Os 80 magriços do calendário.

Primeiro hesitei: existem, realmente, 80 historiadores em Portugal? Depois, reflecti e, embora contente com a descoberta, pensei melhor questionando-me novamente: Portugal tem apenas 80 historiadores ? Como não tinha a certeza do rácio entre historiadores e população no resto da Europa quedei-me reflexivo sobre o assunto. Não obstante este meu monólogo, discerni que a movimentação dos 80 historiadores portugueses quanto à abolição dos feriados 5 de Outubro e 1 de Dezembro só podia ser uma cartada de mau gosto neste jogo político em que o nacionalismo é o Ás de copas que estimula desde as bancadas parlamentares do Bloco ao CDS e o cidadão comum. Se existem 80 historiadores em Portugal capazes de defender algo tão puramente simbólico e bairrista como dois dias do calendário nacional, onde estavam eles quando foi necessário defender a qualidade da investigação histórica, falar alto contra a diminuição do ensino da História no plano educativo nacional ou, mais recentemente, tomar atitude enérgica contra a perda de autonomia dos Museus Portugueses que muito em breve serão entregues a comissões de gestão regionais dirigidas por bur(r)ocratas de chinelo? Enfim, onde se escondem estes 80 historiadores nos restantes 363 dias do ano?

Depois, fui com atenção ler os nomes dos ilustres magriços do calendário litúrgico português e dei-me conta do propósito do manifesto. Para o comum dos mortais estava perante 80 ilustres anónimos, mas quem conhece minimamente os meandros da historiografia portuguesa, um ou outro nome soava familiar. Entre todos, parecia haver em comum a apetência pela rive gauche: os republicaníssimos Carvalho Homem que têm espirrado ódio contra o fim das comemorações outubrinas, o António Reis, mação e historiador consagrado pelo aparelho socialista, Catroga, autor do Ensaio Republicano, Fernando Rosas, que dispensa apresentações, etc. A lista é respeitável, embora  a maioria rejeite o título de historiador ou historiadora, mercê do peso da responsabilidade de afrontar alguns sáuricos lugares, como os que atrás referi.

Se dúvidas houvesse sobre a tendência ideológica deste protesto, bastaria ouvir o porta voz do mesmo, Fernando Rosas. Ou consultar o dito manifesto na página do Jugular, arauto maior da inteligenttia esquerdista nacional e nacionaleira. É óbvio que o que está aqui em causa não é o fim do patriótico 1.º de Dezembro, mas que a já fraca matriz republicana das liturgia cívicas a cargo do Estado se liquidifique ralo abaixo sem a evocação do 5 de Outubro. Estes 80 senhores e senhoras, ufanados da sua repentina importância, vêm agora considerar as hipóteses de vergar políticos que nunca leram um livro de História até ao fim ou educar cidadãos que dificilmente sabem para que serve um historiador.

É sempre assim em Portugal. O desfazamento cultural e social entre elites e as zangas entre pares são os únicos momentos em que se afloram os papéis de uns e outros. Aconteceu recentemente com a maçonaria e agora com os historiadores. O resto do tempo vive-se um clima muito semelhante ao da Segunda República: um conjunto muito fluído de elites fundada em laços clientelistas, domina uma vasta rede amorfa de passivos que acatam sem questionar o valor daqueles indivíduos, na sua maior parte pura e simplesmente dependentes da força dos vínculos que os une.

Comments

  1. Daniela Major says:

    Nuno, só não cheguei a perceber é quem são os 80 historiadores. Não há por ai uma lista?


  2. Ok Nuno, o Rui Ramos, esse exemplo supremo de historiador sem ideologia nem preconceito e escola inglesa, não assina, logo é tudo esquerdalha.
    O facto de Catroga ser o maior especialista português sobre a República e o republicanismo, Rosas ter praticamente criado a historiografia do Estado Novo, o António Reis ser coordenador de uma monumental História de Portugal Contemporâneo, não conta para nada.
    É que pelos teus critérios não há mesmo 80 historiadores em Portugal: conservadores, formados em Oxford ou Cambridge e monárquicos não devem chegar para um equipa de futebol.

  3. Nuno says:

    Afonso Costa, volta, e desta vez arrasa com o Natal e tudo o resto!


  4. Daniela, o Jugular (ver link) disponibiliza uma lista com parte dos 80 manifestantes.


  5. JJC: não entendi a alusão aos monárquicos, nem vou por aí. Este não é um post sobre maniqueísmos.
    A historiografia portuguesa é tendencialmente de Esquerda. Eu vivo muito bem com isso, até porque ao contrário da maioria, não me limito a citar sem perceber porque o faço e tenho consciência de que a escrita da História, não sendo imparcial, implica pensamento. Infelizmente a vasta maioria dos investigadores sociais limita-se a produzir monografias sem teorizar. Prefere reproduzir o pensamento das cátedras, inibindo-se de as contradizer ou refutar. Assim se têm reproduzido muitos dos paradigmas formulados ou reaproveitados por estes historiadores no pós-25 de Abril, quando o marxismo servia de cartilha para tudo.
    De resto, fora da lista estão muitos e bons historiadores portugueses e algum deles têm feito ouvir a voz em assuntos que realmente interessam a Portugal.


  6. II República !? Mas que II República, aquela que não deixava festejar a República pelos republicanos? O interregno que vigorou entre 1933 e1974? Seria a tal república de eleições com listas únicas ou das outras em que os votos da oposição eram encontrados amarrados por cordéis no fundo das urnas e em que até os mortos e desaparecidos votavam? Não me digam que é a dos insignes historiadores do regime salazarista… Eles, que tão bem celebravam o Dia da Raça! O último até (re)faz a história… talvez seja da idade, coitado!

  7. mortalha says:

    caro Nuno, não se chateie assim tanto! olhe que ainda quebra o lápis azul


  8. Ora historiadores com canudo houve 1000 e picos por ano durante quase uma vintena de rotações ovais translactivas logo se não emigraram deve haver 20 mil pelo menos
    (tirando os suicidas e os que morreram de fome)

    é um campo de muitas especializações e mestrados

    logo é normal que apenas 80 se tenham especializado no estudo do feriadame nazional


  9. mortalha especializada em efemérides e obituários disse:

    caro boçês são caros? que barato….um bom con selho, não se chateie assim tanto!
    olhe que ainda quebra o lápis azul= lápis lazuli

    um super-especialista que não assinou a lista porque não afectou o primeiro de novembro

    é que dia dois ainda não é feriado…

  10. Ricardo Santos Pinto says:

    Tens razão em algumas coisas, Nuno, sobretudo quando dizes que essas pessoas nunca se preocuparam que a História fosse cada vez mais um parente pobre. Mesmo sendo a favor da República, acho que também tens razão acerca do 5 de Outubro, um Feriado que há muito não se justificava. Se queriam comemorar alguma coisa, comemorassem 1820, muito mais importante. Quando vejo certas pessoas tão assanhadas com o fim do 5 de Outubro, lembro-me logo dos aventais.

  11. mortalha says:

    o único feriado descartável é o domingo de páscoa.


  12. fascista…eu trabalho aos domingos….

    excepto aos feriados que são domingos….

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

%d bloggers like this: