A Greve Geral e as avestruzes

Por Noémia Pinto

Irrita-me que as pessoas se comportem como avestruzes.

Na 4ª feira andei pelas ruas. Embora não seja sindicalizada, desfilei com os sindicatos. Embora não seja radical, gritei palavras de ordem. Não me orgulho de todas as que gritei alto e bom som, mas gritei-as. Embora não seja arruaceira, mantive-me na Praça por horas depois da manifestação acabar.

Raramente faço greve, e quando faço, sou como muitos dos outros, fico em casa, vou dar umas voltas e, pronto!, lá se passou mais um dia de greve.

Mas a situação do país exige que me manifeste, que faça greve e vá para as ruas juntamente com os meus companheiros. Acredito genuinamente que nestes dias todos somos iguais. Que as diferenças são postas de parte para que todos lutemos por um futuro melhor. Por mudar a sociedade. É disso que se trata.

Confesso que tenho sido cobarde muitas vezes, demasiadas vezes. Quando trabalho a contrato, não faço greve. Receio represálias… No entanto, apoio e faço o que posso para mostrar o meu apoio. Posso não estar fisicamente em luta, mas estou-o de outra forma. Luto como posso.

Ora, a mim irrita-me que os meus amigos facebookianos, quase todos amigos reais, que eu não gosto dessas modernices de ser amiga de desconhecidos, não se tenham manifestado usando aquela rede social. Partilharam receitas, partilharam estados de espírito, partilharam canções, partilharam lindas fotos de flores, fofos bebés de duas e quatro patas, partilharam tudo. Tudo menos o mais importante.

Embora me tenha sentido em harmonia com aqueles, infelizmente, poucos milhares de pessoas, gostaria de ter amigos reais ao meu lado. Pelo menos saber que eles estavam comigo ali, se não fisicamente, pelo menos em pensamento. A ouvir e entoar a nossa Grândola, a cantar e dançar Bella Ciao, a ouvir e repetir En el pozo María Luísa, a emocionar-se com o Hino Nacional, a recordar baladas antigas: Somos Livres, Os Vampiros, Canta, Amigo Canta, a gritar «Auditoria à dívida, auditoria!», «O povo unido jamais será vencido», ou «A luta continua, nas empresas e na rua», «Abril de novo com a força do povo», «Portas, Cavaco e Passos são amigos dos ricaços» e, o que me emocionou particularmente, «Grécia, Espanha, Irlanda, Portugal, a nossa luta é internacional».

Mais uma vez, fomos poucos mas bons e com genica. E mais uma vez me emocionei. Cantei Grândola com lágrimas nos olhos e um aperto no coração. E telemóvel na mão! Senti-me em sintonia com todos os povos europeus que lutam para mudar o rumo que isto leva. Que pretendem uma Europa pacífica, com solidariedade social, com respeito por TODOS os cidadãos.

Estivemos em GREVE!!! Uma GREVE/ DIA DE LUTA à escala europeia!! Foi um dia histórico!!! Podem não ter feito GREVE. Podem não gostar. Podem discordar. Podem invejar os que fizeram. Podem odiá-los. Podem. Tudo. Mas falem sobre o assunto! Não escondam as cabeças na areia. O mundo não vos vai cair em cima por falarem dessa terrível palavra. A menos que se ponham a atirar pedras. Ou que estejam perto de quem atira. Ou, até, que estejam longe. Ou que estejam calmamente à espera de um comboio que teima em não chegar por efeitos da GREVE. Aí pode mesmo cair-vos algo em cima.

Comments

  1. omolavamaisbranco says:

    Para tud@ ! só fez greve quem pode, as grandes empresas privadas PODERAM!

  2. Marão says:

    Irrita-me que haja pessoas que queiram que os outros se comportem à sua imagem e semelhança seguindo-lhe os passos.
    Na 4ª feira não andei pelas ruas. Não desfilei com os sindicatos. Embora não seja radical, nunca excluo a possibilidade de elevar a voz à minha ordem. Até posso arrepender-me das posições que tomo mas tomo-as. Não tendo estado na praça, respeito os que o fizeram sem colaborar na arruaça. A greve é um direito que não pode ser alienado, e de igual modo deve ser respeitada a opção de quem acha que não devem aderir.
    Mas a situação do país exige que cada tome posições de acordo com a própria consciência sem estados emocionais de ocasião, deixando para cada um a liberdade de fazer ou não greve e ir para as ruas quando entender e com quem bem entender. Acredito genuinamente que nestes dias todos somos iguais mas não temos que ter comportamentos semelhantes. Que as diferenças de opinião não deixem de ficar bem vincadas para que todos lutemos por um futuro melhor. Por uma sociedade melhor. É disso que se trata.
    Confesso que me assaltam dúvidas muitas vezes, demasiadas vezes. E é por isso que respeito a avaliação de cada um, desde os que trabalham a contrato, aos que ilusoriamente pensam que tem emprego assegurado, e é por isso que tento sempre as origens e os profundos propósitos de greves e manifestações. Todos receamos represálias venham elas de onde vierem, no entanto tento sempre estar tanto física como mentalmente onde a minha vontade dita. Luto como posso e quero.
    Ora, a mim não me irrita o facebookianismo, que eu até gosto dessa modernice para poder trocar ideias e manter contactos com pessoas mais chegadas ou desconhecidos, mas percebendo que ninguém é aí obrigado a despoletar ou alimentar temas a nosso gosto. Partilham receitas, partilham estados de espírito, partilham canções, partilham lindas fotos de flores, fofos bebés e animais de quatro patas, partilharam tudo. Tudo o que lhes aprouver com o direito a debitar ali sem a obrigação de despejar ali o que consideram mais importante.
    Embora não me sinta em harmonia com todos, felizmente respeito os milhares de pessoas que por uma ou outra razão decidiram estar presentes, como os que por uma razão ou outra não participaram. Tenho o particular gosto de ter os amigos reais sempre ao meu lado, independentemente do espaço geográfico onde cada um se move. Sei que eles estão comigo estejam onde estiverem. Ouvir e entoar a nossa Grândola, a cantar e dançar Bella Ciao, a ouvir e repetir En el pozo María Luísa, a emocionar-se com o Hino Nacional, a recordar baladas antigas: Somos Livres, Os Vampiros, Canta, Amigo Canta, a gritar «Auditoria à dívida, auditoria!», «O povo unido jamais será vencido», ou «A luta continua, nas empresas e na rua», «Abril de novo com a força do povo», «Portas, Cavaco e Passos são amigos dos ricaços» e, o que me emocionou particularmente, «Grécia, Espanha, Irlanda, Portugal, a nossa luta é internacional» é hábito antigo ouvir essas músicas desde os tempos de escutar baixinho. Palavras de ordem nem por isso.
    Mais uma vez, saudar os que foram com convicção e por isso são bons, como os ausentes, que só por isso são todos maus. É sempre bem vinda a emoção em braço apertado à razão. Cantar Grândola com lágrimas nos olhos e um aperto no coração com os dedos da mão apertados dispensam bem o telemóvel! Sinto-me em sintonia com todos os povos europeus que lutam para que se consiga um mundo melhor. Que pretendem uma Europa pacífica, com solidariedade social, com respeito por TODOS os cidadãos.
    Estivemos em GREVE!!! Uma GREVE/ DIA DE LUTA à escala europeia!! Foi um dia histórico!!! Podem não ter feito GREVE. Podem não gostar. Podem discordar. Não se podem invejar os que fizeram. Também não se odeiam. Não podem. Tudo mas apenas à medida da razão. E que todos falem sobre o assunto, sem dúvida! Não escondam as cabeças na areia, mas também não mudem de praia sempre à procura de sol. O mundo não nos vai cair em cima por causa das palavras. A menos que se ponham a atirar pedras, e há muita gente que não repara no ricochete por tabela. Estar perto de quem atira tanto pode ser opção como descuido. Ou, até, que estejam longe podendo estar-se longe e aqui tão pert. Ou que estejam calmamente à espera de um comboio que teima em não chegar por efeitos da GREVE. Se aí pode mesmo cair-nos algo em cima, ao menos que seja um comboio.

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