Que se lixe o ABC

O Governo quer que os portugueses se deixem de escolaridades mínimas obrigatórias e prepara-se para destruir de uma assentada o que resta de uma ideia de Escola pública que, apesar de deficiente (e tudo terá começado a ficar mais complicado quando o PS de José Sócrates chegou ao poder), mantinha o País num rumo de progresso por via do acesso universal ao Conhecimento. Não é só a mobilidade social (já muito dificultada por tudo o resto que actualmente a debilita) que se verá gravemente afectada: é o próprio projecto de uma sociedade que começa por ser democrática porque dá a todos, pelo acesso gratuito à Educação, a possibilidade de formar cidadãos para o exercício político da cidadania.

Em 1936, Carneiro Pacheco, ministro da Educação Nacional, afirmava (num estilo de que Passos Coelho é um lamentável e anacrónico herdeiro) que «O ABC [tinha sido] legalmente derrotado por Deus», deitando por terra o programa republicano que preconizava ser o ABC «o fundamento lógico do carácter». Tratou-se, nessa reforma estado-novista, de reservar a Educação às elites, reaproximando o povo do freio da Religião, banhando-o desde a mais tenra idade nas virtudes cristãs, em detrimento daquilo a que chamavam “o saber enciclopédico”, que de nada serviria aos meninos nas suas vidas futuras, diziam – e o mesmo dizem hoje os passos coelhos desta vida portuguesa a andar para trás relativamente aos alunos universitários que estudam para serem desempregados, em vez de se deixarem de estudos e aceitarem ser os soldados das multinacionais exploradoras do trabalho barato.

E foi assim que criou o povo resignado que se absteve de toda e qualquer participação cívica – mergulhando no silêncio medroso até 1974. É esse o povo que hoje não vota, entregando aos partidos minoritariamente votados (se considerado o universo dos eleitores) o destino da Nação.

Comments

  1. armindo vasconcelos says:

    A propósito do que Sarah escreve, exemplarmente no final dos primeiro e segundo parágrafos, relembro o que Mário de Carvalho dizia, em Setembro de 2012, em entrevista ao JN, sobre o empobrecimento da língua portuguesa, consequência do ensino que vamos tendo. Ressalve-se, ou não, a carga ideológica, aqui ficam as suas palavras: “A situação, já de si preocupante, tende a agravar-se. O que se pretende é a formação de consumidores e não de cidadãos. Na ótica do ensino de hoje, não é preciso decifrar metáforas ou conhecer um vocabulário alargado. Basta ler um anúncio. É isso que pretendem as pessoas ligadas às negociatas do capitalismo. Querem massas amorfas de consumidores e contribuintes para venderem os seus produtos”.

  2. Catarina says:

    «É isso que pretendem as pessoas ligadas às negociatas do capitalismo. Querem massas amorfas de consumidores e contribuintes para venderem os seus produtos.» Em breve isso deixará de ser uma preocupação, as massas amorfas não terão dinheiro nem para comer…

  3. luis says:

    “Manter o povo burro para lhe sacar o dinheiro, Isso é feio” Bezegol.
    Este (des)governo é criminoso. É urgente derrubar este governo, seja de que forma for.

  4. Um cartoon do El País há umas semanas atrás mostrava um casal bem vestido com uns copos de “cocktail” na mão dizendo: “Não é preciso que os vossos filhos estudem; os nossos já o fazem”.

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