregoso e difícil da via férrea está a terminar. Os relevos são já mais macios. Entra-se nitidamente na zona dos xistos. A nota verdejante dos vinhedos acentua-se. Ao longo do rio, de margens relativamente acessíveis, há longas esteiras de areal esbranquiçado. Ao fundo, ergue-se um promontório, escalvado, de grande vulto, sobranceiro a

– 25 km. Codeçais, est. (D.).
Como em todo o Douro, notam-se aqui e além trechos de encostas que, antes da filoxera, teriam sido própseros vinhedos e, desde entãso, foram votados ao abandono. São os melancólicos mortórios.
Aparecem, ao longo do rio, alguns renques de densa folhagem – salgueiros, freixos, cerejeiras, figueiras – que são um verdadeiro regalo para os olhos, para não dizer antes, como diria o velho Pedro Hispano, um discreto lenitivo oftalmológico! Entretanto, no alto, subsiste o monte´já apontado, com o seu arcaboiço desnudo e abaulado. Segue-se um demorado trecho de terra inóspita, de volumosos montes: monte da Dona, de Freixiel, do Ferrado, relativamente próximos.

– 29 km. Abreiro, est. (D.).
Prosseguindo, percorremos um segmento demorado bastante tristonho, pela nudez e infertilidade das margens. De noite deve ser impressionante a presença destas penedias velhas e caóticas. Ao fundo, ainda se descobrem os montes de Carlão, vizinhos dos píncaros da Senhora Cunha.
De novo entramos num trecho de desolação. Nem árvores, nem casas. Terra paupérrima a pedir a vontade transfiguradora de um agrónomo israelita. Mal acabamos, porém, de escrever este resmungo de bom humor aparece, como que por ironia, um trecho de folhagem tenra. Um pequeno oásis! É ver este belo açude com um renque de choupos e um risonho valeiro, humedecido e fecundo, embora um tanto exíguo. É a chamada

– 34 km. Ribeirinha, est. (D.)

(continua)

Sant’Anna Dionísio, Guia de Portugal

Outros textos:
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2 – Guilherme Felgueiras
3 – Eça de Queirós
4 – Miguel Torga
5 – Pedro Homem de Mello
6 – Daniel Deusado
7 – Manuel Monteiro
8 – Sant’Anna Dionísio (I)
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Comments


  1. Ocorreu-me este, não sendo um texto, é um diaporama (com som) e vale mil palavras. As imagens foram feitas num passeio/convívio de familiares e amigos num domingo do Outono de 2006:
    http://ocomboio.net/diaporama/linha_do_tua_2006/index.html


  2. Atenção todos, sobre a Linha do TUa:
    No dia 26 JAN subirá ao plenário da Assembleia da República uma proposta de lei do Governo que transpõe uma directiva comunitária acerca da segurança do transporte marítimo, além de uma petição que defende a reabertura à circulação da Linha do Tua.

    Para informação e participação, no dia 26 de Janeiro de 2012, subirá ao plenário da Assembleia da República uma petição que defende a reabertura à circulação da Linha do Tua, levada a cabo pelo Movimento de Cidadãos em Defesa da Linha do Tua (MCDLT). Todos os cidadãos podem assistir à discussão em plenário, na AR.

    http://www.linhadotua.net/3w/index.php?option=com_content&task=view&id=744&Itemid=1

    Por favor divulguem!

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