Os portugueses da Europa – um retrato a preto&branco

Somos um bocado aristocratas, altivos, vaidosos até, porém não porque sejamos má gente, ou tenhamos a supremacia no coração – é só porque somos antigos que somos assim, é porque somos gente há muito tempo, povo independente, de cultura singular, únicos na Europa, apesar de todas as semelhanças – com os do Sul, necessariamente, e também com os de África, a nossa outra terra, que deixámos ainda anteontem, fugidos de lá pela metamorfose da História que nos devolveu ao território de partida, aqui regressados anteontem chegados cheios de raízes outras, remotas e até um pouco excêntricas para Homens pós-modernos do século XXI que vivem em economias de mercado.

Somos esses, senhores da Europa, e até mesmo quando somos pobres. Se estudarem a História do Mundo verão que estamos sempre lá, nos momentos decisivos como nos outros. O nosso outro nome é viagem. Por vezes chamamo-nos Oliveira de Figueira. Somos árvores, compreendem? Somos navios de madeira verdadeira, exóticos de antiguidade, já nem se usa.

A coisa é que apenas aqui chegados anteontem, e com o País todo por fazer, e já nos mandam embora, perseguindo-nos em todos esses direitos ainda ontem conquistados – promessa de desenvolvimento a que não fomos capazes de dar uma forma melhor, é certo, por não sabermos como, a quem entregar tal tarefa, talvez por não sermos suficientemente de cá, talvez por termos andado ocupados a ganhar a vida que em Portugal não nos víamos capazes, talvez por não sabermos fazer castingues decentes às elites, esses nossos compatriotas aqui ficados cheios de ganas de conquistas em terra, os olhos postos no horizonte, nós a acenar ao longe, a mandar saudades. Ou talvez por termos ficado tolhidos, ou por termos sido cobardes, ou então por termos escolhido ficar só calados, com medo de meter o pé na poça, por medo de tomar decisões.

Somos antigos mas cometemos erros e não sabemos fazer tudo – por vezes somos um bocado parvos, há genes pretéritos de parvoíce, de ingenuidade e de deixa-andar que nos estragam o futuro. Estamos sempre a aprender – convosco também. Somos maus em estratégia, gostamos da aventura – foi perseguindo-a que fomos para o mar, para o desconhecido, para os Outros. Foi também um pouco assim que vos conhecemos, e que nos pareceu uma boa ideia juntarmo-nos.  Conhecemos muita gente, muita muita, temos bons amigos em todos os lugares (you name it, estamos lá), somos bem relacionados, falamos outras línguas, deixámos a nossa pelo Mundo – palavras de cá que espalhámos, semeando as nossas histórias, identidade e saberes por toda a parte, e até mesmo em lugares bué de distantes, tão longínquos alguns que até parece mentira, ou uma lenda, ou uma treta da mitologia.

Se fizemos uma revolução não foi para ficar tudo na mesma, para voltar à cepa torta, para ver o nosso país morrer na praia, nós ali de calções de banho todos lixados a apanhar borbulhas de alforreca. Queremos uma negociação social. Vamos lá onde for preciso. Deslocamo-nos sem problemas, apesar da antiguidade.  Não entregaremos a nossa soberania, não se enganem. Queremos ser consultados nas grandes questões que nos dizem directamente respeito, nas que interferem nas nossas vidas, nas que as transformam – se for para pior nada feito.

Exigimos respeito, respect, ‘tão a ver? São cá coisas nossas, de gente antiga e civilizada, que gosta de se dar ao respeito. Ensinaram-nos que é bonito, a vocês não? Sabemos que temos reformas para fazer no nosso Estado, mas precisamos de tempo e de paz para pensá-las. Não aceitamos continuar a dar tiros de metralhadora no pé, por causa das vossas urgências. Nem a passar dificuldades que não lembram ao Diabo, depois de nos terem impingido a destruição dos nossos modos de vida, todo esse progresso de que não precisávamos, os vossos excedentes, o vosso desprogramado programa.

Comments


  1. Um brilhante prefácio merece uma grande obra. Ou vice-versa!
    O exórdio é preclaro, venha o complemento da história com hinos de povo, a crónica num cravo e numa G3 sem balas, nós repetimos até à exaustão erros e virtudes.
    Mas, desta vez, arranje-lhe políticos em condições (eu sei, é difícil, mas nós somos de impossíveis), gente séria para colocar no sólio, nos areópagos desta terra “abensonhada”.
    Depois, diga a esse povo que a história se constrói dia-a-dia, não só no tempo. Que temos de ser bravos como o nosso nome, duros como as rochas desta terra.
    E, se um dia esse povo perceber que a palavra-canção é um hino, mas nunca poderá ser uma batalha, a Batalha, e que, quando se luta, é para vencer, e que, quando se quer vencer, nada pode resistir à nossa voz no princípio, à nossa valentia no final, então, Sarah, eu poderei não acordar com estas locuções no pensamento, com esta mágoa na cabeça, mas abrirei as janelas à História.
    É cedo, eu sei. Mas é de manhã, com luz apenas de madrugada, que se começa o caminho.


  2. Olá Sarah…

    “Não entregaremos a nossa soberania,…” Onde ela já vai! Aliás… onde elas já vão… E pela ordem de importância que hoje a Maioria dá às “coisas”…

    Soberania Financeira? Népia…
    Soberania Política? Népia…
    Soberania Territorial? Népia…
    Soberania Linguística? Népia… “De fato… isto é um fato!”

    Se a nossa História e as nossas ocupações de territórios já habitados por outros Povos, não fosse o que foi… Até estava contigo na parte do “..e também com os de África, a nossa outra terra, que deixámos ainda anteontem,…”
    Mas olhando para trás, o errado que fizéssemos ao longo de séculos, não me permite partilhar este “sentimento”…

    E eu, que nasci em Janeiro, pleno época de Verão!!!

    Só posso é pedir perdão…

    Abraços 😉

  3. Sarah Adamopoulos says:

    Voz0db: se não me mantivesse no fundo apaixonada por Portugal não poderia jamais viver com os portugueses, e como sabes a paixão esconde, escolhe, idealiza. Tenho no entanto notado que não há como os estrangeirados (ou até mesmo estrangeiros, depende da perspectiva) como eu, embora nacionalizada (!) – em época de privatizações é um orgulho 🙂 – somos muitas vezes mais generosos com os portugueses. Considero-me portuguesa, tornei-me enquanto escrevia nesta língua, que é tão bela.

    O que tem Janeiro? Não percebi essa parte. É por causa da imagem de nós de calções na praia? ora, para um português não é preciso ser Verão para ir a uma praia. há tantas no nosso caminho!

  4. Sarah Adamopoulos says:

    E depois sabes voz0db, basta que haja um vivo falante de uma língua, com a sua memória dessa cultura, para que ela prossiga a sua caminhada. Dois vivos é melhor, claro. Alguns livros e memorabilia, um luxo para a historiografia. Dito isto, vamos lá ver quantos sobejamos…!


  5. Querida Sarah… Nascer em Janeiro em plena época de Verão é apenas referência a que nasci no hemisfério sul… Lá na “África, a nossa outra terra, que deixámos ainda anteontem”…

    Foi algo mesmo puxado… Mas a referência, ainda que leve, vinha antes aquando da citação!

    É como se diz “Paixão… Cega” 😉

  6. joao riqueto says:

    “Águia ou galinha?” .
    .

    Era uma vez um camponês, criador de galinhas, que foi à floresta …….
    .

    “.Metáfora sobre a condição humana, escrita por Leonardo Boff.

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