Se o agressor é um herói, a culpa é da vítima?

 

Ontem cruzei-me com este aviso num muro, em Matosinhos, e fiquei arrepiada. Há muitos “Palitos” por aí, desses que perseguem e acossam durante anos, até ao dia em que apertam o gatilho. A este, o do muro, não chegam as ameaças em privado, quis mostrar à sua vítima que está próximo dela e que se sente impune.

E entretanto, no país profundo, ou real, ou o raio que o parta, bastou uma fuga rocambolesca, a polícia burlada e humilhada durante uns dias, para que uma multidão acabasse a aplaudir um homem que se levantava de madrugada para perseguir a ex-mulher, que a amedrontava na rua e nos lugares onde ela trabalhava, que chegou a ameaçar de morte quem lhe desse trabalho, que a agrediu repetidamente, que a obrigou, quando ainda moravam na mesma casa, a regressar à cama de casal sob ameaça de arma. E que, fracassadas todas estas tentativas de recuperá-la pela força, decidiu pôr fim à vida dela e à de mais três pessoas, incluindo a própria filha.

A multidão que o aplaudiu foi a mesma que o conhecia bem, que assistira aos seus actos durante anos, e, percebemos agora, não só não levantou um dedo para ajudar a vítima, como até achou bem aquilo que viu:

À sua chegada, foi aclamado por mais de 200 habitantes locais, que o esperavam. Tiraram fotos com os telemóveis, bateram palmas e também assobiaram, mas numa manifestação de apoio. Ninguém o criticava e alguns até o elogiavam.

Espero, e lamento não poder usar outro verbo, um que fosse menos passivo, espero e desejo que a mulher a quem se dirige o aviso, nesse muro de Matosinhos, não esteja só e consiga a protecção de que necessita. Espero que à volta dela não se erga outro muro, de cinismo e desinteresse, de branqueamento dos actos do agressor, quando não de responsabilização da vítima, um desses muros que ocultam o sofrimento durante décadas e só se desmoronam quando é demasiado tarde.

E pergunto-me: o que sentirá uma vítima de violência doméstica quando vê um homem como o “Palito” elevado a herói popular?

Comments

  1. Bento 2014 says:

    Há muita inocentinha que é capaz de martirizar de forma continuada e provocatória. Esgotada a paciência á vezes lá salta a tampa. O agressor não tem que ser um herói mas pode cansar-se de tanto ser vitima e um dia passa a pasta.


    • Cá está o típico comentário que inocenta o agressor e culpabiliza a vítima. Da próxima vez que for “martirizado”, apresente queixa, não “passe a pasta”.

      • Bento 2014 says:

        Peço desculpa mas fará o favor de me indicar onde leu que inocento o agressor e que eu próprio sou martirizado. Já agora acrescento que os aplausos podem ter sido porque o homem se entregou á justiça.

  2. Fernando says:

    Aquela gente que aplaudio a fuga do Palitos, e’ gemea da mesma gente que aplaudio – por exemplo – o regresso de Fatima Felgueiras e sovou o Assis. O mesmo Assis que agora foi aplaudido em Felgueiras. Para nao falar de outras recambolescas atitudes do meu bom e esclarecido povo.

  3. JgMenos says:

    Associar os aplausos aos crimes é puro oportunismo!
    Ter iludido a polícia tanto tempo é seguramente a base da admiração popular.
    Quanto à violência, esta também tem sexo, e não basta a treta da igualdade para uniformizar.
    Se um chapo não é nada de muito violento para o homem, uma língua-matraca pode sê-lo; com a mulher é o inverso.
    Para mais detalhes consulte o seu psicólogo no SNS.

    • Bento 2014 says:

      Perfeito.


    • Tem toda a razão. O que não explica é se este homem se sentia vítima já tinha encontrado a solução: o afastamento da agressora e da sua língua matraca. Agora explique lá porque foi matá-la e ao resto da família?
      Aquele homem é uma besta e julgou que a mulher era sua como as cabras o são. Tão simples como isso.

      • Bento 2014 says:

        Entre a racionalidade serena e o desespero sem norte vai a distância de um frágil fio. E ninguém diga desta água não beberei, não pondo em causa que todos os crimes devem ser julgados.

      • JgMenos says:

        O meu comentário foi dirigido ao conteúdo ‘ideológico’ do post, não há avaliação dum personagem sobre o qual nada sei, salvo que deve aplicar-se-lhe a lei.


  4. Não querem aproveitar para denunciar a vossa situação enquanto vítimas de “línguas-matraca”? Sou toda ouvidos.

    • Bento 2014 says:

      Claro que vistas curtas não dão para avaliar e muito menos para compreender o fenómeno dos venenos só com os ouvidos.


      • Mas então encha-se de paciência para com os curtos de vista e explique lá esse “fenómeno dos venenos só com os ouvidos”.

        • Bento 2014 says:

          Primeiro explique lá e repito a pergunta: Peço desculpa mas fará o favor de me indicar onde leu que inocento o agressor e que eu próprio sou martirizado. Já agora acrescento que os aplausos podem ter sido porque o homem se entregou á justiça.


          • Quando, com suposta ironia, caracteriza uma vítima como “inocentinha capaz de martirizar de forma continuada e provocatória” que pretende dizer?
            “Salta a tampa” é um eufemismo para designar o quê?
            Quando diz que um agressor “pode cansar-se de tanto ser vítima” está a fazer o quê se não a inverter papéis e a desculpabilizar uma agressão?
            E, já agora, uma correcção: o homem “não se entregou à justiça”. Foi apanhado em casa, a ver televisão.

          • JgMenos says:

            Que queira defender o seu post, sendo razoável, não lhe dá o direito de se lançar em interpretações ínvias e em insinuações perversas.
            Tome os argumentos pelo que são e não pelo que lhe ‘convém’ que sejam.
            Dou-lhe um exemplo: quando um bem sucedido foragido vem para casa ver televisão, e não dá sinais de resistência, qual a probabilidade de que tenha desistido de fugir?

    • Pedro says:

      Carla, nem vale a pena. É assustador a falta de inteligência destas pessoas. Isto só pode ser gente que vive no mato. Mas mato selvagem em que só vivem com as cabras.
      Uma educação faz tanta falta..


  5. É muito mais profundo. Ouvi na TV a explicação: o homem é um bandido e merece a prisão, mas as palmas foram por ter conseguido fugir à polícia tanto tempo. É assim. O Povo continua a ver o Estado como um elemento agressor. É caso para os sociólogos e os partidos reflectirem.


    • Estou de acordo que existe essa visão do poder instituído como agressor. Neste caso, o que me chama a atenção é que isso se sobreponha ao conhecimento que têm desta situação em concreto, e que o facto de ter iludido a polícia se sobreponha aos crimes em si. Repito: é gente da terra, que provavelmente conhecia a situação há muito.


      • Limitei-me a transcrever o que ouvi na TV. É o povo no seu pior. Ou se tenta compreender o que está por detrás daquele apoio, ou temos de nos proteger com uma grossa capa de cinismo. Confesso que a minha inclinação para o cinismo é cada vez maior. Mas também não é impunemente que institucionalmente se glorifica uma criminosa de guerra como a padeira de Aljubarrota.


  6. Há uma certa diferença entre um Robin dos Bosques, um José do Telhado mal contado ou um João Brandão na sua primeira fase, em que foi vítima, e um canalha.
    Um povo que tolera um dos mais hediondos crimes, o doméstico, não é bem um povo, é uma turba.
    E eu, que defendo com toda a força que violência doméstica não deve ser confundida com violência sobre mulheres, porque a de mulheres contra homens existe e sofre de neste momento ser muito menos denunciada, sou o primeiro a desconfiar que quem aqui vem defender o criminoso faz parte dessa minoria silenciada e por isso ressabiada. Desconfiança que merece como resposta: só se perdem as que no vosso caso caem no chão.


  7. Heróis destes para mim era colocá-los em prisão perpétua… 25 anos é muito pouco.

  8. Augusta Clara Matos says:

    Esta da “inocentinha que exerce tortura psicológica” já virou chavão. Tortura psicológica há nos dois lados. Quero ver qual vai ser a argumentação quando as inocentinhas também se passarem e começarem a usar armas. É que, por enquanto, são só elas que ficam sem poder viver mais. Que nojo de argumentação a sua Bento 2014.


  9. E o pior é que estes grunhos também votam.

    Como se pode pedir a alguém que nem sequer compreende o que se passou num caso destes que perceba o tratado orçamental?


  10. JgMenos, que é como quem diz anónimo:
    Os seus comentários, pelo menos até ao momento, tampouco passam de interpretações dos factos, suponho que as que lhe convêm a si. Interpretou as razões dos aplausos, o que constitui a violência para os homens e para as mulheres (a pedagógica explicação do chapo e da língua-matraca) e até interpretou, aliás de modo bastante freudiano, as razões para o foragido ter regressado a casa. As suas interpretações são razoáveis e as minhas ínvias?

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