Já fui poeta da luz

adão cruz

(Poemas de mãos dadas)

 Já fui poeta da luz quando a palavra alumiava o infinito e o sol nascia dentro de mim.

Quando a vida alumiava o infinito eu nasci na erva e dormi no feno e acordei com melros e rouxinóis e saltitei com os pardais.

Quando me vesti de sol e me despi de luar e estreei o mundo no abraço das árvores e no beijo dos rios.

Quando meus olhos dormidos casavam a noite e o dia no mesmo silêncio de sonho-menino.A vida viveu em mim crescendo todos os tamanhos e medindo todos os céus.

Um dia abri as janelas que me disseram haver dentro dos homens e só me apareceram muralhas.

Nada de crianças.

Os homens comeram as crianças os homens comeram-se crianças os homens pariram-se adultos.

Também eu fui criança e matei em mim a criança que procuro.

Por isso a luz se apagou por isso já não sou poeta já não sou poeta nem nada não sou luz da serra nem sombra nem luz nem sombra da noite no alvor da madrugada não sou coisa nem nada.

Talvez louco…

O louco não tem número o limite da soma é o vazio.

Não sou murmúrio de rio nem cigarro viciado nem ponta de cio nem lua patética crescendo e fugindo do tempo que passa.

Não sou quebra-luz nem gavinha entrelaçada num abraço de frio.

Sete raios de sol queimaram o sonho sete chuvas de esperma o fecundaram.

Já não sou resina nem merda nem urina nem sangue nem seiva.

Morreram Afrodites e leões de pêlo fulvo quando se inventou a alma e eu não sou mais do que rescaldo.

Já não sou poeta nem nada já não sou quem era… não sinto as noites de prata nem mexe comigo a ventania que varre as faldas da serra.

Não me doem as videiras espetadas no céu nem os castelos de fantasia caídos por terra.

Cada erva cada semente é resto de uma canção que já não sei cantar.

Fugiu do peito o coração foi-se embora o luar e o rio que eu era nem sequer chegou ao mar.

Resta-me a tarde que declina como o lento caminhar de uma nuvem para o fundo escuro da noite.

Resta-me a saudade dos olhos na luz viva de um sonho perdido num campo de violetas.

A tarde declina para onde não há outra manhã de corpos apertados e corações bem perto.

Já não sou poeta nem nada nem credo nem sonho nem dilema nem a magra esperança de uma luz que faça nascer um verso para acabar o poema.

Sou pirilampo das sombras voando pelos regatos secos não sei se vou longe se vou perto se ao cimo se ao fundo não sei se giro por dentro ou por fora do mundo.

Comments

  1. marai celeste ramos says:

    Não será fácil ver, mas há sempre luz no meio da escuridão que predomina, mas como é tudo o que escreve este senhor Adão Cruz que não sei quem é mas É
    obrigada-mcor


  2. Tal como Whitman, o caro Adão é sem dúvida poeta do corpo, poeta da alma! Parabéns!

    “I am the poet of the body,
    And I am the poet of the soul.
    The pleasures of heaven are with me, and the pains of hell are with me,
    The first I graft and increase upon myself . . . the latter I translate into a new tongue.”

    Walt Whitman in Song of Myself

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