Carta do Canadá – As palavras proibidas

Quando assentei  praça no jornalismo, no século passado, a comunicação social era mantida,com trela curta e açaime, pela censura. Esta era uma coisa misteriosa, sinistra e caricata, personificada por uns coronéis tarimbeiros sobrados do 28 de Maio de 1926. Eram engraçados,os coronéis da censura. Um grupo de universitários que eu conheci, pontificado por um que veio a ser médico em Moçambique, resolveu editar uma revista, isto em Coimbra, para o que montou um elaborado plano de pega de cernelha à censura. Como o militar que naquela cidade chefiava a censura ia todos os dias tomar a bica à mesma hora, a rapaziada foi-se-lhe chegando, mansa e sonsa, numa conversa mole que encantava o tropa. Quando acharam que o bicho estava pronto para a pega, apareceram-lhe com as provas da revista para a censura. O coronel passou os olhos pela prosa, achou aquilo inocente como o chá de tília e assinou de cruz. A coisa ia andando neste remanso. A pouco e pouco, como quem não quer a coisa, eles começaram a meter umas poesias, daquelas em que verdade rima com liberdade, pão com revolução, e assim. E o tropa sempre a assinar de cruz.  Até que caiu o Carmo e a Trindade: o coronel foi questionado e apertado pela Pide por causa da revista dos rapazes. Quando eles se abeiraram, prazenteiros, da mesa do tropa, este atirou-lhes à cara: “Traidores, falsos,  malandros, comunistas, comigo não brincam mais. Ficam sabendo que nunca mais deixo passar uma poesia. Nem que seja assinada pelo Salazar”.  Ardeu a tenda literária aos académicos que, entretanto, tinham  bebido uns litros de café à conta do militar.
Os coronéis da censura em Lisboa também eram desta finura de inteligência. Um dia fizeram uma lista de palavras proibidas que mandaram entregar nas redacções: prostituta, aborto, suicídio, manifestação, liberdade e outras que já não lembro.  Eu trabalhava numa agência noticiosa estrangeira, com delegação em Lisboa,  cujo  chefe colocou logo a lista numa parede, com a mesma rapidez  que punha nos pedidos de notícias no estrangeiro que Mário Soares lhe fazia por carta, entregue em mão, num alvoroço que deixava todos a sonhar com o golpe de estado  para essa noite. Eu tenho montes de defeitos, mas gosto de ajudar: acrescentei na lista as palavras estudante, repressão, nacionalista africano. Porque, recordo, nas universidades e nas colónias o tempo era de bumba no toutiço.
Nos arraiais da comunicação desejava-se  o fim da censura como quem deseja o fim do cancro. Foi um entusiasmo quando os deputados da ala liberal, liderados por Francisco Sá Carneiro, apresentaram  um projecto de Lei de Imprensa na Assembleia Nacional, no consulado de Marcelo Caetano. Uma noite, no restaurante Rina, ao Bairro Alto, poiso certo de jornalistas e radialistas, a discussão em torno do assunto foi de tal ordem que, já passava das 23 horas, a patroa nos veio pedir, naquele seu jeito meigo, se podíamos ir conversar para outro lado que ela tinha de levantar-se muito cedo para ir à  Ribeira fazer as compras. Levantámos ferro e ancorámos numa leitaria, daquelas que estão abertas toda a noite, e o berreiro continuou. Estava connosco José Carlos Ary dos Santos que nos tinha acompanhado ao jantar. No meio daquele temporal de argumentos, Ary dos Santos levantou-se para ir aos lavabos, ia andando e sempre a voltar-se para traz, o corpanzil imenso,  o vozeirão que estremecia tudo, a dizer de sua justiça, quando o tasqueiro o chamou, aflito: “Oh sor Ary, por aí não, aí é para senhoras”.  O poeta agarrou a rábula no ar, pôs a mão na anca e declamou: “E eu sou alguma galdéria”?  O riso apagou  o incêndio.
Como podem calcular, o 25 de Abril foi para nós, em termos de liberdade de expressão, um maná. Quando vi o Manecas das Intentas (Manuel Serra), à janela da  censura, deitando para a Rua da Misericórdia pastas e papéis soltos, gritei-lhe cá de baixo:”Pára com isso, burro!  Esses papéis são a memória do povo”. Sempre  o guardar dessa memória  me pareceu obrigatório. E é por nem sempre ter havido esse cuidado que, como  num aviso de muito mau prenúncio, registo as palavras proibidas que este governo tem  feito saber: estado social, subsídio de férias,subsídio de Natal, feriados com grande significado histórico, empobrecer,  cortes desiguais, obediência a Merkel, desobediência civil  à troika,escola pública, carnaval, etc. etc.
Gerações sofreram, choraram lágrimas de sangue, encheram as prisões e os exílios, numa luta desigual, para o povo alcançar os direitos que há muitos anos lhe eram devidos.  Não podemos consentir no que se está a passar e no que se está  a preparar.

Comments

  1. Ainda penso says:

    Excelente texto. Obrigada por lembrar a muitos que já se esqueceram o que é a censura, a repressão, o sofrimento que traz o fascismo e principalmente o valor incalculável da LIBERDADE. Abençoada seja.

  2. João Costa says:

    A censura dos tempos passados tinha rosto e conseguia-se chegar a fala com ela e até atraiçoa-la. Era pessoal munido de lápis azul, que inclusive fazia o trabalho com displicência.
    A censura de hoje não tem rosto, esta nas redações, é difícil de chegar a fala com ela. Não se conhece. O lápis já não é azul. É bem mais colorido da cor das palavras e das ideias. Evoluiu como tudo na vida, aptou-se e chega na forma de publicidade. Criou-se concorrência artificialmente e muitas vezes por cunho institucional. Tornaram-se os órgãos mendigos e dependentes da publicidade institucional qual toxicodependente. Lutam uns com os outros pelo favor de encher páginas de publicidade aquela empresa, aquele organismo. Ávidos pelas receitas necessárias a sobrevivência daquele jornal, canal, posto e o lápis deixou de ser necessário.

  3. Fernanda Leitao says:

    Assim parece ser, João Costa, a avaliar pelo modo como a realidade nacional é tratada nos jornais e televisões. Há mesmo alguns que rastejam e outros que se comportam como jagunços de coronéis endinheirados. Uma lástima que só não o é mais porque existe a blogosfera. Obrigada pelo seu comentário.

  4. Fernanda Leitao says:

    Ainda penso – Bem haja pelo seu comentário.


  5. Parabéns e muito obrigado pela partilha da vida dos jornalistas do tempo da outra senhora.

    Diz o ditado, dá Deus nozes a quem não tem dentes. Hoje, aparentemente não há censura. Aparentemente, porque não encontro outra justificação para a nojice dos nossos canais de televisão.

    A censura é a outro nível e parte também dos governos: e assim a meta é não informar muito. Dizem, apresentamos novelas porque o povo gosta. Também antigamente o povo gostava de futebol. Televisão é negócio. São as guerras das taxas de audiências.

    Alienar com novelas horas seguidas, reality shows (responsáveis pela degradação de valores como a intimidade). Como podemos depois reivindicar o direito à nossa privacidade?

    Existe um programa na TVI 24, “Observatório do Mundo”, que tem passado uns documentários interessantes, normalmente feitos por jornalistas investigadores estrangeiros. Como exemplo, vou dar o “dossier Berlusconi”. Além de referir a parte final e mais badalada dele, expõe o sonho de um ser humano em governar / controlar e manipular a Itália. Expões como uma sociedade secreta, no caso a Loja Maçónica (P2), tinha como meta atingir o tal poder, corrompeu o sistema judicial, financeiro, político (Berlusconi entra para esse papel), comunicação social, etc. Expõe como espalhou o terror (matando italianos), para depois e com mais facilidade assumir o controlo.

    Este documentário mostra numa escala pequena, como nos dias de hoje se governa o Mundo. E toda a gente deveria saber disto, para e principalmente começarem a questionar.
    Mas vem a parte mais triste. O observatório do Mundo passa às 20h e é repetido à 01:30 da madrugada seguinte. Aqui reside o engodo. Até informam, mas a censura é assim mesmo. O grande público ou está a olhar para a repetição das notícias ou está a dormir.

    Gostaria também e para finalizar por referir a felicidade que o 25 de Abril deu às mães dessa época. A angústia com que que as mães viam os seus filhos machos a crescerem, sem saberem sec mais tarde regressariam com vida do Ultramar. Hoje esta realidade, e ainda bem, passa ao lado tanto das mães como dos filhos. Mas todos temos o dever de Relembrar.


  6. Gostaria de acrescentar só mais uma coisa.
    Nós temos um grande poder.
    Nós temos o poder de não abastecer na Galp, (Sistema Energético).
    Nós temos o poder de arranjar alternativas às grandes superfícies, nas quais a qualidade do que se compra para a nossa alimentação não é uma preocupação, embora com a publicidade digam o contrário, (sistema alimentar).
    Nós temos os poder de mandar abaixo esta vergonha de televisão. Não vejam os telejornais. Na net, têm muito mais informação.

    O Facebook apoia o CISPA. Nós temos o poder de a abanar. Encerrem as vossas contas. Vos garanto que é preferível versus o controlo da Internet pelos mesmos que controlam o resto da comunicação. Só lhes falta a Internet. Pensem nisso.


  7. Reblogged this on A Arte da Omissao and commented:
    É preciso RELEMBRAR

  8. Alcides Costa says:

    Comparada com a censura dos dias de hoje, a do lápis azul até parece uma brincadeira, como a Fernanda Leitão a descreve de forma romantica. Num aparte, apreciei muito o seu estilo.
    A censura de hoje é mais poderosa, mais brutal, mais destruidora da pessoa vítima dessa mesma censura, como são os casos mais mediáticos da Manuel Moura Guedes vítima do Sócrates, e o mais recente Pedro Rosa Mendes, este caído às mãos do sinistro maçon Miguel Relvas.
    Eu continuo a achar que a solução para mexer com a consciência das pessoas é fazer chegar a informação às massas e para isso a tv é o meio privilegiado. O Sócrates sabia disso e o Miguel Relvas já deu mostras que não dorme em serviço. Para eles a tv é um excelente meio de manipulação das massas, há que vigiá-las bem e controlá-las ainda melhor. Dá-se então ao povo um caldo de novelas, reality shows e futebol e besunta-se as mãos das operadoras com muitos milhões em publicidade,
    É um paradoxo o que se passa hoje com os média, enquanto no passado procuravam a melhor lide com os coronéis da censura para atingir os fins, hoje, são eles próprios os coronéis.

  9. Fernanda Leitao says:

    URANTIAPT. A RTPInternacional faz o mesmo com as comunidades emigrantes:os programas de denúncia dos aleijões sociais e governamentais passam depois da meia noite, quando já todos estão a dormir (porque ninguém veio para o estrangeiro fazer turismo, todos trabalham muito).Se houvesse decência, passavam esses programas no fim de semana ou no chamado horário nobre. Apesar dessa habilidade, não conseguem captar a confiança dos emigrantes como se pode ver pela abstençáo em eleições (legislativas e presidenciais). No Canadá,anda pelos 90 por cento. Os 10 por cento que sobram são os contemplados com medalhas e subsídios…Isto tem uma explicação: os emigrantes guiam-se pelos pequenos jornais das suas terras, pelos telefonemas à família e amigos, pelas idas a Portugal.

  10. Fernanda Leitao says:

    ALCIDES COSTA. Parece brincadeira porque a minha geração fala destas coisas sem dramatismo. Mas não foi brincadeira ver a verdade cortada 48 anos a fio, sofreu-se muito. E é preciso lembrar que os jornalistas “atrevidos”, os que tinham cortes constantemente, eram referenciados à Pide e esta, ao menor pretexto, prendia-os. Havia telefones na escuta. Havia bufos em todos os lugares. Era um sufoco. Mas como não havia partidos, estavam todos unidos contra o inimigo comum. A desunião veio com os partidos transformados em agências de tachos, públicos e privados. Muitos se venderam. O resultado está à vista. Por isso é que a blogosfera é importante, assim como a imprensa regional (a única com verdadeiro poder de penetração nas comunidades emigrantes, a única com respeitabilidade no interior do país). Porque é do país que se trata, todo ele, o expatriado também. Não podemos continuar a praticar aquela blague muito Chiado: Portugal é um país que vai de Sines a Cascais; de Cascais para cima,é a Galiza; de Sines para baixo,é Marrocos. Não. É preciso estar lado a lado com o interior do pais e a sua diáspora, para se secar este lodaçal. Leva um bocado de tempo, exige um bocado de esforço, mas vale a pena. E agora, obrigada pela sua amável referênia.


  11. Nós Temos o PODER. Para isso temos que fazer escolhas.
    Basta não contribuir para as audiências

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