O Costa da Câmara

antonio costa
António Costa, na Quadratura do Círculo, já leu a sina ao seu partido, deixando no ar, quanto ao seu próprio papel, mais um sibilino “não me comprometa”. Não deixou, porém, de traçar uma estratégia, não se ficando a saber se na condição de conselheiro se de putativo alternante. No seu estilo florentino e um tanto opaco, veio anunciar o que todos sabemos: que à derrota histórica da direita o PS tinha oposto uma vitória pífia.

onstatando, por outro lado, que os votos de rejeição do governo se tinham dispersado – além das enigmáticos votos em branco, nulos e “abstenção violenta” – por várias forças de esquerda, onde releva o excelente resultado da CDU, Costa deu a táctica: abordar essas forças de esquerda, com elas estabelecendo um diálogo que potenciaria a capacidade para determinar uma alteração de liderança no PSD. Posto isto, dir-lhes-ia adeus, agradeceria os serviços prestados e faria uma aliança com a direita. Só não percebe quem não quer.

Assim, quem quiser valorizar a soma dos votos da esquerda mais consequente e o seu potencial de crescimento tem de se preparar para um caminho de fundo cujos contornos ainda mal se vêem. A aparente “maioria de esquerda” resultante deste sufrágio não foi saudada por ninguém porque já ninguém a considera senão uma condição de derrota da direita, sem potencial de agregação de projectos políticos, já que as contradições existentes no seu interior são, pelo menos nesta conjuntura, insanáveis. António Costa sabe bem isto e, por isso, prepara a estratégia habitual, que possa forçar uma vampirização dos votos da esquerda, com as velhas estratégias de pressão do “voto útil”. O que ele vê, é o que todos vemos: uma direita seca de votos e projecto, um PS titubeantemente vitorioso e uma hipótese de governo de um bloco central anémico e pouco mobilizador. De modo que, para ele, o que importa é conseguir, seja a que custo for, um reforço da posição negocial do PS. Tudo isto se percebe melhor se estivermos atentos à estratégia de António Costa na Câmara de Lisboa e respectiva Área Metropolitana. Um quadro do PS de Setúbal dizia, nas autárquicas, que o PS tinha de combater a direita mas tinha de combater com muito mais força o PCP. Com outra elegância e sofisticação – portanto, com mais eficácia – é exactamente este o programa do autarca de Lisboa. Quem concordar, estando no seu direito, faça-nos um favor: não nos venda a ideia de que é o caminho inevitável porque o único possível. E muito menos o faça em nome da viabilidade da esquerda. Um personagem do velho António Silva, o Costa do Castelo, proclamava que “a nobre estirpe dos Costas não vira as ditas seja a quem for”. António Costa, por sua vez, não deixará de namorar as esquerdas para, quando lhe convier, virar as costas às… ditas.

Comments

  1. Ferdinand says:

    O Partido Xuxalista merece ser reduzido a cinzas.

    Tiveram tempo mais que suficiente para se livrarem da ideologia que domina o mundo o “neo-liberalismo” agora em clara decadência, mas não, o PX não quer se livrar do “liberalismo” que pouco ou nada tem de liberal. Os xuxas estão agarrados ao “neo-liberalismo” pois garantiu a muitos xuxalistas uma boa vida.
    Enfim, não há nada que indique que o PX mude de comportamento, vão continuar a fazer aquilo que têm feito, a aplicar o neo/não-liberalismo porque o €uro e a Banca privada falida e parasitária tem que ser “salva” e vão tentar fazer acreditar que a “austeridade” xuxalista é melhor que a “austeridade” do PSD-CDS…

    A utilização frequente de “” é necessária pois vivemos numa era de muita aldrabice, logo, não raras vezes aquilo que parece não é necessariamente aquilo que é.

  2. Gotlieb says:

    O caro Gabriel gosta de fazer fretes à extrema direita ?

    Mas quando é que a esquerda admite que a única maneira de governar para mudar é com algum do Partido Socialista ? Pôrra. Parem de acreditar no Pai Natal (que por sinal era vermelho, reaccionário e se calhar pedófilo).

    Vivam Marx, Engels, Lenine, Estaline, Mao TseTung ?
    Tenham juízo nessa carola !!


    • Gotlieb, você encontrou, parece, um novo passatempo: insultar quem aqui escreve, já que penso que não tenho a honra de ser seu especial ódio de estimação. Você parece ter alguma dificuldade em ler o que se escreve, comentando a partir do que a sua rica imaginação constrói, não faltando nunca nos seus comentários o toque de grosseria e insulto de que parece gostar tanto. Por mim, deixo de responder aos seus comentários. Se quer desabafar, há quem seja mais competente para o ouvir.


  3. Desesperado como está o bloco, até com o Marinho Pinto e com a Carmelinda Pereira aceitavam ser coligação… just say´in! É uma análise bastante interessante José Gabriel. Vi as declarações e fiquei mais ou menos com a mesma impressão. E o diálogo poderá começar efectivamente não em Setúbal mas sim com o vizinho de Loures. Existem vários problemas em comuns que tem sido chutados de mandato para mandato. Principalmente, aqueles que estão relacionados com os bairros Gebalis. Esses problemas poderão ser o elo que Costa poderá utilizar para começar a cativar à esquerda. Contudo, o CDS\PP, ao contrário da atitude tomada pelo grupo parlamentar do PSD, nunca entrou numa de humilhação ao PS nem optou por entrar nos joguinhos do puxa-empurra (ora picamos, ora pedimos consenso, ora relembramos o socratinismo, ora pedimos consenso) – o jogo ficou claramente aberto.

Trackbacks


  1. […] governação. A declaração de intenções manifestada no dia de hoje por Costa já vem com bónus (vide o post escrito pelo João Gabriel no dia de ontem) e poucos minutos depois de ser conhecida publicamente levantou a maior das pressas dentro do […]

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