Ratificação das contradições de Krugman

A convite do primeiro comentador deste ‘post’, Krugman contra Krugman, assisti à homenagem a Paul Krugman, Nobel da Economia em 2008, na Aula Magna da Reitoria da Universidade Clássica de Lisboa. Ouvi-lhe alguns argumentos de estilo e conteúdos habituais, dos quais destaco:

  • A Alemanha está a comandar energicamente a ‘zona euro’, optando por uma política ortodoxa de controlo orçamental e anti-inflaccionista, em vez de seguir a via expansionista, acompanhada por medidas de acesso a dinheiro fácil junto do BCE.
  • O primeiro-ministro português está condicionado e tem pouca influência; do género das capacidades limitadas do governador de New Jersey nos EUA.
  • A Grécia está definitivamente perdida e vai sair do euro.
  • A Irlanda, ao invés do que se diz, não é um caso de sucesso.
  • Portugal tem 75% de probabilidades de permanecer no euro.
  • Cortes nas despesas acentuados causam perdas de receitas consideráveis dos impostos, a um ponto tal que o rácio défice/PIB piorará bastante.
  • Mais austeridade é uma medida destrutiva.

Em conferência de imprensa, noticiada aqui e aqui, Paul Krugman voltou a defender que os salários dos portugueses deveriam ser reduzidos de 20 a 30%, tomando por referência à Alemanha.

Da comparação feita no ‘post’ anterior, relativa a 2010, com dados do Eurostat, já ficou demonstrado que, nesse ano, os ‘custos de trabalho mensais’ eram cerca de 43,77% de idênticos encargos alemães. Subsiste, pois, a ideia que Krugman está ser grosseiramente contraditório, ou seja:

  1. Crítica a aplicação da austeridade em grande dose, mas propugna a redução de salários de 20 a 30%, tomando por referência um dos países que melhor paga, a Alemanha.
  2. Não faz qualquer alusão ao pesado corte de retribuições que se vem praticando desde 2011 e que este ano serão excepcionalmente agravados para trabalhadores e reformados da f.p., pensionistas do sector privado e outros trabalhadores do SEE ou equiparados.
  3. Embora estabeleça a Alemanha como padrão – repito – esquece-se de que a estrutura do tecido económico português, tecnologicamente, está muitíssimo distante da capacidade e da versatilidade da economia alemã.

A certa altura, Krugman garantiu que não estava a propor a indexação dos salários portugueses aos chineses. Se não estava, pareceu a muita gente do auditório que andou lá perto.

Comments


  1. terão de ser ajustados em relação aos salários médios alemães
    (nomeadmente os dos funcionários públicos)

    é mais fácil fazê-lo em escudos 5700$ (1978) 7700$ (junho 1979) é só ir aumentando que assim ninguém se queixa…a culpa é da carestia dos açambarcadores…etc

    fazer sanitários de barro com tecnologia portuguesa (comprada na alemanha nos anos 90) e enviá-los a custo zero para quem os queira comprar tem de facto muito mais interesse


  2. os chineses na indústria da trefilagem do fio de alumínio…já ganham 450 dólares por mês

    logo indexar aos chineses isso queríamos nós daqui a 10 ou 12 anos

    os chineses podem cortar o crédito aos EUA e substituir parte das exportações para o mercosul…só que muitos do mercosul produzem mais baixinho que as grandes empresas de Xangai…isto de comparar com a china já era


  3. Exportações : 31% do PIB

    Importações : 20 milhões de toneladas de petróleo = 10.000 milhões de dólares/ano
    Gás Alumínio Ferro e carvão Aço 70% dos cereais (90% este ano)

    há outras opções claro….


  4. A baixa de salários não foi o que ele defendeu para a economia americana contra Amity Shales. Quem o topa é Donald Luskin que diz da sua coluna no NY Times: “a sua coluna é pura política e não economia. É o equivalente aos astrónomos Mather e Smoot – vencedores do Nobel da Física em 2006 – escreverem sobre astrologia”.


  5. Ora bem: ‘ratificação’ ou ‘rectificação’?
    Contradicções? Ou ‘contradições’?

  6. Carlos Fonseca says:

    AM,
    Ora vamos lá:
    RATIFICAÇÃO = Reconhecimento como verdadeiro, confirmação, corroboração (Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, pg. 3090);
    CONTRADIÇÕES, sim, é o correcto. Errei e emendei.
    Obrigado!
    (Obs.: Verá certamente que no texto anterior, Krugman contra Krugman, sempre escrevi contradição ou contradições. Provavelmente, estou a ser contaminado por tantas discussões do AO que eu não sigo).


  7. “A baixa de salários não foi o que ele defendeu para a economia americana”

    Pois não, a America tem moeda própria. E se Portugal também tivesse, teria defendido uma desvalorização do escudo, não uma baixa de salários cá. Até defendeu uma subida dos salários alemães, mas parece que isso está fora do nosso alcance.

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