Manobras de Maio

Viver aqui, no litoral próspero de outros tempos, significa não ter tradição de lutas nem manifestações. Isso era coisa da Marinha Grande, nos mesmos tempos. Aqui não há registos de desfiles de Abril e as comemorações do 1º de Maio em Leiria são há muitos anos participadas pelos mesmos, nem muitos nem poucos, assim-assim, a reboque dos sindicalistas resistentes. E foi por isso que as manifestações de Setembro e Março assumiram tamanha importância, também. Vive aqui a mesma gente, do mesmo país, afinal. Coabitam o mesmo espaço que os empreendedores (ah, os empreendedores!), os empresários, os patrões, num distrito a que Feliciano Barreiras Duarte (o secretário de Estado que emergiu publicamente da luta das portagens no oeste, nos anos 90) caracterizou em livro como “um gigante económico, mas um anão político”. 

A marcha de hoje, 1º de Maio de 2013, juntou cerca de mil pessoas em Leiria. Mais ou menos o número de amigos que povoam a minha página no Facebook, esse palco sem filtro onde percebemos, tantas vezes, o que se esconde aqui ou ali. E foi ao final do dia que me foi subindo a agonia, à medida que fui lendo uma cartilha de bons funcionários e dedicados colaboradores: alguns iam dando conta de que estavam a trabalhar, no dia do trabalhador. Qual acto heróico, ali deixaram gravados os agradecimentos por terem trabalho, nos tempos que correm. Outros vociferavam contra um feriado que dizem não fazer sentido, nestes  tempos.

A mim começa-me a faltar a paciência. Para aturar e para explicar que os dias têm uma história.    Para ler as notícias do diário de Belmiro (o que eu admirei o Público, senhores, noutra vida), que falavam de uma maioria de reformados nas comemorações em Lisboa, quando camaradas jornalistas me contavam e mostravam outra fotografia. Para explicar aos meus filhos que não se deixem enganar pelas aparências, que às vezes aquilo que deveria ser informação livre se transforma em manobra.

A culpa é vossa? Não. A culpa é nossa. Que nos deixámos chegar aqui. Que permitimos os recuos nos direitos – como tão bem lembrou nesta entrevista o novo inspector-geral do Trabalho – que a crise é uma senhora de costas muito largas, que deu tanto jeito em muitas circunstâncias. Que criou gerações de déspotas (é defeito meu, bem sei, mas não conheço nenhum filho de patrão/empresário que tenha guardado o melhor do pai em matéria de respeito por quem trabalha), de gente amedrontada, que faz todos os dias um caminho sem retorno e não percebe. “É melhor ter pouco do que não ter nada. É pouco, mas é o que há. Uma pessoa tem que ouvir e calar. Infelizmente não se pode abrir a boca, porque se tu não queres há muitos à espera para trabalhar”. Por enquanto, ainda a troco de uns tostões. Não se sabe por quanto tempo.

Ainda bem que é apenas um pouco tarde.Imagem

Comments


  1. Eu continuo a achar que a manifestação em Leiria foi fraquinha. Ainda para mais seria uma manif regional. Da Marinha nem 20 pessoas eram, de Peniche veio menos gente do que é costume, e acho que estava era muita gente da Nazaré, mas não posso confirmar, só sei que era um grupo que estava em força. Mas os jovens são sempre os mesmos, as caras são sempre as mesmas, e para mim está tudo tão amorfo, tão pachorrento, com aquelas palavras de ordem tão ultrapassadas, repetitivas, chatas, enfim. E o jovem no palco coitado, não tinha comido a sopa só pode. Ou anda a fazer o frete de ir às manifestações.


  2. Infelizmente chegámos a este ponto , porque o povo gosta
    de acobarda . Não coragem de bater de vez o pé a esta
    corja e era tão simples , bastava todos estarmos unidos um
    dia ou dois , esquecendo as diferenças políticas , porque
    todos sofremos e estamos a ser vítimas do ardil criado pe-
    la Banca nacional e internacional , como se todos nós , ex-
    cepto alguns , não tivéssemos direitos , como se não fôsse-
    mos seres humanos .
    Há que lutar .

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