A economia dispensa a história

Já dizia o pequeno comentador do economiquês nacional que os professores de história em nada contribuem para o crescimento e o certo é que vamos confirmando que, nesta nova Europa utilitarista, as humanidades são entretenimento para inúteis. Os resultados nem estão a demorar muito a aparecer. Desmemoriada e cega pelos números, a Europa condena-se a repetir os seus horrores.

Leia-se esta reportagem de Maria João Guimarães, em Marselha, acerca do clima de rejeição aos estrangeiros, sobretudo em zonas multiculturais, e de como os partidos nacionalistas estão a capitalizar o descontentamento face à situação económica e a desconfiança em relação à diferença. Quem tem memória de um passado não tão longínquo, como o reformado Auguste Olive com quem a repórter falou, não pode evitar as comparações:

“Quando eu tinha dez anos, era isso que se ouvia dizer dos judeus. Mais de 60 anos depois ouço a mesma coisa. É como se houvesse uma trama que se repete”.

Há dias, soube-se que o presidente da câmara de Verona, eleito pela Liga do Norte, impôs uma multa de 25 a 500 euros a quem desse de comer aos sem-abrigo nos espaços públicos da cidade. É uma medida higiénica, claro, porque o presidente entende que quem vive na rua é uma “ameaça à saúde pública”. A Liga do Norte já recorreu, aliás, a uma medida prática nas cidades cuja câmara controla: retirar os bancos de jardim, onde os sem-abrigo costumam sentar-se e deitar-se.
Curiosamente, a primeira medida dos nazis quando ocuparam Viena foi proibir os judeus de se sentarem nos bancos de jardim. Conta-o Stefan Zweig nas suas memórias, já por aqui o evoquei. É que a história repete-se até nos detalhes, por falta de imaginação, ou devoção ao que o passado teve de mais tenebroso.  Esquecê-lo far-nos-á pagar um preço demasiado alto.

Foto: Placa no campo de concentração de Auschwitz, com a famosa citação de George Santayana: “Aquellos que no recuerdan el pasado están condenados a repetirlo”.

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