Virtuais e reais

Foram anos a abrir todas as manhãs o Jornal de Notícias on line para ler a crónica de Manuel António Pina. Era um prazer imenso aquela prosa enxuta, aquele estilo directo, aquela cultura e carácter enroupados de ironia.  Era um conforto de alma ver que, neste naufrágio em que tantos se têm perdido, o Pina era como um farol de coerência, de coragem, de desassombro na luta pela Pátria.Estava do lado certo na batalha e combatia o bom combate. De súbito, no verão, as crónicas do Pina deixaram de aparecer. E eu, cheia de pena, mas a pensar que era tempo de férias, que o Pina bem as merecia. Chegou Outubro e a morte do Manuel António Pina fez a primeira página de todos os jornais. Foi um choque e uma desolação. Nunca vi o Pina, nunca nos falámos, estou certa que ele nem sabia da minha existência, mas para mim era uma pessoa em quem acreditava, que estimava. Um amigo virtual, mas um amigo.

Foram anos a abrir todos os fins de tarde o blog de poesia do António Paulo Moreira da Silva, a abrir o outro com os seus discos. O fadista de Santarém, visivelmente culto, construíu dois sítios na internet que eram dois oásis neste deserto em que a comunicação endureceu e se tornou fastidiosa. Pelo meio o António e eu trocávamos mensagens, mas nunca nos chegámos a encontrar. De repente, no início do verão, o António deixou de aparecer. Fiquei tão triste, mas consolei-me a mim mesma pensando que por ser verão o António estava a descansar. Quando Outubro chegou, e o António sempre ausente, sobressaltei-me e procurei por ele junto de um amigo comum. A resposta veio repassada de desgosto: o António tinha morrido no dia de São João.

Foram anos a apreciar a luta do Dr. Manuel Luciano da Silva, o médico de Rhode Island que, apaixonado por Portugal e a sua história, levou a cabo uma pesquisa pela qual concluíu que Cristóvão Colombo era português. O ponto forte era a pedra de Dighton, de que decifrou as inscrições, e ali há agora museu e padrão. A esse conheci-o: em 1975, foi com sua mulher a Tomar para me dar um abraço e desejar coragem.  Anos mais tarde demos outro abraço em Oliveira de Azeméis, onde um  centurião cheio de generosidade, o empresário da comunicação social Aníbal Araújo, patrocinava os prémios de Prestígio a emigrantes e carregava a cruz de todas as traições. Era um português inteiro o Manuel Luciano da Silva, merecia viver para sempre. A sua morte, em Outubro, deixou-me na confusa pena de assim não ser.

Outubro foi para mim, nesta lonjura, um tempo de luto.

E também de esperança. As pátrias não se apoiam só nos vivos, muito se apoiam na herança deixada pelos mortos. O resto, é caminho e solidão.

Comments


  1. “toda a literatura fala da morte e do amor. e do tempo, que é a morada de ambos”

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