Alice

A Alice atrai histórias destas. Tem uma dessas caras que inspiram confiança e fazem com que cada solitário que se cruza com ela se sinta à vontade para contar-lhe a sua história.

A Alice escuta e dá respostas ríspidas, não tem paciência para autocomiserações.

– Não tem mãe? E não acha que já não tem idade para não depender dela? A sua mulher deixou-o? Recomece, ainda é muito novo. O seu patrão explora-o? Tome lá os anúncios do jornal, procure.

No supermercado, no quiosque, no café, no autocarro, por onde passa aparece-lhe gente que mete conversa, que lhe pede dinheiro ou o pequeno-almoço, que lhe conta a vida, que espera conselhos. Até tarados lhe aparecem, dos que abrem a gabardine à sua passagem para que ela os veja sem cuecas. Ela manda-os passear e segue o seu caminho, sempre carregada de sacos e saquinhos, a hortaliça, as abóboras, a fruta, o jornal para o marido, o croissant para o neto.

Há dias, era ainda bem cedo pela manhã, lá ia ela, como sempre, tomar a meia-de-leite ao café, o único luxo que se tem permitido em sessenta anos de vida. Estava quase a chegar quando ele lhe apareceu. 

– Minha senhora, minha senhora, pague-me um cafezinho, se faz favor.

Podia ter trinta e tantos, talvez quarenta, cabelo por cortar, a roupa muita gasta.

A Alice abrandou o passo mas não parou, já os conhece de ginjeira, e quis avaliar a peça primeiro.

– E você sabe se eu tenho dinheiro?

– Não comi nada… Se puder…

Entretanto tinham chegado à porta do café.

– Quer uma meia-de-leite e um pão com manteiga?

Ele quis, claro. Entraram os dois e a Alice pediu o mesmo para ela e para o homem. Sorridente, ele fez o gesto de puxar a cadeira para sentar-se na mesma mesa.

– Calma aí. Eu não lhe disse que podia sentar-se comigo. Sente-se noutra mesa, que o café está vazio.

Ele sentou-se ao lado, ela puxou do jornal, pôs os óculos que lhe dão ar de avozinha (ui, o que ela se vai zangar comigo quando ler isto) e começou a ler os títulos da primeira página. Ainda não tinha virado a folha quando ele começou a falar.

Contou-lhe a vida toda. Uma família sem problemas económicos, má relação com os pais, drogas, desintoxicações falhadas, ruptura com a família, casamento turbulento, divórcio, desemprego, vida na rua, solidão.

O que ela lhe disse eu não sei, mas a conversa durou. Conselhos, recomendações, sacudidelas, deixe de ter pena de si mesmo, construa uma vida nova, tanto futuro pela frente, se ela foi embora outra aparecerá, imagino que tenha sido isso que ele ouviu.

No fim da conversa, ele estava emocionado e agradecido. Rompera a invisibilidade que é mais ou menos a de todos os que vivem na rua. Alguém o tinha escutado, alguém se preocupara o suficiente para dar-lhe conselhos e desejar-lhe sorte. Como é que se retribui tal coisa? Remexeu nos bolsos e sacou uma carteira descosida. A Alice olhava-o com curiosidade por cima dos óculos. Ele abriu a carteira e tirou com todo o cuidado uma foto a preto e branco.

– Minha senhora, gostava muito que ficasse com isto. Sou eu quando era pequenino.

A sua foto de criança, a coisa mais imaculada que lhe restava.

A Alice protestou. Como podia ficar com algo tão pessoal se nem sequer o conhecia?

– Gostava muito que ficasse com isto, por favor.

Estendia-lhe a foto, punha toda a fé na humanidade naquela foto e em que uma desconhecida a aceitasse e a guardasse e assim o incluísse na sua vida.

Ó Alice, como não havias de aceitar? Claro que ela pegou na foto e guardou-a no porta-moedas, aquele porta-moedas cheio de coisas, fotos da filha ainda desdentada, fotos do neto, o passe dos STCP, o talão do talho, o recorte do anúncio da cronologia de um amigo que morreu cedo de mais, a foto envelhecida da sua mãe ainda jovem, quantas coisas cabem naquele porta-moedas.

E ele sorriu o mesmo sorriso da foto, que ainda estava guardado, tantos anos depois.

Despediram-se. Meia hora mais tarde estava ela a contar-me a história e a mostrar-me a foto.

– Ó mãe, estas coisas só te acontecem a ti.

– É o que eu digo sempre, só me acontecem a mim. Contado ninguém acredita.

Não me atrevi a perguntar-lhe mas aposto que a foto já não sai mais do porta-moedas e anda agora lado a lado com a minha, mais ou menos com a mesma idade, os irmãos mais improváveis.

Comments


  1. Carla,
    Boa e bonita história.


  2. Uma pequena delícia…!


  3. Boa Alice! Obrigado Carla.


  4. consegui visualizar o “cenário” 🙂 muito bom Carla!! e cumprimentos à Alice!!


  5. Obrigada! Ela merecia um retrato que lhe fizesse (alguma) justiça


  6. Obrigado por escreveres. É tão bom ler-te.


  7. Costumo dizer, brincando, sou quem sabes Maria Alice. Mas é sério. Vou continuar a brincar,,,,

Trackbacks

  1. Alice diz:

    […] Continua… […]

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