Beethoven e a sua rebeldia contra as classes sociais

 

Todos sabemos que nasceu em Bona, em dia incerto, mas quem investiga o génio da música, criador de forma clássica da composição musical, sabe que pode ir aos registos da igreja da sua freguesia, e fica a saber que por desleixo dos pais não foi inscrito no Registo Civil. O problema era que tinha nascido um filho primogénito, também como o nome de Ludwig, falecido poucos meses depois. Nasceu este segundo que foi denominado com o nome do irmão falecido. Os pais, Maria Magdalena Kewerich (17461787), e Johann van Beethoven (17401792), pensaram que a inscrição do nascimento do primeiro filho, Ludwig Maria que nasceu e morreu no ano de 1769, era válida para o segundo, Ludwig também, e apenas o batizaram no sai seguinte do seu nascimento, Beethoven foi batizado em 17 de Dezembro de 1770, tendo nascido presumivelmente no dia anterior, na atual Renânia do Norte, Alemanha

(Fonte: Maynard Solomon (5 de janeiro de 1930), cidadão norte-americano, especializado em biografia de músicos como as de Mozart e Schubert, publicara também em 1977 em inglês, a obra Beethoven, Macmillan Press, traduzida para luso-brasileiro em 1987 pela editora de Rio de Janeiro Jorge Zahar. Tenho procurado hiperligações para citar a vida do compositor e orientar o leitor para mais opções, o livro não está em linha, para facilitar a sua leitura, por causa de Solomon ser ainda vivo e cobre direitos de autor).

O livro de Solomon é informativo e centra-se muito nos namoros de Beethoven e tenta procurar qual era o grande amor da sua vida que Beethoven denomina apenas Amada Imortal. Os amores de Beethoven eram muitos, especializado como estava em ensinar filhas de Condes, Príncipes, membros da corte do Kaiser (Imperador) Alemão que, nos seus tempos era Guilherme ou Wilhelm em alemão da poderosa Maria Luiza Casa de Hohenzollern que reinavam na Áustria, Hungria, Veneza e na Alemanha Unificada.

Beethoven era pobre e estava obrigado a ensinar composição nas casas da aristocracia, na Corte, e a usar o novo instrumento que substituiu o clavicórdio, o piano para ensinar. Era um rebelde com causa, gostava de compor mas não tinha dinheiro para aprender. O seu avô paterno, Lodewijk Van Beethoven – também chamado Luís na tradução -, de quem herdou o nome, nasceu na Antuérpia, em 1712, e emigrou para Bonn, onde foi maestro de capela do príncipe eleitor. Descendia de artistas, pintores e escultores, era músico e foi nomeado regente da Capela Arquiepiscopal na corte da cidade de Colónia. Foi dele que Beethoven recebeu as suas primeiras lições de música, o qual o pretendeu afirmar como menino-prodígio ao piano, tal seria a facilidade demonstrada desde muito cedo para tal. Por isso o obrigava a estudar música todos os dias, durante muitas horas, desde os cinco anos de idade. No entanto, seu pai terminou consumido pelo álcool, pelo que a sua infância se manifestou como infeliz.

Avô que o transferiu para estudar, com apenas oito anos de idade, para o melhor professor de cravo desses tempos, Christian Gottlob Neefe (17481798), o melhor mestre de cravo da cidade, que lhe deu uma formação musical sistemática, levando-o a conhecer os grandes mestres alemães da música. Numa carta publicada em 1780, pela mão de seu mestre, afirmava que seu discípulo, de dez anos, dominava todo o repertório de Johann Sebastian Bach, e que o apresentava como um segundo Mozart. Compôs as suas primeiras peças aos onze anos de idade, iniciando a sua carreira de compositor, de onde se destacam alguns Lieder. Os seus progressos foram de tal forma notáveis que, em 1784, já era organista-assistente da Capela Eleitoral, e pouco tempo depois, foi violoncelista na orquestra da corte e professor, assumindo já a chefia da família, devido à doença do pai – alcoolismo. Foi nesse ano que conheceu o jovem Conde Waldstein, a quem mais tarde dedicou algumas das suas obras, pela sua amizade. Este, percebendo o seu grande talento, enviou-o, em 1787, para Viena, a fim de estudar com Joseph Haydn. O Arquiduque de Áustria, Maximiliano, subsidiou então os seus estudos. No entanto, teve que regressar pouco tempo depois, assistindo à morte de sua mãe. A partir daí, Ludwig, com apenas dezassete anos de idade, teve que lutar contra dificuldades financeiras, já que seu pai tinha perdido o emprego, devido ao seu já elevado grau de alcoolismo. (Fonte: Cooper, Barry. In: Oxford University Press US. Beethoven. [S.l.]: 2008 e Solomon).

Mas, havia um segredo muito bem guardado. Morava na sua vizinhança um riquíssimo estofador de móveis, Johann Reiss, que tinha uma filha, Johanna Reiss, quem herdou a riqueza e o trabalho e a fabrico do estofador de Viena. Johanna fica grávida de Beethoven, mas por uma mudança acidental de eventos ela se casa com seu irmão Kaspar. Seu filho, Karl van Beethoven, é criado por Ludwig na vã esperança de torná-lo um importante músico, como ele. A verdade deve ser outra: Johanna estava grávida de Ludvig van Beethoven e confessou o seu segredo a seu amante. Mas ele já estava surdo e não a ouviu. Nunca soube que era o pai do seu sobrinho. Johanna Reiss casou com Kaspar grávida já de Ludwig. À morte do seu irmão reclamou ao sobrinho pata ser o seu custódio legal, nos tempos em que uma viúva jovem, sem pai nem família, ocupada o dia todo na fábrica de estofos, não lhe era permitido criar um garoto de quatro anos. O matrimónio de Johanna e Kaspar foi a correr, para ocultar a sua gravidez. Nasceu um bebé prematuro, criado até seus 25 anos pelo suposto tio que, de facto, era o seu pai. Beethoven era republicano, como a sua íntima amiga a condessa Anna-Marie Erdödy, republicana como ele e admiradores de Napoleão que pensava acabar com toda a aristocracia da Europa. Beethoven costumava disser: os vossos dias estão contados! Ninguém usava peruca nesses tempos em que a guilhotina funcionava sistematicamente.. Nos seus ataques de loucura pela grandiosidade dos seus triunfos, Napoleão fez-se coroar Imperador e Josephine de Baumarché, Imperatriz. Mas considerou que não tinha suficiente sangue aristocrata, repudiou-a, saqueara Áustria e obteve como recompensa a filha do Imperador Franz-Joseph Hohenzolern, a Arquiduquesa Maria Luiza. Tinha dedicado a sua terceira sinfonia a Napoleão, na chave Do Maior, para que o som for mais dramático e alegre: uma classe social que explorava o povo e criara os servos da leva na época feudal, ia ser acabada! A intitulou heroica por ser para um rebelde como ele e Anne-Marie. Mas a admiração de Beethoven e da sua agora amante e companheira, Anne-Marie Erdödy, foram defraudados. Retirara a dedicatória, mas a sinfonia ficou Heroica pelo desafio do afamado compositor europeu para um Imperador que todos temiam, com a exempção deles. A sua amiga, que o amava profundamente, nunca conseguiu o amor do rebelde social e musical; a Amada Imortal estava sempre presente, ele sonhava e dedicava as suas músicas, especialmente a sua Nona Sinfonia, a essa mulher que, pensava ele, o tinha abandonado. Anne-Marie tirou o seu nome de Condessa e passou a ser a cidadã Anne-Marie Erdödy, foi morar entes os seus trabalhadores na Hungria e passou a ser mais uma operária. Beethoven criou a sua Nona, com a esperança de ver a sua Amada Imortal, Johanna Reiss, o que aconteceu. Perto da sua morte, mandou que ela aparecer na sua casa, ela foi. Trocaram os derradeiros olhares e ele faleceu.

No dia em que o seu sobrinho apareceu em casa, tinha composto uma música denominada Für Elise, Adágio ou com movimento lento, em nota lá. Nota dramaticamente alegre. Sem saber, tinha escrito, este Adágio para o seu filho, um derradeiro van Beethoven sobrevivente. Sempre quis ter uma neta Elisa, mas a minha descendência tem as suas ideias em que eu não devo entrar. Mas Elisa fica no meu sentimento, faz-me lembrar de Beethoven esse rebelde social e musical, que revolucionou a música para passar a ser clássica, nem romântica nem barroca: notas certas, silêncios cumpridos, como os que devem guardar os que governam um país e semeiam o caos social.

A nona sinfonia de Beethoven incorpora parte do poema An die Freude (“À Alegria“), uma ode escrita por Friedrich Schiller, com o texto cantado por solistas e um coro em seu último movimento. Foi o primeiro exemplo de um compositor importante que tenha utilizado a voz humana com o mesmo destaque que a dos instrumentos, numa sinfonia, criando assim uma obra de grande alcance, que deu o tom para a forma sinfônica que viria a ser adotada pelos compositores românticos.

A sinfonia n.º 9 tem um papel cultural de extrema relevância no mundo atual. Em especial, a música do último movimento, chamado informalmente de “Ode à Alegria”, foi rearranjada por Herbert von Karajan para se tornar o hino da União Europeia.

Era um homem feliz. A sua Nona o fez juntar com a sua amada imortal que tomara conta dele nos seus derradeiros dias. De forma soave e sem rancor . Johanna Reiss tinha aparecido! E, em carta trocada entre eles, é-lhe revelado o segredo de ser o pai do seu pretendido sobrinho, coma analisa Solomon. Como está escrito no maço de cartas tocadas entre ele e a mãe do seu filho. Dedicada oficialmente a Frederico Guilherme III da Prússia, eles sabiam que era para Johanna Reiss. Mais tarde na vida, o segredo foi revelado na obra de musicólogos, historiadores e no arquivo Beethoven, que Solomon não consultou, e esta em  http://lica.spaceblog.com.br/139493/Uma-Carta-De-Beethoven-A-Sua-Amada/

Meu anjo, meu tudo, minha alma gêmea. Só algumas palavras e a lápis, o teu. Porque esta tristeza? Se estivéssemos juntos não sentiríamos essa dor. Tenho de ver-te. Por mais que me ames, eu te amo mais. Nunca te escondas de mim. Só posso viver plenamente contigo ou não viver. Tem de ser assim. Onde eu estiver, estarás comigo. Hoje, ontem…Anseio até as lágrimas por ti. Tu és a minha vida, meu todo (Ludwig van Beethoven)

A carta é mais cumprida, enviada para o hotel das águas termais de Karlbath em 6 de Julho de 1806. Hotel que pernoitei nos anos 80 do século passado, após de proferir conferências na Universidade de Heidelberg. A universidade de Brahms e de Beethoven. Acaba por disser na carta do 7 de Julho: sempre vosso, sempre tua, sempre nossos. Carta na ligação citada antes e nas páginas do livro de Solomon 217-218

Ludwig van Beethoven, nos seus 56 anos, faleceu de cancro, mas feliz: a justiça estava feita! No dia 26 de Março de 1827, três anos após de ter estriado a sua Nona, enquanto escrevia os Spatten Quartets, docemente, caladamente, a pena caiu das suas mãos.

O criador da música clássica que habituou ao auditório ao uso de todos os instrumentos, sendo um deles a voz humana, entreva na eternidade. Vive na sua música e nos descendentes do seu filho Karl Reiss van Beethoven

Raúl Iturra

27 de Outubro de 2012

Comments


  1. Beethoven foi um construtor de Música nas suas sinfonias e música de cãmara e soube transmitir uma mensagem de esperança e de humanidade. De toda a sua obra, destaco a ‘Heroica ‘ e as duas últimas sonatas para piano.

    • Raul Iturra says:

      Agradeço a Antero Leite o seu sereno e bem documentado comentário. De entre todos os compositores de vários países e séculos, Beethoven foi o que mais me tem impressionado. Costumava ter um busto do Maestro no meu estudo de jovem estudante, nesses tempos, de Direito. Era-assuntos de juventude-obrigatório para os meus amigos e os amigos dos pais, render uma homenagem ao organizador da música Clássica, como as togas gregas: nem um bemol a mais, nem uma ruga na capa de Aristóteles. O que sempre admirei em ele foi a sua capacidade de compor ouvindo a música na sua cabeça. As punições do pai doente, causaram o seu rampante não ouvir. Os Spatten (últimos) Quartetos escritos em quanto morria, impressionam-me. Devo ouvi-los em silêncio, é a luta pela vida a uma idade ainda nova. Mas que era, como Mozart e Wagner um revolucionário, devemos reconhecer que escrevia para animar ao povo feudal. Era agressivo, a sua desgraça o tornaram assim. Mas, não é o mais importante. O interessante é que foi o evolucionário da música: nunca um dó no sítio não devido. Amou e não foi amado, a pior das felonias para um músico com a alma cheia do esplendor pelas notas escritas. Cada músico é diferente e fazem delirar. Beethoven criou um sistema! Acabou com o barroco de Bach e Haydn, o romantismo de Schubert e os Schumann, anos mais tarde. Refez a notação musical com compasses que não acabavam, ficavam nas nuvens…e no imaginário do ouvinte…Obrigado pela paciência de ler os meus textos e comenta-los!

      • xico says:

        Gostei de ler o seu texto, mas neste último comentário faz afirmações no mínimo estranhas. Haydin já não é barroco, mas um clássico cujas obras finais, de tantos anos que viveu, já nos fazem lembrar o romantismo que chegará precisamente com a Heróica de Beethoven, que assim inicia o período romântico na música. E o que é isso de refazer a notação musical? Julgo que Beethoven não refaz a notação musical!


      • O Testamento de Heilingstad (julgo que é assim que se escreve) onde Beethoven, já surdo, decide continuar a lutar sem se deixar vencer pela adversidade, teve em mim um grande impacto na minha juventude e ajudou-me a não soçobrar perante os momentos difíceis que enfrentei. Recordo ainda o quanto recebi da ‘Heroica’ ao ouvi-la no mato do leste de Angola nos idos de 62/64, onde o isolamento ( e não as acções de guerra que não havia. felizmente) nos traumatizava. A 3.ª sinfonia é a obra de Beethoven que levo sempre para a minha ‘ilha isolada’. .

    • Veen says:

      Mensagem de esperança e de humanidade ? Meu caro amigo com uma visão tão romântico e ingênua, roubar o filho ( seu sobrinho ) de uma mãe, causando distúrbios, sequelas e suicídio é ser huminitário ? Uma coisa são suas boas composições.Outra é se ser ingênuo,relacionar o status excepcional de seus peças com uma alma de compaixão e humanitária.Beethoven foi um compositor extraordinário mas Beethoven foi uma pessoa normal, com mágoa, inveja e ciúme tangentes a qualquer ser humano com amor não correspondido.Procure cavar mais fundo quando tentando entender algum assunto … Talvez as incovenientes e mascaradas verdades te revelem um mundo menos utópico..


      • O sobrinho que refere chamava-se Karl e não o roubou ao pai, seu irmão, também de nome Karl. Este decidiu ‘confiar-lhe a tutela do filho.Escreveu no seu testamento:«Contando com a afeição de meu irmão Ludwig, desejo que assuma, depois da minha morte, a tutela do meu filho menor Karl… Rogo ao meu querido irmão que aceite este encargo e que seja como um pai para o meu filho». Ludwig assinou o documento como testemunha. Um ano antes da sua morte, Karl renovou este pedido, desta vez com grande efusão de agradecimentos, «confiando plenamente no seu coração generoso, depois de me ter testemunhado a sua amizade da maneira mais nobre e despreendida’ (Ludwig, Emil ‘ Beethoven’ , Colecção Grandes Biografias, editorial ASTER,Lisboa,s/d, pp. 181)

  2. beethoven não era da classe dos surdos subsidiados? says:

    se era anti-classista tinha bué de classe
    ao menos o Mozart morreu no SNS autro-húngaro

  3. Raul Iturra says:

    Beethoven não era surdo subsidiado. Ele subsidiava à sua família. A mutualidade de artesãos e artistas, estudadas por Durkheim para a sua tese de doutoramento na École Normal de Paris, não considera digno de ajuda a quem ganhava tanto dinheiro com a música, a composição, a sua obra e as aulas de piano para a aristocracia de Viena. Aliás, o seu temperamento não lhe permitia juntar-se com os artesãos pobres do seu tempo. Está todo explicado nos seus biógrafos, com Solomon e outros que cito no texto. Tese que passou a livro em 1893: De la Division Social du travail, Felix Alkan, Paris. Quanto a um Haydn barroco, é um comentário mal feito por mim. Estava a pensar no encontro de Haydn e Mozart em Paris, em que Mozart dedica a Haydn quatro quartetos, um deles em tempo de barroco. Devia ter dito a tríada dos clássicos de Viena: Haydn, Mozart e Beethoven. É tanto o meu entusiasmo pela música de Beethoven, que até me engano. Agradeço o seu chamado de atenção. Sorte ter sido no comentário e não no texto centra, em que saliento imenso a Beethoven como criador do classicismo.

  4. Karol says:

    Mas o Karl ( sobrinho) não é filho do Beethoven ( compositor) ele é sobrinho dele, afinal diante de tudo isso ele não gostava da atitude de Johanna Reiss , ele mesmo dizia que ela era imoral e também não tinha uma boa reputação, já que depois de Beethoven ganhar a custódia do então sobrinho, ela teve uma outra filha chamada Ludovica que não se sabe quem é o pai… Não é muito compreensivel na minha opinião o Beethoven ter um filho de uma mulher que ele mesmo não gostava…a não ser que foi por acaso.

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