O contraditório ao jornalismo de retrete

O caso do artigo que Francisco Almeida Leite escreveu em papel higiénico preto, passe a publicidade, e que tem a lata de defender perante Oscar Mascarenhas armando-se em sénior (tem uma longa carreira como moço de fretes do situacionismo passista, isso é verdade) com o mirabolante argumento de que não era preciso exercer o contraditório, ou seja fazer jornalismo, porque se tratava de um argumentário do governo, tem dado muito comentário. Eui vou-lhe dar o contraditório, a partir de caixas de comentários à notícia espalhada online com pequenas correcções linguísticas, o estilo não será o melhor, mas a verdade não precisa de literatura:

FAL: “Descanso na CP para cada trabalhador é de 30 dias/ano. No metro de Lisboa, se gozados fora do período “normal”, pode também chegar aos 30 dias.”

 É verdade que os motoristas de carris têm 30 dias de férias enquanto os restantes têm 25 , só que nós motoristas temos dias corridos e não dias úteis, se eu tirar 30 dias de férias as minhas folgas contam como dia de férias e se fosse no regime dias úteis os fins de semana (folgas) não contam como dias de férias, então agora façam as contas para ver quem é que tem mais dias de férias , os que têm 25 dias uteis ou 30 dias seguidos.

FAL: “Carris, Metropolitano de Lisboa e STCP atribuem complementos de reforma para permitir que os ex-funcionários ganhem o mesmo que na sua última remuneração.”

 O tal complemento de reforma e não só é descontado do ordenado, ou seja a empresa gere um dinheiro lá depositado, e não do dinheiro dado pelo estado.

FAL“viagens gratuitas para os funcionários da CR incluindo reformados e familiares. Só na Refer o custo com estas viagens ascende a quatro milhões de euros/ano.”

Antes de mais trabalho no setor ferroviário e não é bem assim. Os meus pais tem direito a 4000 Km grátis e depois pagam 1/4 de bilhete o mesmo que pagam policias, tropas, guardas prisionais e bombeiros sapadores. O meu filho quando tiver 18 anos deixa de ter regalias pagando como qualquer passageiro apenas os pais, mulher ou marido tem 4000 km. A historia de irmãs solteiras é de um acordo muito antigo que já não está em vigor, e há mais gente que não paga para andar de comboio que nem trabalha no setor ferroviário [juízes, agentes da PSP, PJ, etc] portanto desafio os senhores jornalistas a contar as histórias com rigor, porque quem vê estas noticias pensa que é só benefícios à toa. Na questão dos subsídios, foi uma maneira simples de ter ordenados baixos e ficar prisioneiro de subsídios que se sabe qual é o seu futuro, foi moeda e será sempre moeda de troca dos sindicatos e do patronato de acordo com a ocasião para ter os trabalhadores presos, e para isso há que ter em conta que trabalho a 100 km de casa porque fui deslocalizado.

Fiquemos por aqui. Além de mentiras descaradas (como a dos 30 dias de férias) os ditos privilégios decorrem de Acordos de Empresa, como até FAL afirma, mas como depois lhe convém ter algumas limitações na capacidade de desenvolver um raciocínio não alcança que esta é a mesma história dos subsídios de férias e de natal: não são subsídios, fazem parte do vencimento anual, tal como aqui não se trata de privilégios mas do resultado de negociações. Tirem-lhes os subsídios e convertam-nos em vencimentos e duvido que os trabalhadores se queixem.

O que os FAL deste mundo não divulgam é que

em 2010, a dívida destas empresas atingia 16700 milhões de euros. No próprio Plano Estratégico de Transportes o governo reconhece que “A dívida histórica das empresas do SEE de transportes públicos terrestres resulta, em parte, da concretização de projetos de investimento da responsabilidade do Estado” (pág. 45).
Somente no período 2006/2010, as empresas públicas de transportes foram obrigadas a absorver encargos financeiros no valor de 2754 milhões de euros, verba que é superior às despesas com pessoal (2413 milhões de euros), facto que contraria a ideia amplamente difundida de que o cerne do problema estaria nas remunerações do trabalho. in Coisas da Economia
Esse é o problema das empresas se transportes, mas enquanto o pau vai e vem ganham os bancos.
Notas:
Podia ter contactado os sindicatos do sector e certamente obtido muito mais dados e com outra fiabilidade. Podia, mas não sou jornalista nem o Aventar faz jornalismo. Já fiz, mas desisti quando percebi que ou me dava com os moços de fretes à Francisco Almeida Leite ou a vida me ia correr mal.
Não utilizei os comentários ao que aqui escreveu sobre o assunto o meu amigo Fernando Moreira de Sá, primeiro porque o rapaz fez anos, e segundo porque basicamente se esqueceu que no Aventar se denunciou a mentira dos salários milionários dos maquinistas, detalhe que lhe foi fatal…

Comments

  1. Tito Lívio Santos Mota says:

    se os portugueses têm 25 dias de férias, quer dizer que têm quatro semanas de férias (contando os fins de semana.
    Se se trabalhar num setor de horários fixos, podem-se somar as pontes.
    Nos transportes estas coisas não existem porque são horários flexíveis e as folgas nem sempre são seguidas.
    30 dias para aproximar dos que têm 25 e não o contrário.
    Ou seja, se não tivessem 30 dias, nunca teriam 4 semanas de férias como toda a gente.

    Agora pergunto : será que há assim tanta gente que nunca se deu ao trabalho de contar os dias pagos, de férias, folgas e outras normas inerentes ao seu horário de trabalho?
    E não me venham com aquela do “eu penso é em trabalhar”. Porque se pensam em trabalhar a primeira coisa a fazer é calcular o tempo de trabalho.
    Se calhar quem come estas petas o que pensa é mais em descansar que trabalhar e fica com inveja das férias do vizinho.

    Fico sempre espantado com o facto de que a imensa maioria das pessoas nem sequer sabem que o mês de trabalho não conta 30 dias em média mas 22.

    Enfim…

    PS : em França, antes da introdução da 5° semana de férias, ninguém partia de férias antes do verão. Se hoje até em Portugal todos pensam em ir dar uma volta à “neve” é por causa da explosão das férias de massa na “neve” acontecida em França nos anos 80.
    Quanto perdeu a economia francesa com isso?
    Nada!!!
    Antes ganhou um desenvolvimento louco de regiões em plena desertificação até então.

    A economia não é matemática… nem simples.

  2. margarida soares franco says:

    Eu troco a minha reforma, obtida ao fim de 40 anos de trabalho como professora, pelo ordenado de um maquinista…mesmo sem as viagens e subsídios (por faltarem 0, 1, 2 ou 3 dias) que recebem-. E não me venham com a GRANDE responsabilidade que têm !!!!!!!!!!!

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  1. […] Pode. Francisco Almeida Leite, o mentiroso do DN, recebeu os três dinheiros. […]

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