Duas coisas óbvias sobre o último choradinho de Cavaco

É inacreditável que Cavaco tenha publicado memórias sobre o seu último mandato, estando em funções que são a continuidade desse mandato, mais uma vez se comprovando que é a sua agenda pessoal que o move. Vejo este livro como uma forma deste político “não profissional”, como ele próprio se definiu ao definir os outros de “profissionais da política”, como uma  reacção ao recente comentário desbocado sobre os seus vencimentos, numa tentativa de se elevar rebaixando o morto. Agenda pessoal, portanto. Naturalmente que quem anda à chuva, molha-se, especialmente devido à opção pela intriga palaciana em vez de comentar o que se fez à economia.

O segundo aspecto óbvio desde o primeiro momento, salvo para aqueles que preferiram engolir a propaganda socrática, é que Sócrates quis fugir dos seus seis anos de governação, que não resolveram os problemas do país e que ainda os agravaram. Recorde-se, por exemplo, a injecção de dinheiro em algumas empresas no período pré-eleitoral (Parque Escolar, só para citar uma), deixando-nos ainda mais fragilizados perante os detentores de dívida pública (os famosos mercados). E lembremos-nos da nacionalização do BPN (que transformou um problema privado num problema de todos) e do caso BPP. Se os anteriores governos abriram a cova, os de Sócrates mataram o moribundo e o actual governo está a fazer o enterro.

Cavaco volta a sair mal na foto e ainda tem quatro anos de mandato pela frente. Aguentar-se-á? Claro que sim. O Presidente da República não pode ser demitido e este não tem estaleca para se demitir.

Comments


  1. Lá vai por água abaixo aquela máxima republicana de que podemos escolher ou abolir o presidente. A falácia está à vista.

  2. MAGRIÇO says:

    Caro Nuno, não vejo qualquer falácia:a isto chama-se democracia! Pessoalmente Cavaco nunca me convenceu, mas a maioria dos votantes – que não a maioria do eleitorado – deu-lhe a sua confiança e, embora sempre ter considerado ter sido uma opção pouco racional, há que respeitar. A boa notícia é que este será o seu último mandato – não acredito que, mesmo após um interregno, ele volte à ribalta. Já pensou se ele fosse o rei dessa sua tão celebrada monarquia? Tínhamos de levar com ele durante toda a sua vida. E, por favor, não me venha com a falácia – essa sim! – da destituição! Em 771 anos de monarquia, quantos monarcas foram destituídos? Exceptuando o “rex innutilis”, não me recordo de mais nenhum.


  3. Ó caro Magriço, adorei o seu comentário! 🙂

    P.S.: Devido à minha ignorância, ainda andei a pesquisar quem teria sido o tal “rex innutilis”, mas depois veio-me à ideia que, tirando um ou outro, aqui e acolá – a excepção, pois, que confirma a regra – todos eles foram e são nefastos e … inúteis! Compreendo, no entanto, que é muito giro brincar aos reis e às rainhas, mas isso quando se tem à volta de 4 ou 5 anos de idade!

  4. MAGRIÇO says:

    Cara Isabel, segundo o seu padrão – sei que está a ser modesta! – todos nós somos ignorantes. Como diz um amigo meu, “Ninguém sabe tudo, mas eu não quero ser Ninguém”. Referia-me a D. Sancho II, deposto por Inocêncio IV, em 1245, no Concílio de Lyon (Reino de Portugal – 1139 – 1910) considerado pelo Papa como Rex Innutilis, embora mais por intrigas palacianas do que propriamente pelo seu desempenho enquanto monarca. Mas houve, de facto, outro rei deposto, D. Afonso VI, por manifesta instabilidade emocional, mas deposto igualmente por iniciativa da corte. Convenhamos que, em 771 anos de História, não se pode dizer que seja regra e muito menos de iniciativa popular.


  5. Caro Magriço, graças a si, e a outros que, como o Magriço, são pessoas sensatas nos seus comentários, tenho aprendido imenso. Claro que, também e sobretudo, graças ao Aventar, que nos proporciona este meio de partilha e aprendizagem!
    Grata pela lição de História, porque, acredite mesmo, nesta área, e em muitas outras, confesso, sou uma nulidade! Contudo, sou também um ávido poço sem fundo no que toca a aprender! Aprender até morrer, mas sempre de olhos bem abertos, espírito crítico bem alerta e raciocínio próprio bem desenferrujado! 🙂

  6. MAGRIÇO says:

    Ó minha cara Isabel, muito obrigado pelo conceito que de mim faz mas olhe que é pura gentileza sua. Todos nós aprendemos todos os dias (só os ignorantes é que sabem tudo, nunca têm dúvidas e raramente se enganam – onde é que já ouvi isto?) Estou convencido que muito teria de aprender consigo na sua área de actividade ou de interesse. E, sabe – sem falsa modéstia – estou absolutamente de acordo com a asserção de que quanto mais aprendemos mais temos consciência da nossa ignorância. Como muito bem diz, devemos estar sempre prontos a aprender e a ponderar sobre o que aprendemos.


  7. É bem verdade o que diz, caro Magriço, e já o filósofo o afirmava: “Só sei que nada sei”! 🙂

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.