Miséria de portas abertas

na casa de
Não vi esta exposição quando ela esteve na Fnac, em 2011. Nem na Fnac nem em lado nenhum. Desconhecia-a totalmente.

Desconhecia-a até um dia desta semana em que lia a CAIS #180 de Janeiro e Fevereiro, comprada a um idoso sem dentes numa das muitas ruas da baixa do Porto.

Subitamente, de rompante, sem pedir licença, ela entra-me pelos olhos dentro, pela casa dentro. No conforto da minha casa, vejo o imenso desconforto de outras. Vejo a miséria encoberta, a tristeza envergonhada, a desesperança de um povo que vive cada vez pior.

Talvez cada vez mais pessoas tenham que chamar lar a tugúrios destes, não sei. Não conheço números. Não ligo a números. Fui sempre muito mais de letras. Gosto dos nomes das pessoas, gosto de ver as pessoas como únicas, indivíduos todos insignificantes e todos tão importantes à sua maneira.

Por isso, os meus alunos nunca foram o aluno número tal. São sempre a Serafina, o Gaudêncio, a Hermengarda, o Silvério…

E estas pessoas, cujas casas nos aparecem ali, em todo o esplendor da sua crueza, estas pessoas que adivinhamos nas fotos, estas pessoas escondidas atrás de roupas estendidas ou atrás de paredes, de costas voltadas, reflectidas em espelhos, estas pessoas têm os seus nomes escritos nas fotos que vi na CAIS.  Vale sempre a pena comprar a CAIS. Esta semana valeu ainda mais. E vale a pena ver a exposição de Paulo Pimenta, Na Casa De

Comments

  1. Ana A. says:

    E o mais grave é sabermos que não vamos tirar esta gente da miséria, mas sim engrossar as fileiras da indigência! Entretanto, a democracia representativa, cuja Constituição defende a habitação, a educação e a saúde para todos, está a assassinar estes princípios! Se o sistema não funciona mudemo-lo, sem medos! Corramos com os nossos falsos representantes antes que eles nos destruam como sociedade.


  2. Que lindo coração! Ainda por cima diz que vive com conforto! Já os visitou? Claro que não! Só fotos não chega, faça algo por por pouco que seja, Não é fácil, podemos ser contagiados.Eles precisam de muitas coisas para além de dinheiro e medicamentos. Falo com conhecimento de causa e provàvelmente não vivo com o seu conforto. Pelos vistos já deixou de ser cigarra! Sermos solidários não é só na escrita é no terreno.Creio que já lhe disse isto. Porquê tanto empenho em provocar revolta nas pessas através da sua escrita? Onde pretende chegar? Eu sei não precisa responder.


    • Maria Santos, Viu aquelas casas? Vivo com muito conforto, sim, se compararmos as minhas condições de habitabilidade com as que vemos nas fotos e sabemos que grassam por aí, mas fingimos não ver. Quem é a senhora para comentar o meu conforto? E eu sei muito bem do que falo. Não escondo a cabeça na areia nem nunca, por um momento, me passa pela cabeça que essas pessoas me podem contagiar. Não me limito a escrever. Trabalho com pessoas que passam por grandes dificuldades. Faço voluntariado com pessoas que não têm casa. Não quero provocar nada em ninguém. Sou eu que fico revoltada com tanta falta de respeito pelos outros. Revolta-me que idosos vivam e vão morrer naquelas condições. A habitação condigna é um direito e, ainda assim, as câmaras municipais e as pessoas «mandantes» continuam a ignorar esse direito básico. E não, não me recuso a responder aos comentários,simplesmente, no meio de tantas solicitações que tenho, sobra-me muito pouco tempo para responder.

  3. Ricardo Santos Pinto says:

    Esta pensa que é a Madre Teresa de Calcutá que, aliás, era uma verdadeira mafiosa.
    Não ligues. Já agora, tens alunos com nomes muito esquisitos.


    • Esta ,não andou consigo na escola! Sabe o significado desta frase?A Noémia, não deve precisar de advogados de defesa! Deixe a Madre Teresa em paz e tenha respeito pelos mortos já que não tem pelos vivos.


      • Não preciso mesmo de advogados, minha senhora. Quanto aos mortos, eles não merecem mais respeito do que os vivos, muito pelo contrário. Não é por terem morrido que se tornam impunes e santos.


        • Também concordo consigo.Para mim todos são dignos de respeito! Reconheço-lhe uma grande qualidade, para além de uma boa escrita como já disse ,dirige-se às pessoas com educação e, pela parte que me toca agradeço-lhe, pois em muitos comentários que tenho lido só vejo ordinarices, e ai´, a minha revolta é grande. É o principal motivo de ter entrado nisto. Se fui infusta consigo, peço desculpa. Confesso que as suas imagens me chocaram, talvez duma forma difrente de outras pessoas! Boa sorte. Votos para que as suas filhas daqui a alguns anos encontrem um sociedade mais justa!

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