O fracasso do governo de Allende

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Não passa um dia dos inúmeros anos da minha vida, em que não me lembre do Presidente do Chile, o médico Socialista Salvador Allende Gossens. Morava calmamente com a minha pequena família na Universidade da Cambridge da Grã-Bretanha. Soubemos que o Senador por Valparaíso Salvador Allende corria pela quarta vez para as eleições presidenciais da nação chilena e corremos ao Chile para votar por ele. Receávamos que fosse a perder a eleição, mais uma vez. A sua primeira corrida, em 1952, perdeu por uma estreita margem de votos para o candidato Carlos Ibáñez del Campo, um homem pouco popular, que já tinha presidido a República nos anos 30. A segunda tentativa, em 1958 foi contra o empresário e engenheiro Jorge Alessandri Rodríguez, quem ganhou por uma larga maioria.

Em 1964, correu contra o mais popular dos candidatos desse tempo, Eduardo Frei Montalva, quem ganhou a eleição com uma vasta maioria de votantes, sendo Allende um perdedor sereno, como me confidenciara a mim um dia em que o fiz entrar as terras da família, mandadas as portas a ser cerradas pelo Engenheiro meu pai para que o Presidente do Senado não fosse a entrar, história narrada por mim em outro ensaio de 2012: Allende: uma homenagem em www.aviagemdosargonautas.net à qual remeto ao leitor. Frei Montalva prometia uma Reforma Agrária, Sindicatos de Trabalhadores Rurais e a chilenização do cobre, o salário do Chile, como eram denominadas as empresas cupríferas. Denominou a sua campanha Revolução em Liberdade, o que não foi nem revolução, menos ainda em liberdade. As terras expropriadas eram de terra seca, ou de secano, como se diz em castelhano chileno que nem os seus proprietários queriam por ser uma permanente perca em impostos e pagamentos de salários de terras que não rendiam fruto. A permanente dívida patronal foi transferida aos trabalhadores rurais, denominados inquilinos, que ficaram mais pobres que antes. Tinham perdido a sua liberdade e as suas entradas em dinheiro por falta de proprietário a pagar ordenados. O outro fiasco de Frei Montalva foi esse cobre que passou a pagar impostos pela sua exploração, um imposto mínimo, por convénio entre o governo dos EUA e o do Chile. Frei Montalva teve bom cuidado de nunca ofender às empresas norte-americanas, por fazer depender os lucros do produto interno bruto, o PIB do Chile, sempre em falência, dos permanentes empréstimos em dinheiro que serviam para minorar a falta de lucro das indústrias chilenas. Todo o governo de Frei Montalva, foi uma abertura do caminho para o ulterior triunfo da coligação de partidos de esquerda que levaram a eleição de Salvador Allende como o 45º Presidente da República da Nação Chilena

Esperavam por nós os nossos amigos que temiam que formos votar pelo candidato da Democracia Cristã, Radomiro Tomic. Infelizmente tinha essa fama. Era natural: com família democrata cristã da falange espanhola de Franco, o Ditador da Espanha, com a permanentes visitas de Tomic a nossa, a minha amizade com o seu filho Esteban, de quem ninguém sabia que era socialista para não danificar ao seu pai, outro socialista oculto, todo o mundo pensava que eu era também de filiação falangista. Com santa paciência ouvimos a todos eles, que não sabiam ni entendiam que desde os meus 15 anos de idade, três de nós éramos socialistas marxistas. A nossa boca não nos traiu: guardamos silêncio e em silêncio votamos por Allende. Respeitamos a liberdade de expressão, o mínimo direito desde os lemas da Revolução Francesa, definidos por Grachus Babeuff e o Abade Sieyés, identificados em outros ensaios meus: liberdade, igualdade e fraternidade eram os nossos ideais. Quase uma tarefa de princípios que orientavam a nossa vida e os nossos amigos não o sabiam nem suspeitavam.

Allende, como sabemos, ganhou e passou, finalmente, a ser Presidente da República. O quadragésimo quinto, com seis anos em frente para revolucionar o Chile, declarando-se ser apenas um instrumento do povo, para que o povo governa-se.

Todas as suas atividades eram discursar ao povo para lhes ensinar a governar. O mais importante da sua revolução democrata, foi organizar cordões de operários das industrias de produção para gerir as empresas retiradas das mão dos seus fundadores e proprietários, tentando assim acabar com o proletariado, é dizer, com os que tinham apenas a sua força de trabalho para sobreviver por um ordenado raro e sempre em diminuição pelas empresas que as vezes nem pagavam e os trabalhadores deviam sobreviver de empréstimos familiares ou do banco, pagando altas taxas de juros. Allende bem sabia toda esta história. Não havia um sítio do Chile que ele não conhecesse pelas suas constantes viagens dentro do país para ser deputado, a sua primeira vez foi aos seus 29 anos por Valparaíso, a seguir, com a lição da vida política bem aprendida por ter sido fundador do PS chileno, a sua distância com o leninismo do PC chileno e da União soviética por causa de que em esses grupos quem mandava era o soviet do partido e não o povo, de forma direta. Era o que Allende pretendia: ser apenas um representante do povo na Presidência da República. Ideia que causara espanto entre a lasse política e a burguesia, habituados como estavam a ter um poder unipessoal que os governa, esquecendo que um Presidente não é um rei que representa a história e as tradições do povo da sua monarquia, que perdura ao longo de toda a sua vida. Um Presidente representa uma ideologia e um plano de governo que exibe ao povo que pode sufragar por ele ou não, conforme a sua aceitação do plano ou a sua rejeição.

Muitos de nós aceitamos o plano apresentado pelo Senador Salvador Allende, mas outros ficaram espantados, especialmente os que iam perder as suas terras produtivas e as suas fábricas que rendiam lucro com mais-valia por pagar ordenados baixos e o permanente despido de trabalhadores que aprendiam bem o seu ofício e deviam receber ordenados mais altos, o que causava espanto nos proprietários que apenas procuravam lucros. Refugiam-se nos seus sindicatos e nas greves que eram rapidamente desconvocadas por intervenção policial ao solicitar o patronato colaboração a presidência de turno. Com Allende não havia alternativa, ele sempre defendia que a greve era a única arma do povo para se defender dos lucros procurados pelos proprietários.

A sociedade ficou virada do avesso por dois motivos: as greves começaram a ser dos proprietários que fechavam as suas fábricas, que eram confiscadas pelo governo e entregue aos operários que as trabalhavam. Quem sabia mais, organizava a produção ou técnicos e engenheiros adeptos à presidência iam a organizar os trabalhos entre os que sabiam menos. Eram os cordões industriais que se impacientavam com o companheiro Presidente por não enviar foças armadas contra os proprietários. Mas o Presidente costumava dizer: trabalhadores do meu país, tenham paciência, eu não quero uma revolução, porque a sociedade já está toda revoltada, quero e os que votaram por mim também devem querer por votar por um programa de transição pacífica ao socialismo, evitar uma guerra civil. Mas os operários se impacientavam e queriam uma atividade dura contra os proprietários, o que o Presidente nunca aceitou. Era já duro para parte do país perder os seus bens, para hostiliza-los mais ainda com forças armadas. Também dizia: eu sou o presidente de todos os chilenos e o que faço é apenas uma redistribuição das riquezas. Grande engano de Allende, os que tinham votado por Alessandri e Tomic, sentiam-se ultrajados pela perca dos seus bens e dos seus escravos, o operariado.

Lá íamos nós a explicar, vezes sem fim, aos trabalhadores qual era o programa do governo para não fustigar a quem lutava pela classe trabalhadora.

Os EUA não toleravam uma saída de um país da América Latina do seu poder omnipotente. Era mais fácil para eles uma revolução armada, porque podiam matar sem compaixão aos revoltosos e Allende nunca deu essa oportunidade. Era uma transição pacífica para outro tipo de sociedade, democrata e livre. Tiveram que assaltar o poder sem motivo nenhum, porque o Companheiro Presidente os exacerbava com a sua serenidade de realizar a liberdade, igualdade e fraternidade, de forma calma e lenta.

O resto da história é conhecido. O povo perdeu, o Presidente obrigado a suicidar-se para não se demitir do alto cargo entregue a ele pelos trabalhadores. A sua coligação era cada vez mais votada e as percentagens das várias eleições eram cada vez mais altas.

A via pacífica ao socialismo marxista causou o derrube do Presidente legítimo da Nação e causou a desaparição de dezenas dos seus apoiantes, ou porque eram mortos nas suas casas, ou fuzilados em campos de concentração, ou enviados ao exílio. A via pacífica foi o fracasso dos planos do Presidente Allende!

Raúl Iturra

14 de Outubro de 2012.

Comments

  1. Raul Iturra says:

    Escrevi este texto para que saibamos, nós, portugueses, a arte de governar e comparar esse ar magistral de Salvador Allende com as formas do nosso infeliz governo! Custou-lhe a vida ao Presidente, símbolo de como se governa um país: como o povo, pelo povo e para o povo, essa frase imortal de outro Presidente símbolo, assassinado porque si! Allende, Lincoln, Balmaceda no Chile de 1898,mártires da democracia, como o povo português!

  2. Dora says:

    “Os EUA não toleravam uma saída de um país da América Latina do seu poder omnipotente.”

    Analisando, de fora, parece-me que a intervenção (a todos os níveis e com todas as armas) dos EUA foi o determinante para ter acontecido o que aconteceu. Um presidente socialista num país da América latina seria um perigo.

  3. Dora says:

  4. Raul Iturra says:

    Estou tão agradecido dos comentários feitos por Dora, que as lágrimas sem soluços não me deixam ver o teclado. Especialmente por ter introduzido parte do filme de Patrício Guzmán, com o MEU Presidente a falar na ONU. Saiba que quem conduz toda a operação foi o agente da CIA Carlucci, sob a aparência de Embaixador. Veja como não deixam em paz a Cuba. Carlucci rapidamente apareceu em Portugal para o 25 de Abril de 1974, um ano depois de limpar o Chile. Eanes o largou. O campo de concentração que sofri não era nada ao pé da morte do nosso Presidente! Quando o Chile votou o não ao ditador, eu não votei, apenas fui capaz de tornar ao Chile 20 anos depois a convite de Patrício Aylwin que tinha pedido publicamente perdão a sua divindade pelos delitos cometidos contra uma pessoa que queria uma transição ao socialismo pacífica, sabia que o povo não estava preparado ainda para governar. Eu falei com Patrício Aywiln para lhe dizer que ninguém o ia perdoar, ainda que fizer um funeral de Estado para os restos de Salvador Allende. Votei por ele no Senado da nossa U em Lisboa, mas não assisti a cerimónia. Apenas fui a Embaixada e falei com ele. Amigo do nosso pai, falei diretamente na sua cara. Eu sou amigo direito do seu filho José ou o Aylwin que protesta, José. Duas semanas depois chegaram bilhetes de avião e me passeou por Chile a dar conferências. Fartei-me de falar contra a ditadura e dos 1.500 chilenos que com Billy Callagham levamos à Grã-Bretanha. O meu diretor em Cambridge, Sir Jack Goody quem me tinha enviado para saber como era o socialismo votado em liberdade, resgatou-me de imediato e sai sob a custódia da Embaixada Britânica. A minha mulher, apenas 4 meses depois com a nossa pequena filha. Tivemos outra para tentar começar a vida de novo. Tem provado ser impossível.Filhas casadas, doutoradas em psicologia e netos lá, eu, cá, a luzir o meu doutorado em psicopatologia da infância. Desculpe o desabafo. Lentamente vou morrendo a uma idade nova ainda …. Espero que seja antes que depois…Pelo menos auxilio às pessoas que sofrem com o nosso Governo …. sem cobrar nada.
    Obrigado. Allende e a sua lembrança, o auxilio emprestado a uma Tencha que nem meias tinha sem buracos …. Allende descansou, nos louvamos a sua glória.

  5. patriotaeliberal says:

    Uma música de que gosto muito e me faz lembrar o Chile de Allende e o Chile de tantos que foram presos, torturados e assassinados.

    (quando na manifestação ouvi o barulho dos tachos e panelas, arrepiei-me. fez-me lembrar as manifestações contra-revolucionárias do Chile. eu lembro-me de as ver na TV. má escolha, mas muitos não se lembrarão)

  6. Dora says:

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  1. […] este NO 2012, ESCREVIA SOBRE SALVADOR Allende e o fracasso do seu governo, texto que pode ser lido aqui e  para quem tiver […]

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