Os mal amados

Portugal, por incompetência e negligência crónica dos políticos, é um exportador habitual de emigrantes. Ao longo dos séculos, e até ao presente, as crises provocadas pelos maus governos têm lançado o nosso povo na penúria e têm-no empurrado para fora das fronteiras, num sofrimento que “é bom ter pudor / de contar seja a quem for”, como disse o (grande) poeta e (grande) esquecido José Régio. Mais: ciclicamente, maus governos que não aguentam críticas têm obrigado a exilar-se centenas de pessoas a quem foi negado o direito da livre expressão e de viverem na pátria.

Fazem constar, os autores desta malfeitoria, que o país é pobrezinho, coitadinho, é pequenino, não dá para todos. Mas, a avaliar pelo que tem sido roubado e esbanjado, Portugal é um país de posses. E, pelos vistos, também o é de recursos naturais, entre subsolo e mar, como parecem garantir empresas estrangeiras explorando minério (e olha lá se esses perdem dinheiro e embarcam em aventuras tontas)ou como farejam aqueles que vêem no mar um império dourado e os que garantem que o vento, a água e os vegetais degradáveis podem fornecer energias alternativas que poderão garantir autonomia ao país. Pouco depois do 25 de Abril, tive uma longa e agradável conversa com um engenheiro de minas espanhol, ao tempo estabelecido com uma jazida de mármore no sul do país. Disse-me ele que tinha uma carta mineralógica bastante completa e podia garantir que, se Portugal tivesse governos à altura, só com a exploração mineira os portugueses poderiam viver desafogadamente.

O anterior regime estabeleceu o vício da educação elitista, sendo norma os sem meios ficarem sem poder ascender a altos estudos, mesmo sendo inteligentes e até brilhantes. Julgou que com isso os bem instalados na vida poderiam dominar ad eternum os que ficavam de asas cortadas. Enganou-se e, o que é trágico, com isso empobreceu o país. Com a democratização do ensino, podemos hoje ver quantos e tão bons elementos temos na ciência, na investigação científica, nas letras, nas artes. Um país que tem dado ao mundo grandes cientistas, arquitectos e artistas, não é pobre. É mal governado, como se verifica actualmente, porque as ideias fascizantes são como as comunistas ou nazis: autênticos bacilos adormecidos que desatam a destruír quando sentem que o corpo nacional está fragilizado. Só maligna peste de carácter poderia estar a empurrar pela porta fora, mas negando-o hipocritamente, cérebros privilegiados cuja educação todo o país pagou e que vão enriquecer países estrangeiros. Freud pode explicar este crime perpretado por medíocres em toda a acepção da palavra.

Brada aos céus, perante tudo isto, que a governação encha a boca com as remessas dos emigrantes, a quem não entende nem dá nada em troca; que os seus secretários de estado venham às comunidades emigrantes tentar sacar os votos que mantenham a vigarice do sistema actual, uns verbos de encher que não sabem nada de nada; que as delegações de bancos portugueses cresçam como cogumelos, sem nunca terem aberto as portas aos empresários emigrados para poderem erguer novas empresas no seu próprio país (se isso tivessem feito, nos últimos 30 anos, Portugal não precisava de dever ao estrangeiro), julgando, muito parvos, que cá fora não sabemos que a banca portuguesa tem abichado os milhões estaduais sem ter a decência de evitar que as pequenas e médias empresas vão à falência diariamente. É claro que cá fora tudo isso se sabe: até mesmo as bacoradas do Ulrich desagradam tanto aqui como aí.

Portugal tem o feio hábito de não gostar dos emigrantes e até de os ridicularizar sempre que pode, como se um Álvaro tresnoitado e pacóvio fosse regra na diáspora.

É assim porque ninguém ama aquilo que não conhece. Por isso me desagradou e entristeceu um Prós e Contras, anunciado como um marco para a emigração, e que focou apenas os intelectuais e os casos de sucesso, como se estivesse a fazer propaganda, tendo evitado falar do que é concreto e real: os milhares de portugueses, sem curso nem especialização, que a fome empurra para o estrangeiro e se sujeitam a tudo. Não quero acreditar que isto tenha acontecido por má fé, mas não duvido que, mais uma vez, se tratou de desconhecimento. É pena. Porque só há uma trave rija e fiável a que Portugal se pode encostar: o Portugal peregrino, aquele que, apesar de tudo, sabe distinguir entre governos e pátria por saber, dum milenar saber, que os governos acabam mas a Pátria continua.

Comments


  1. Também pode haver outra interpretação, menos consensual e mais controversa: emigramos porque não nos conseguimos unir como nação em momentos de desagregação. Quando a Alemanha, esse bicho papão, ficou de rastos ninguém emigrou…

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