O prazer inorgânico

Quando a agenda mediática passou a levar ao colo os protestos considerados inorgânicos, numa estratégia deliberada de descredibilizar os sindicatos e partidos que intervêm em acções de massas, a surpresa foi quase geral. Alguns jornalistas manifestaram-se surpreendidos com o que é possível fazer através das redes sociais, como se eles próprios não estivessem também nas redes sociais. Depois vieram os especialistas explicar o fenómeno. A rapidez com que nos dias hoje surgem especialistas é impressionante. Vem isto a propósito da excitação toda com as manifestações no Brasil, que são de relevar e saudar. Mas.

A cobertura mediática em Portugal aos acontecimentos no Brasil não é um fenómeno isolado. Vem na sequência das primaveras e revoluções coloridas que fazem as delícias da classe e ideologia dominantes, pelo facto de não terem, supostamente, qualquer organização. Na prática, têm todos os objectivos e objectivo nenhum. E caminham, ombro a ombro, milhares de pessoas unidas pela necessidade de protestar, a válvula de escape, sem que o propósito seja comum. E a falta de um objectivo claro é o que de melhor pode acontecer a quem manda.

Hoje mesmo, o DN apresenta na primeira página uma foto da manif, as tv’s fazem peças longas com os acontecimentos e, finalmente, deixaram de lado o absurdo de acharem que os protestos eram apenas por causa dos sete centavos. As 50.000 pessoas que saíram à rua em S. Paulo, uma cidade com 20.000.000 de habitantes, merecem muito mais atenção do que qualquer manifestação que, em Portugal, com 10.000.0000 de habitantes, junte o triplo. E não é inocente. Aconteceu com a CGTP e aconteceu com o Que Se Lixe aTroika, quando se percebeu, finalmente, que aquele colectivo tem objectivos claros: demissão do governo e saída da troika, e não aquela coisa estranha da demissão de toda a classe política – seja isso o que for – ou indignados contra tudo e mais alguma coisa e a favor de acampamentos em jardins.

Ao que parece, os estádios para o Mundial de 2014 são o grande alvo das críticas, e logo no país do futebol. E nós, que agora exultamos com a coragem de alguns brasileiros, esquecemo-nos que tivemos há menos de 10 anos um Campeonato Europeu que teve direito a 10 estádios, com cinco construídos de raiz e destinados apenas ao futebol, sem pistas de atletismo, por exemplo. Quatro anos depois, o Europeu que se seguiu foi organizado em conjunto por dois países e teve apenas oito estádios.

Por cá não, havia minicípio ou distrito que quisesse ter um estádio. Mas, hoje, saudamos, e bem, o povo brasileiro, que critica a megalomania dos governos com a máfia da FIFA.

Podemos ter os orgasmos que quisermos com os protestos quando são ao longe. Enquanto não percebermos que a mudança começa na acção de cada um de nós, organizados na luta seja de que forma for, com objectivos definidos e concretos, estamos a disparar tiros de pólvora seca. E sabemos que, do outro lado, não é disso que recebemos.

Para quem quiser, na Greve Geral de dia 27 de Junho, haverá manifestações em todos os distritos do país. Eu sei que pode ser demasiado perto. Mas vamos lá.

Comments

  1. DEUS says:

    Vou fazer copypasta do meu comentário noutro artigo daqui. E a tonta loira do youtube tornou-se partner e está a ganhar dinheiro com o Serra por detrás.

    Esta gente faz-me rir. Quem está a protestar são burgueses que querem o Serra na presidência. Cambada de vagabundos, se não querem gastos com futebol porque enchem todos os estádios todas as semanas e idolatram futebolistas? A burguesa tonta do video em inglês (mais outra hipster que não quer pagar impostos) vai ter o que merece mais cedo do que pensa.

    Os vagabundos se calhar querem que aconteça como na Islândia, a direita aruina o país, a esquerda com muito esforço consegue colocar o país no rumo certo e 2 anos depois dão maioria absoluta, ainda mais forte do que antes, aos mesmos partidos que quase os destruiam. Até prova em contrário que são de esquerda/revolucionários/idealistas/ativistas serão para mim uma cambada de vagabundos.

  2. Aqui ao Sul! says:

    Muito bom artigo. A TVs e jornais foram muito rápidos a concluir. E claro, a desvalorização permanente dos sindicatos e do trabalho. Está toda a gente a concluir muito depressa.

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