Jean Giraud morreu, mas Giraud e Moebius sentem-se bem

A banda desenhada foi, desde sempre, a par do comboio, um dos meus meios de transporte preferidos. Depois de um estágio na Disney, com a leitura dos Patinhas, em edição brasileira (perfeitamente legível, imagine-se), passei para a escola franco-belga, com o pequeno repórter Tintim e o ainda mais pequeno gaulês Astérix. A pulsão coleccionadora da revista Tintim proporcionou-me, ainda, o conhecimento de outros heróis e de outras escolas.

Habituado ao traço de Hergé ou de E. P. Jacobs, comecei por estranhar Corto Maltese e Blueberry, que, depois do estranhamento, se entranharam. Blueberry ainda por cima, fez parte de uma outra aprendizagem: a de que os índios eram seres humanos e a de que os brancos podiam ser desumanos.

Mais tarde, primeiro através de textos de divulgação publicados na própria revista Tintim e, depois, através da compra milionária de álbuns e revistas estrangeiros, tive ocasião de estranhar outros desenhos e outros heróis. Na revista Métal Hurlant, apareciam mundos desconhecidos, desfigurações espectaculares do traço franco-belga. Um dos autores assinava com o nome de Moebius e criava universos absurdos através de um traço absolutamente límpido.

Pouco tempo depois, descobri que Moebius era, afinal, uma espécie de heterónimo de Giraud, o autor de Blueberry. Sendo um homem das imagens, soube que teve, ainda, passagens pelo cinema e pelos jogos.

Hoje, morreu o cidadão Jean Giraud, criador dos autores Giraud e Moebius. É um bom dia para revisitar o tenente Blueberry e Jerry Cornelius.

Comments


  1. Fiz o mesmo percurso e subscrevo inteiramente a revisitação!… Estranhei mais o Corto Maltese que o Blueberry, mas ambos também se “entranharam”… O primeiro foi-me “apresentado pessoalmente” (mais tarde) pelo Hugo Pratt numa entrevista do Vasco Granja!

  2. António Fernando Nabais says:

    O Corto Maltese era muito mais estranho, com certeza. Aliás, havia muito leitor da revista que era contra a sua publicação. Ainda bem que estavam lá o Vasco Granja e o Dinis Machado a zelar por nós.


    • Faltam-me aí a fase Humanoïdes Associés, e o Alien quem sem ele não seria bem a mesma coisa. Ficam aqui, já que chegaste primeiro que eu. Este homem ajudou-me a ser homem, um grau de evolução na escala animal que quem não o leu nem percebe nem deve conseguir atingir.

  3. marai celeste ramos says:

    Ninguém falor no “Papagaio” e no Mosquito

  4. António Fernando Nabais says:

    #4
    O epitáfio saiu muito mais curto que o homem, é verdade, mas deixa-me só lembrar que a “Métal Hurlant” foi a revista editada pelos “Humanoïdes”. Quanto ao “Alien”, o primeiro e o melhor de todos, teve o dedo do Giraud-Moebius, é certíssimo. De resto, nada a opor ou a acrescentar.

  5. Manuel Nicolau Brandão says:

    Para além de um desenhador incomparável, pela qualidade e pela versatilidade das linguagens que usava, era um Homem simples e de grande simpatia, mas de profunda complexidade e um humor que, nas suas criações atingia níveis de non-sense hilariantes.
    Para confirmar estas adjectivações basta ver o nº 1 da Metal Hurlant onde publica 4 (quatro) histórias diferentes, com enredos, grafismos e sobretudo linguagens completamente diversas. Como se isso não bastasse escreve uma crónica subscrita por um tal “Major Grubert” que começa assim: “J’ai decidé de faire une chronique pour la revue (…) Bien sûr ce sera une catastrophe car je n’ai strictment rien a dire, et que mon style est nul.” E por aí adiante…
    Conheci-o na sede dos Humanoïdes Associés em 76. Falamos de BD, da revista e ofereceu-me o álbum “La nuit”, que tinha acabado de sair, dedicado por Philippe Druillet (o outro Humanoïde desenhador) à sua esposa Nicole recentemente falecida.
    Claro que desde então sou um apaixonado por ele. Segui religiosamente e ri-me das loucuras que foi publicando naquela revista e nos álbuns editados. O ponto mais alto da sua obra, em termos de revolução da linguagem da sequência narrativa, chegou com “Les yeux du chat”. Já que foi quebrado o compromisso com os assinantes da revista sobre a exclusividade daquela primeira edição, para quando a sua edição em Portugal? Tem tão pouco texto para traduzir… Não seria esta a melhor homenagem dos editores que se dizem tão amantes da BD/HQ (histórias aos quadradinhos) a um dos seus mais brilhantes criadores?
    Vou ter muitas saudades dele. Um abraço a todos os que partilham desta tristeza.

  6. António Fernando Nabais says:

    #6
    Manuel, sem querer desfazer de nenhum dos outros comentadores, o seu comentário só enriquece o meu texto e deveria, até, estar no lugar do meu texto, pois não é todos os dias que se tropeça em alguém que tenha privado com um autor tão importante e que revele conhecer a obra como eu gostaria de a conhecer. Aliás, se quiser escrever um texto mais completo, sinta-se à vontade e teremos todo o prazer em publicá-lo.

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