A múmia seca de uma democracia

O jornalista José Vitor Malheiros já nos habituou aos bons textos e às pertinentes perguntas. Hoje, no Público, sublinho o que escreveu, que é quase:

1- O exercício da cidadania numa democracia não se esgota na prática do voto durante as eleições;

2- Espera-se de um cidadão responsável que, na medida das suas possibilidades e interesses, aja politicamente;

3- que participe nos debates políticos onde estão em causa os princípios que moldam a vida pública e as normas da vida em sociedade;

4- que tome posição;

5- que defenda os seus pontos de vista e os seus interesses usando os meios à sua disposição, da discussão pública no café ou no Facebook ao uso dos meios de comunicação clássicos e de outros fóruns;

6- que interpele os poderes;

7- que participe nas organizações profissionais e sindicais que lhe dizem respeito; que lute por condições que garantam maior equidade, justiça e bem-estar para si, para os seus camaradas de trabalho e para a sociedade em geral.

8- Que se envolva na actividade partidária, que participe em movimentos de cidadãos, que se envolva em organizações de defesa dos direitos humanos, de defesa do ambiente, de promoção do património cultural, de solidariedade social;

9- que faça trabalho voluntário para causas humanitárias;

10- Que se envolva nas organizações que visam melhorar as condições de vida do seu bairro, da sua cidade, da sua escola ou do seu emprego;

11- Que denuncie os crimes de que tem conhecimento ou suspeita, que não feche os olhos à corrupção;

12- que reclame e que se indigne, que proteste e que se manifeste no espaço público;

13- que mobilize os seus concidadãos para as causas que lhe são mais caras;

14-  que não se cale e não se acomode, porque é esta inquietação e este envolvimento, são estas palavras e estes gestos, são estes sentimentos de dever e de responsabilidade para connosco, para com os outros e para com os nossos filhos que constituem o sangue da democracia — e não os rituais cada vez mais desprovidos de sentido das eleições, que nada ou quase nada mudam, onde apenas se escolhem nomes de entre opções pré-seleccionadas por umas dezenas de apparatchiki desconhecidos e de idoneidade duvidosa, onde todos os compromissos são jurados mas nenhum é cumprido, onde nenhuma responsabilização individual é possível, onde as opções possíveis estão limitadas a um oligopólio de partidos e onde o poder, faça-se o que se fizer, nunca foge a um cartel que tem como credo o servilismo absoluto ao poder corrupto e nunca escrutinado da finança;

15- Estes cidadãos responsáveis e empenhados são essenciais à democracia porque uma democracia que só se anima durante um dia de quatro em quatro anos não é uma democracia, mas apenas a múmia seca de uma democracia.

16- alguém que ouve o povo é um poder benigno ou pelo menos que tenta ser justo;

17- Gostamos de pensar que entre esta sociedade civil  e um Estado democrático existe diálogo e que todas as manifestações dos cidadãos são de facto ouvidas, levadas em conta, pesadas;

18- Mas… e quando isso não acontece?

Agora, colocando em afirmações as perguntas que o jornalista coloca, eu prefiro dizer: temos governantes sem escrúpulos e que apenas conquistaram o poder mentindofazem-se surdos a tudo; o que querem é construir uma sociedade de senhores e de escravos invocando a legitimidade do seu mandato para governar; o que pretendem é espoliar o Estado das suas riquezas para as entregarem aos donos dos negócios onde eles já asseguraram o seu emprego futuro;os tribunais aceitam suspender a lei para se submeterem aos ditames deste Governo; as regras do jogo limitam os cidadãos, mas os governantes podem fazer batota;  os dados estão viciados;  as formas de intervenção democrática que não sejam a múmia estão bloqueadas aos cidadãos.

Acho que faço pouco…

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.