A geração rasca e o 25 de Abril

Da geração rasca, como de todas as gerações, na evolução do tempo, sobejam os resquícios. Tal geração foi-se diluindo socialmente e volatizando-se através de comportamentos de cidadania múltiplos e distintos.  Passados os  anos de ‘charros’, gritos e euforias nos concertos de Abrunhosa, parte substantiva desmobilizou, carregada de desencantos e frustrações ou motivada por projectos de vida individual.

No entanto, na espuma do tempo, permanecem sempre redutos remanescentes cristalizados à volta de diferentes polos ideológicos. Subsiste, por exemplo, uma parcela, imberbe ou mesmo sem existência à data de 25 de Abril de 1974, do tempo que verdadeiramente não teve consciência de viver, que assimilou e propagou no futuro as ideias conservadoras de progenitores e educadores, normalmente adeptos do Estado Novo. Uns viviam em África, sob a protecção de jovens da minha geração, idos daqui – “África é aqui”, era a palavra de ordem da soberba que exibiam nas visitas à metrópole, nesse tempo.

Do balanço da história recente, o absurdo é o domínio da descabelada contestação aos capitães de Abril, por parte desses homenzinhos de patológicas dissonâncias. Homenzinhos pseudo-sabedores do desconhecido, porque não habitaram, de facto, o País pobre, semeado de miséria, desigual e a desfazer-se em emigração maciça e na guerra colonial em 3 frentes; esses homenzinhos que, ao contrário da minha geração, jamais testemunharam e conviveram na Escola Primária com miúdos da Quinta dos Peixinhos, da Curraleira e de outros acantonamentos miseráveis, de barracas, no País de lés-a-lés – miúdos, diga-se, famintos, rotos, descalços e sujos com quem os outros dividiam o pão; esses homenzinhos que, ao contrário da minha geração, não tiveram amigos mortos e estropiados em África; esses homenzinhos que, ao contrário da minha geração, não sofreram perseguições da PIDE à menor tentativa de usar a liberdade de expressão para falar, escrever ou ler; esses homenzinhos que não tiveram a oportunidade de visitar o Tarrafal e, como eu, ver as condições ultra-desumanas como era tratado quem ousava opor-se a Salazar.

Em suma, esses homenzinhos,  auto-intitulados de puros e impolutos, que se ufanam de pseudo-verdades, para atingir, e talvez dizimar, um dos marcos fundamentais da História de Portugal, o 25 de Abril, assim como os militares que o realizaram. Sem seriedade, bom senso e respeito pelos sentimentos e apego à democracia de milhões de outros portugueses. Sofrem de perturbações mentais agudas e incuráveis. Nenhum médico, fármaco ou terapia lhes assegura a cura.

Viva o 25 de Abril! Sempre e comemorado nas ruas! Se necessário, que renasça das cinzas a que o pretendem reduzir.

Comments

  1. maria celeste ramos says:

    Sei do que fala – nasci muito mais cêdo do que 1974 e já vivia em llisboa

  2. Carlos Fonseca says:

    #1
    Ainda somos bastantes a saber.

  3. cunhal é fixe says:

    snif snif até chorei ! quase que se ouviam os violinos !

  4. Fernanda Leitao says:

    É como diz. Os sinais dados por esta gentinha, que nunca trabalhou e tudo herdou dos papás Estado Novo style, incluindo o ódio à cultura, à liberdade e ao que é diferente, os sinais dados,dizia, são claros: estamos perante uma chusma de salazaristas encapotados, dos que nunca assumem nada para não perderem a teta pública. Aproveitaram a situação de crise, inserida em grave situação internacional, para fazerem um golpe de estado silencioso. É a isto que chama “revolução tranquila” o Passos Coelho. Devidamente apoiado pelas duas pêgas velhas que são o Portas e o Relvas. Todos eles treinados e formatados em Jotas que mais não são do que sopa de restos do salazarismo. É claro que o Sá Carneiro e o Amaro da Costa tinham de ser apagados para que isto pudesse ser assim. Agora, tudo é claro.

  5. Maria Teresa Botelho Moniz says:

    Fernanda Leitão, Nem toda a gente filha dos papás do Estado Novo, teve a vida fácil. Eu não tive. Tinha 20 anos quando se deu o 25 de Abril, já era mãe duma criança, fazia a faculdade e estava a separar-me do pai da minha filha. Entretanto o PREC, nacionalizara a empresa do meu pai, já falecido à época, e meteu os homens da minha família na prisão, apenas porque eram empresários e davam emprego a muita gente. E não só emprego, regalias e benesses, que a nenhum Amorim ou Belmiro, hoje, lhes passaria pela cabeça. Esses só escravizam. E há que dizer as verdades. Quando acabei o curso, tive imensa dificuldade em arranjar emprego, apesar da nota de curso, apesar do CV que entretanto arranjara, porque deitava a mão a tudo para poder trabalhar. Todas as empresas onde eu poderia trabalhar, inclusive a que foi a obra de vida do meu pai, estavam nacionalizadas, e existia uma directiva do governo de então, para que fosse dada prioridade a toda a gente que tivesse regressado de África, para preencher as vagas. Assisti a situações caricatas, de seleccionadores nessas empresas, que nos contavam à boca e fechada, o que se estava a passar quanto às directivas do governo,que pretendia gabar-se e mostrar, aos franceses e belgas, que tinham “descolonizado” mas, que a “integração” era total e conseguida, ao contrário do que aconteceu nesses países que nunca integraram os pied-noir, e até hoje. Pois não, porque franceses e belgas, não são brandos e passivos como nós, portugueses da metrópole, que nem entendemos o que nos estava a acontecer. Que foi: De repente, uma enorme oferta de emprego que existia à data de 1974, deixou de existir,e todos os empregos foram tomados, com ordem do governo, que havia nacionalizado todas as empresas, até lavandarias e cabeleireiros, para que os “regressados” tivessem prioridade sobre nós, portugueses. Deste modo, Villaverde Cabral, na Biblioteca Nacional, tinha como secretária uma senhora das ex- colónias com o antigo 5º ano do liceu , e uma série de jovens, recém-licenciados em história, línguas e literaturas modernas, na cave a fazer artigo, ou a lidar com papelão. Eu própria, e depois de muita procura, e o meu apelido não ajudava nada, apesar da humilhação e roubo que fizeram à minha famíla, apenas arrajei um emprego que nenhum retornado quis, em Sines, numa empresa de refinaria. Tinha que estar às 7 da manhã no Marquês de Pombal, para apanhar o transporte da empresa que me levava a Sines, e me devolvia a Lisboa, por vezes e conforme o trânsito depois das 9 ou 10 da noite. E também trabalhava ao Sábado até às 13 horas. O que quer dizer, que tinha de estar, como de costume às 7 da manhã, no Marquês de Pombal, apanhar a camioneta da empresa, e apenas chegava a Lisboa, por volta das 3 ou 4 da tarde, para gozar o meu fim de semana. Tinha casa, e uma criança pequena, e não foi nada fácil. Pelo contrário, foi uma juventude, perdida e adiada. Como agora.
    Entretanto, uma casa que havia herdado, foi ocupada por retornados, antes mesmo que eu a tivesse podido ocupar. Até esse problema “herdei”. Foram anos em tribunal, e perdi o processo, porque o juíz era de Moçambique, retornado, e sem nenhum critério judicial, legitimou os da sua condição. Dado que a gente que me tomara a casa, já nem a habitava e a usava para um “triste” negócio, como a minha advogada o veio a descobrir, também ela, retornada, e melhor que eu, topava as gentes da terra que a vira nascer, conseguiu um acordo, e devolveram-me a casa mediante uma quantia astronómica, para a época, que resolvi pagar, apesar da advogada ser contra e pretender continuar o processo. Andei anos a pagar o que pedira emprestado para lhes pagar uma ocupação gratuita, uma destruição total duma casa, recheada de móveis lindos, roubados. Até, a renda que lhes foi decretada por tribunal, após o processo, tentaram levantar da CGD, pedindo a autorização ao Juíz, para que tal acontecesse. Todas as minhas poupanças de jovem trabalhadora, foram gastas para indemnizar tal gente pelo prejuízo que me causaram. E não chegaram e tive que pedir emprestado, e passei anos a trabalhar para tal. Entretanto já trabalhava numa Editora, trabalho mais consonante com a minha formação, e apesar de ter começado por cima, na empresa, tive a humildade de pedir que me deixassem fazer a Feira do Livro. Sabia que os meus colegas homens, ganhavam imenso dinheiro nessas 3 semanas. e ousei pedir que me deixassem fazer o mesmo. O meu patrão, ficou de boca aberta, reclamou que eu era uma “senhora, uma menina”, que não ia aguentar, que se passava frio, calor tórrido, que se tinha de fechar os pavilhões, à meia-noite, atravessar o parque… etc., etc.. Mas eu disse, “deixe-me tentar, preciso mesmo do dinheiro!” , “Mas Teresa, nunca nenhuma mulher, aqui na Editora, fez a Feira…”. Eu fiz. Adorei, e mesmo depois de não ter necessidades, continuei a fazê-la até ter saído da Editora que foi da saudosa Snu. Hoje, de vez em quando, ainda faço, para dar uma ajuda à minha filha Mafalda, editora da Edicare, com enorme sucesso, e este ano com 3 pavilhões na Feira do Livro. E isto tudo para vos dizer que os filhos de papás – conservadores- são mitos idiotas. Eu passei muito, talvez, por isso o meu 2ª marido, socialista, costumava dizer que eu era muito mais de esquerda que ele próprio, apesar de votar à direita. E sabem? É verdade.
    Como não nasci, Melo, nem Espírito Santo, muito menos, Champallimaud, pertenço a uma família que Salazar tramou, e mais tarde, o PREC, encarcerou e nacionalizou, e mais tarde, Cavaco cuspiu em nós, família, cobiçando nas privatizações a obra do RCP, para dote da filha. Foi assim mesmo. Cavaco, o cabrito Montez, jamais poderiam confrontar-me, a mim, aos meus, porque se sairiam muito mal. E deveriam sair, e a história nunca me fará justiça, porque são uma máfia no poder do crime de todas as ganâncias acontecidas na pátria. Cavaco, sabe, tão bem o que fez, que ficou refém, dos amigos, autores de maiores patifarias. Por isso se cala e deixa andar e desde que não lhe toque a ele.. E duma vez por todas, digam a verdade e não se fiquem pelo politicamente correcto, e pelas meias tintas. Estamos a ser governados por uma maioria de gente “africana”, que nos odeia, aos portugueses, que nunca fizeram a integração, que sonham com estepes africanas de que já nem se lembram, que, não fora o 25 de Abril, o terem sido subsidiados, financiados, tomadas as nossa casa, empregos, e sabe-se lá mais o quê e à custa do nosso sacrifício- silencioso- estariam na roça a cortar capim e a infernizar a vida do negro. Como, nos fazem a nós portugueses e, não descansarão, enquanto não nos venderem o que resta da pátria. Depois , fogem como o “outro”, levando o saque. Estou farta. Afinal deveria estar a preparar o almoço de amanhã, que vem gente que gosta de estar junta nestes feriados. Já que mais não seja, celebrar, as verdades que deixei aqui e que ninguém calará. Mas a mim , nunca ninguém me calou, pelo que nunca senti a ditadura enquanto me diziam que existia. Senti-a depois, e durante 38 anos. E agora, nem consigo respirar.

  6. MAGRIÇO says:

    Cara Maria Teresa, sensibilizou-me o relato das suas provações e acredito que lhe tenha sido difícil ultrapassa-las, mas para poder agora afirmar que “nunca senti a ditadura enquanto me diziam que existia” muitos sentiram na pele que ela existia na realidade. A Maria Teresa pode ter razões para se queixar do pós 25 de Abril, mas muitos milhões que se queixavam no tempo em que tudo corria bem para si continuam hoje a queixar-se, tal como a Maria Teresa, desta democracia que distingue filhos e enteados. Esses, nunca conheceram a outra face da moeda, nunca a vida lhes sorriu nem durante breves instantes. Tem muita razão quando acusa os “devolvidos” do antigo ultramar, descendentes e mandatários de, paulatinamente, se irem apoderando dos destinos do país. Neste momento assistimos já ao início das hostilidades que, inevitavelmente, culminarão com o almejado ajuste de contas com a liberdade e, sobretudo, com a descolonização.

  7. Maria Teresa Botelho Moniz says:

    Caro Magriço, talvez me tenha explicado mal, nesse ponto em que refiro a ditadura. Nem tudo correu bem para mim. O que eu queria dizer, é que sendo contestatária como era antes do 25 de Abril, nunca senti a ditadura, dizendo tudo o que sentia contra a mesma, nunca me aconteceu nada. Talvez por ser muito jovem e não me ligarem nenhuma. No entanto, e ainda em adolescente, tomei algumas atitudes, que a minha mãe já viúva e com 4 filhos menores e que vivia aterrorizada com o regime e com a polícia política, faziam desesperar a minha mãe. Eu não gostava daquele regime, e dizia-o abertamente em todo o lado. Quando me mandavam calar, faziam-no mais por medo do que me viesse a acontecer. Recordo, uma viagem de barco que fiz em família, muito jovem e já muito contestatária, em que o comandante, chamou a minha progenitora de parte, para a avisar que a viagem ia “cheia de pides”, e que seria melhor calar a criancinha. Uma das minhas irmãs, fez circular na escola um livro proibido, e a polícia veio a nossa casa fazer uma rusga. Levaram imensos livros, e a minha mãe e a minha irmã, para serem interrogadas. A pobre da minha irmã, tinha apenas 16 anos. Não se intimidou minimamente, respondeu com inteligência a todas as questões, e foi o inspector que a interrogava, quem ficou intimidado pelas respostas de um ser tão jovem. Ainda por cima, saiu do gabinete para ir buscar um carimbo ou qualquer outra coisa, e quando voltou, encontrou-a a ler um dos milhares de livros “apreendidos”, que lhe enchiam o gabinete. A minha mãe, que nos castigava duramente por quase tudo, saiu de lá de cabeça erguida, e apenas disse à minha irmã “Só me metes em chatices”. Conto isto, dado que este episódio foi recordado ontem no nosso almoço de feriado. Mas, é evidente que sei o que muitos portugueses passaram. E na casa em que cresci, e ainda no tempo do meu pai, por incrível que lhe pareça, muita gente perseguida, se acoitou e foi auxiliada. E remato dizendo, que é com desgosto e revolta, que vejo o que se está a passar no país. Neste momento, existem muitas e variadas ditaduras. Disfarçadas de democracia, mas são ditaduras e vêm de todo o lado. Da política e do capital, e até duns mentecaptos que adoram proibir tudo e mais alguma coisa, para bem da sociedade. E o país a regredir, regredir…

  8. MAGRIÇO says:

    Renovo a minha simpatia pela sua coragem e lamento por tudo aquilo que passou. Resta-nos não perder a esperança que ainda um dia nos possamos orgulhar deste país tão mal frequentado politicamente.

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