Os exames como distracção

O debate sobre a importância dos exames parece-me necessário, mas, ao mesmo tempo, parece tornar-se numa distracção, o que nos pode levar a uma leveza excessiva e à exclusão de outros problemas do ensino.

Procurei, aqui, sintetizar as reacções ideológicas, quase instintivas, da direita e da esquerda, face aos exames. Admito que o texto, pela sua (e pela minha) dimensão, seja demasiado esquemático, excluindo muitos matizes, por ter deixado de fora alguns pontos cardeais e colaterais.

O Paulo Guinote, irritado com algumas reacções esquerdistas, tem escrito alguns textos acerca do assunto, chamando a atenção para o facto de que houve muitos que passaram por exames e não ficaram traumatizados por isso. Em primeiro lugar, tenho que confessar que fiquei traumatizado por muito daquilo que a escola me obrigou a fazer, exames incluídos, especialmente porque me roubaram tempo para perseguir malfeitores e para fazer passes para golos, na minha qualidade de médio criativo. Depois, não acredito que seja possível educar sem traumatizar, de preferência no melhor dos sentidos. Seja como for, a argumentação a favor dos exames não se pode limitar, evidentemente, aos traumas existentes ou inexistentes em gerações anteriores.

O nosso João Paulo, neste texto, entra em diálogo com o Paulo Guinote, mostrando uma preocupação legítima com a possibilidade de os exames servirem, apenas, para excluir. Efectivamente, não sendo eu visceralmente contra os exames, temo que estes sejam utilizados pelo governo como uma espécie de solução, quando os problemas do Primeiro Ciclo do Ensino Básico estão a montante.

Resumindo, e pedindo perdão aos amáveis contendores pela intromissão, penso que a (re-)introdução dos exames deve ser feita como base numa reflexão acerca da sua necessidade e sempre no âmbito de problemas mais gerais. Deste modo, os exames não deverão existir porque não fazem mal, mas porque são necessários e úteis; para além disso, o Primeiro Ciclo do Ensino Básico não pode continuar a viver desamparado diante de problemas sociais, económicos e psicológicos, submergido em revoluções curriculares constantes e atrapalhado por eventuais falhas da formação inicial e contínua.

Comments


  1. António, este texto é que me parece muito esquemático na caracterização das posições alheias, até porque (no meu caso) remete para posts meramente de memória iconográfica.

    Sendo politicamente incorrecto e anti-corporativo eu diria o seguinte, de forma muito clara:
    No estado actual do nosso desenvolvimento educacional, os exames são necessários no final de cada ciclo de escolaridade como forma de responsabilização de todos os envolvidos pelo seu trabalho. Isto sempre partindo do princípio que os exames são feitos por gente competente.

    Quanto ao “desamparo” do 1º ciclo, no contexto actual de agrupamentos com as EB23, não compreendo que permaneça, a menos que existam (eu sei que existem!) imensas falhas de comunicação com os órgãos de gestão e os grupos disciplinares do 2º CEB.

    Nesse caso, o desamparo tem dois sentidos, sendo que um é o de quem é, mais do em que outros ciclos, encara o trabalho com a turma como apenas seu.

  2. joao says:

    Não me parece que o texto que li seja esquemático, mas tenho a certeza de que há, nesta altura e sobre este assunto, posições bastante esquemáticas.


  3. Nos exames não se testam apenas os alunos. Testa-se também a escola sobre si mesma, na capacidades que tem – ou não tem – para ensinar a diversidade dos alunos que a frequentam. Um sistema de ensino inseguro e limitado precisará sempre de exames… Um “poder” como o que temos é natural que se “entretenha” com esta matéria…

  4. joao says:

    “Um sistema de ensino inseguro e limitado precisará sempre de exames… Um “poder” como o que temos é natural que se “entretenha” com esta matéria…”

    Ora bem!
    Concordo.

  5. Bone says:

    Mas o que é feito das provas de aferição do 4º e 6º ano que supostamente avaliariam o sistema educativo e o trabalho desenvolvidos pelas escolas? Talvez por isso, logo a partir do 3º ano, se não em todas, em algumas escolas, os professores empenhavam-se febrilmente na preparação dos alunos para as provas, massacrando-os com exercícios, provas-piloto, mais exercícios, mais provas de anos anteriores… pobres crianças que passavam 2 anos do 1º ciclo literalmente a ser treinados para a escola aparecer bem na fotografia. Mas não servem estas provas já o objectivo deste novo exame de final de ciclo? Ou o propósito é realmente seleccionar crianças aos 10 anos de idade? Já há tantos factores de exclusão, de reprodução da desigualdade social, a escola já não quer ser inclusiva? Vamos ter turmas de repetentes no 4º ano? As crianças vão fazer afinal quantos exames no 4º ano? Com uma escolaridade obrigatória de 12 anos, que sentido faz realizar exames tão precocemente?

  6. António Fernando Nabais says:

    #1
    Posso, em parte, ter sido responsável por má publicidade ao “Umbigo”, ao dar, involuntariamente, a ideia de que te tens limitado, neste debate, a defender que os exames não traumatizam. Sei perfeitamente que não é isso que se tem passado, mas é, também, isso que tens feito, para combater alguns pontos de vista da esquerda eduquesa, o que me parece adequado.
    Concordo contigo: de uma maneira geral, vivemos em subdesenvolvimento (também) educativo, pelo que muitas medidas, duras e transitórias que sejam, devem ser tomadas. Por isso, aceito a necessidade de impor exames no quarto ano. Tal como tu, no entanto, também penso que isso não chega, como acabaste por defender, também, no texto que escreveste em resposta ao meu.
    Finalmente, o desamparo do Primeiro Ciclo não se deve, na minha opinião, apenas às falhas de comunicação ou a uma eventual e tradicional prática isolacionista dos professores desse nível de ensino. As questões curriculares e a formação inicial são problemas a atacar. Note-se, de qualquer modo, que estes problemas existem em todos os níveis de ensino, embora com naturezas diferentes.

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