Sou um trabalhador de cultura

Diogo Curto no suplemento Ipsílon do Público coloca a questão dos professores no tom e no ponto certo: cultura!

Num artigo muito claro o Historiador faz notar a importância da Escola, nomeadamente ao nível da escolaridade obrigatória, para a dimensão cultural de um povo.

Quando Nuno Crato coloca exames no 4º ano está a provocar uma divisão artificial e precoce que vai destinar alunos a uma segunda via onde a Cultura será um anexo da profissão. Para uns, os de menos sucesso, estará à sua frente um percurso centrado na aprendizagem (???) de uma profissão. Para outros, os que têm mais sucesso nos exames estará em cima da mesa um cardápio mais cultural.

Olho lá para trás e penso que fui pela primeira vez a um Museu numa visita de estudo. Foram os Professores que me levaram pela primeira vez ao Teatro e a música, nas suas múltiplas dimensões menos populares, só me chegou na Escola. Isto, para não falar dos livros e das revistas…

E quando me perguntam qual é o meu problema com o Nuno Crato respondo isto mesmo:

sou um trabalhador de cultura e não admito, como cidadão e como trabalhador, que se queira reduzir o meu trabalho a uma espécie de linha de montagem que produz trabalhadores para a fábrica do capitalista financiado pela Fundação, licenciado na Lusófona (esta foi mesmo só para relembrar que o Miguel Relvas tem uma Licenciatura, blá,blá…).

Como alguém escreveu um dia, os cursos CEF ou Profissionais são os cursos para os filhos dos outros. Todos achamos que há falta de mecânicos ou trolhas, mas preferimos essas profissões para os filhos dos outros. Para os nossos queremos a Universidade, o Sr. Doutor…

Há alunos com mais potencial para isto ou para aquilo. Admito que há alunos com mais perfil para o prosseguimento de estudos e outros para vias mais profissionalizantes. Mas as pontes entre as duas vias têm que existir e acima de tudo, os currículos das diferentes dimensões têm que ser abrangentes e incluir, obviamente, uma  forte dimensão cultural e artística. Se um aluno de nota 5 quiser ir para um curso CEF deve ter essa possibilidade, deve poder ir, mantendo a possibilidade de ir para a Universidade. Também um aluno que num determinado momento apresenta mais dificuldades, deve poder sair para uma via mais académica sempre que desejar, sem que sofra penalizações por isso.

Digamos que o sistema dual alemão que o PSD quer colocar na nossa Escola Pública, a existir será um erro, mas se tiver que ser, que se garanta a capacidade de mudança entre os dois percursos: um sistema de dois elevadores paralelos, com passadeiras rolantes a unir os dois percursos, pelo menos no fim de cada ciclo.

É mesmo uma questão ideológica: para os conservadores que nos governam a Escola Pública deve garantir a manutenção das divisões sociais, promovendo apenas a integração dos seus alunos nas fábricas e nas empresas. Produzir trabalhadores cumpridores, caladinhos e obedientes é o objectivo.

Mas a Escola Pública tem que ser mais do que isso e, caro leitor, se chegou até aqui é porque está preocupado com a Escola Pública. Já somos dois e não vamos deixar esta gente destruir o que demorou tantos anos a construir. Pelos seus filhos, venha daí!

Comments

  1. Isabel Branco Pires says:

    Os nossos governantes, não acredito por incúria,, mas intencionalmente, desprezam o actual paradigma do conhecimento e ficam-se pelas velhas teorias do século passado.
    Actualmente, o binómio, ensino profissional/ académico, não tem razão de existir, só no modelo, como dizes, de perpetuar as diferenças sociais, os burros e os inteligentes, etc…
    A nova escola deveria ser do “saber e saber fazer” onde desde os inicio os alunos , a par das teorias deviam experimentá-las e em disciplinas ou actividades, conhecer as suas capacidades e habilidade para “fazeres” específicos.
    Uma escola onde se possa fazer desporto, dançar, representar, pintar, modelar, sair para o mundo, fazer carpintaria, soldar canos, montar sistemas eléctricos e muito mais, em que todo este “saber fazer” é acompanhado de um saber aprofundado das ciências que as acompanham.
    Estes alunos, conscientes de si , do que gostam, são pessoas mais completas e com capacidade de decidir.
    Podem ter 5 ou 20, mas querem ser actores, escultores, trabalhar em restauro, engenheiros informáticos, médicos, biólogos e até professores…
    Mas interessa manter a escola conservadora da divisão de classes, do empobrecimento, da mais ou menos ignorância de alguns em determinadas áreas cientificas e sociais.
    Se não foro assim como é que eles (falsas elites) mandavam?

    Um bom dia para ti João Paulo.

    Isabel

  2. Armindo de Vasconcelos says:

    Como alguém escreveu um dia, os cursos CEF ou Profissionais são os cursos para os filhos dos outros. Todos achamos que há falta de mecânicos ou trolhas, mas preferimos essas profissões para os filhos dos outros. Para os nossos queremos a Universidade, o Sr. Doutor…

    Houve alguém que escreveu que todas as generalizações são perigosas, até esta!

    Por favor, eu não quero ser uma excepção… eu quis os meus filhos na via profissionalizante: um acedeu; o outro, não!

    Aquele paga uma semanada a este.

    E não são os filhos dos outros!

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  1. […] diz, obviamente com outra qualidade, algo parecido com o que tentei escrever aqui no aventar uma e outra vez. Filed Under: educação Tagged With: básica, divisão, educação, escola, obrigatória, […]

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