Postcards from Romania (15)

 Elisabete Figueiredo

As aldeias da Roménia

As aldeias da Roménia, já o disse, existem para além da minha imaginação. Reparem que não estamos num país inefável (como dizia o Sena), mas sim num país da União Europeia. Venho de Brasov, uma cidadezinha encantadora, se excluirmos os blocos de apartamentos dos arredores, as estações de autocarros e de comboio. Vou para Sighisoara, uma vila – diz-me o meu guia (atualizado, acabei por comprar um novo, em francês) – património mundial da UNESCO.  E no meio, esta Roménia.

O comboio continua a avançar pelo coração da Transilvânia. O ruído de fundo dos carris, o zumbido das moscas, faz-me lembrar um qualquer filme francês. Os filmes franceses, se passados na Primavera, têm sempre como banda sonora o zumbido das moscas e das abelhas. Se não acreditam, vejam um, qualquer um, desde que se passe na Primavera ou no Verão, vá (Um Amor de Juventude, que vi recentemente. Os Juncos Silvestres; Printemps; Le Genou de Claire… a lista é infindável e eu vejo muito cinema).

À hora a que o comboio deveria chegar a Sighisoara tiro a mala da grade, agarro em tudo e vou para perto de uma das portas. Passam os revisores e eu interrogo: ‘Sighisoara?’ . Um deles junta quatro dedos e diz ‘patra’ ou qualquer coisa parecida. Percebo que é a quarta estação e sento-me nos degraus, sujíssimos.

Entra um senhor com uma bicicleta tão velha que parece que se vai partir. Se calhar vai. Pergunta-me, em romeno, se quero a porta do comboio aberta ou fechada. Encolho os ombros, sorrio-lhe, tanto me faz. O senhor olha para mim com uns olhos muito azuis. Repara nos meus pés. Uma, duas, três, quatro. Aqui está Sighisoara. Ao contrário dos apeadeiros pelo caminho, a estação tem plataformas. Entrámos na outra Roménia, na que é património da humanidade, penso.

Um senhor vem do piso inferior do comboio e agarra-me na mala. O da bicicleta precipita-se igualmente para a mala, também me quer ajudar. Multumesc para ambos. Placere. Respondem.

E juro que penso que raios partam as classificações. Património da humanidade é isto. Estas pessoas e as suas bicicletas a desfazerem-se. Estas pessoas e as suas carroças e as suas caixas e os seus sacos. Estas pessoas e a sua generosidade. Património da humanidade são estas pessoas e as aldeias de onde vêm. Quase que me comovo. Ou comovo-me mesmo, pronto.

(No comboio entre Brasov e Sighisoara, 10 de Agosto de 2012)

Comments

  1. Luís Teixeira Neves says:

    É isso.

  2. Frederico Mendes Paula says:

    Concordo. Património da humanidade não classificado. Porque a classificação implica critérios e os critérios resultam de juízos de valores subjectivos e muitas vezes elitistas. Porque a classificação é cada vez mais uma prática generalizada e inconsequente. Porque o excesso de classificação conduz à banalização do próprio Património.

  3. Frederico Mendes Paula says:

    Para além disso, e principalmente, as classificações têm esse dom de fazer crer que a paisagem vive sem os seus protagonistas…

  4. Elisabete Figueiredo says:

    Exatamente Frederico. Aqui e em toda a parte os protagonistas, os construtores deste património que, a partir de certa altura as classificações oficiais passam a considerar ‘de todos’, não fazem frequentemente parte desses ‘todos’.

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