Regras para a escrita e adeus

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Se bem me lembro, são 61 anos que ando no jogo da escrita. Aprendi a escrever bem antes de ir a escola. Devo confessar, no entanto, que a escola nunca fui, foi a escola que apareceu em casa na pessoa de uma professora primária, que ganhava tostões extras por me ensinar. Devo confessar também, que o trabalho não era pesado para ela: aprendi as primeiras letras com os meus progenitores, como narro no meu livro mais recente Memorias de un extranjero extravagante, que escrevi en castelhano chileno. Língua muito semelhante ao luso europeu, onde não há palavras consonantes. A leitura, no colo do meu pai, a escrita, no da mãe, enquanto espreitava os livros que eles liam. Era filho único, até os cinco anos, data na que nasceu a minha irmã que adoro e, a seguir, outros quatro, que pareciam lutar por ser quem aparecia primeiro neste mundo. A distância entre todos eles variava entre 11 meses ou 12.

Parece-me que foi este facto o que permitiu ser o mimado por não haver outros gastos em casa, que no fossem os meus ou as visitas que adoravam ir a nossa quinta ao pé do mar, a baia de Laguna Verde, que tenho mostrado em outros livros da minha autoria. Talvez tenho aprendido a escrita de tanto ler Charles Dickens em inglês, os mitos gregos em Castelhano europeu, terra berço dos meus pais, e Jules Verne en francês, especialmente Vinte Mil Léguas Submarinas (Vingt mille lieues sous les mers) de 1870 e A Volta ao Mundo em Oitenta Dias (Le tour du monde en quatre-vingts jours), de 1873.

Porque tanta língua? Era o que se falava em casa, o britânico pai, basco nascido no Chile mas excelente navegador dos quatro mares, como engenheiro que era, e o saber aprendido pela Dama da Corte da Rainha de Espanha, de família em Sevilha, Corte da Rainha, nascida en Alicante. Poucos anos foram na Nação mãe, da que tanto custara depreendermos para ser chilenos livres e independentes, faz já mais de duzentos e doía anos. Estrangeiros, toda a sua vida. A Senhora mãe nunca abandonou a sua cidadania de origem a atendia a Dona Sofia de Bourbon e Grécia, quando aparecia no Chile. Para se preparar melhor, estudou contabilidade e línguas na Universidade Católica de Valparaíso, onde todos aprendemos, mais tarde na vida, alguma coisa, os cinco que passamos a ser como irmãos. Aprendi, ou mal soube entender a matemática, vergonha para filho de engenheiro, mas a gramática e a escrita, a par e passo com a leitura, era a minha alegria da vida. Dona Adriana Otárola de Miranda sabia muita história, do Chile e do mundo e semeou em mim o ensejo de percorrer os continentes e conhecer sempre novas pessoas. Comecei a andar dentro do Chile aos meus seis anos, pela sua convicção de que sabemos ou não da nossa terra, ou somos loucos perdidos. A geografia fantástica de Jules Verne, me ensinara o resto, que ela controlava. Até esse dia em que disse já não consigo ensinar mais a este rapaz, sabe mais que eu! Bem como, quem podia, estudava em casa, mas até uma certa idade, os onze anos. Os estudos secundários eram uma reunião de rapazes da mesma idade. Com onze anos comecei os meus estudos no Colégio Privado dos Frades Dominicanos, acabando como bacharel aos 15. Entrou pela minha cabeça a ideias de ser sacerdote e aos dezasseis fiz-me frade. Não estive mais do que seis meses: a grande festa acabou em fracasso e fui à Universidade a estudar Direito e Ciências Sociais. Curso acabado, transferi-me para a Antropologia, que no Chile apenas existia en Concepción, centro sul do Chile, sitio das nossas terras e posses por parte de pai. As da mãe, en Valparaíso, como as suas irmãs e os dois irmãos mais novos, Ángel e Manuel. Se no sul era frio e húmido, o deserto de Atacama no norte, um calor que apenas os mineiros do nitrato e do cobre, sabiam suportar.

Confesso também que sai de frade por não ser permitida a satisfação da líbido nem dar beijo as lindas picunches que trabalhavam nas nossas terras. Uma delas me enredo entre as suas pernas, como relatei num ensaio privado e no meu livro de Memorias. Conheci aos vinte, uma rapariga que me cativo e aos 25 anos passamos a ser marido e mulher, com esse profundo amor elegante nostálgico e romântico. Vinha da Alemanha. Mal tivemos a nossa primeira descendente, propus-lhe se não queria tornara Europa e com bebé de nove meses, á fomos…até o dia de hoje.

A gramática foi o meu cativeiro. Adorava escrever y tenho não apenas mais de mil cadernos para não esquecer a vida, bem como 69 livros publicados. E os que viram. Aprendi que as notas ao pé de página, informavam ao leitor sem interromper a narrativa e o estilo do livro. Tenho passado a ser um voraz escritor com notas imensas. Desgostam aos meus editores que me têm proibido usar este artifício. Assim sendo, como posso informar ao leitor da base das ideias narradas no texto central? Quem manda na minha escrita, o editor ou o autor, que sou eu? O editor, parece-me. Se o editor decide, quem é o autor do texto, esse que não pode passar de duas páginas? A minha opção é terminante. O meu hábito sempre foi sete páginas para um ensaio, 200 para um livro. Além de todo, as vezes escrevo para o boneco: começo as 6 da manhã, hora do silêncio e fecho os telefones caso um despistado apareça a interromper o diálogo das minhas ideias. Ser escritor é a maior das solidões, especialmente quando vamos no último decénio da nossa vida e. se não digo todo o que ainda sei, as ideias vão comigo. É verdade que a escrita precisa disciplina e eu tenho a minha, que nasce da minha experiência. Há editores que acumulam os meus textos e no desespero final, publicam ideias datadas, que não têm objetivo.

Para a escrita, o melhor é sermos os nossos próprios patrões. É assim que os nossos livros são premiados, apesar de nem pagarem direitos de autor, como é o meu caso em relação a livros. Pelos ensaios, apenas espero ser publicado e no momento da análise e não falar do Natal em Marco!

Lamento, fui convidado pelos bloguistas. Um, publica todo, mas entrou um novo regulamento sobre como escrever, que é quase como ensinar uma criança o abecedário. Um outro, nunca tem tempo para publicar.

É pena, adorava essa escrita que espalhava pelo mundo como farei com este.

Mas, Jules Verne também ficou enredado e teve que sair do seu país para escrever como ele entendia.

Agradeço e despeço-me dos meus protetores, com tristeza. Amanhã começo um livro. Não hã tempo para tanta coisa com regras impostas e outras que não se cumprem.

Raúl Iturra

ISCTE-IUL-CEAS-CRIA

lautaro@netcabo.pt

12 de Março de 2012.

Vicenzo Bellini Norma Área Casta Diva Maria Callas

Comments


  1. Parabéns pelo texto comovente e pela obras que já escreveu e tenciona escrever!. Vou reler o seu texto com mais atenção! abraço, Céu Mota (Aventar)

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