Uma escola sem contactos

Amadora_Contatos

O Agrupamento de Escolas Pioneiros da Aviação Portuguesa, na Amadora, não tem contactos. Tem contatos. De acordo com as últimas notícias, e segundo o chamado acordo ortográfico (AO90), consoante que se pronuncia é consoante que se escreve, para pôr a coisa em termos simples, ainda que simplistas.

Partindo do princípio de que a maioria dos portugueses pronuncia o C que antecede o T, deveríamos, então, continuar a escrever “contacto”.

Antes do AO90, já éramos um país ortograficamente desleixado e/ou inseguro? Éramos. Com o AO90, os problemas aumentaram, não só por causa do dito mas também.

Fernando Venâncio, neste vosso blogue, chamou a atenção para o perigo que representa a simples visão de uma palavra mal escrita. O erro ou, no mínimo, a dúvida, ficará na cabeça de escreventes mais inseguros, alunos ou outros.

Se a palavra mal escrita estiver bem visível na página de uma escola, o que pensará esse mesmo escrevente carregado de dúvidas? “Numa escola, não se iam, agora, enganar a escrever uma palavra. Ainda bem que pude aprender a escrever contato. Nunca mais me engano!”

O mesmo escrevente terá oportunidade de confirmar a grafia contato nas seguintes páginas, entre muitas outras: APDL, Associação de Futebol do Porto, Centro de Educação Médica da Faculdade de Medicina do Porto, Boavista Futebol Clube, Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova ou Guia do Aluno da Universidade da Madeira. Convém não esquecer o Diário da República.

Relembrando a lista presente no texto de Fernando Venâncio, é importante que se saiba que o espaço público está saturado de erros. Os jovens aprendizes vivem, assim, soterrados em erros ortográficos, sendo importante lembrar que se aprende a escrever todos os dias e durante todo o dia, nas escolas, nos cartazes, nos jornais ou nas televisões.

Nuno Crato preocupou-se em chamar a atenção para os problemas ortográficos verificados na PACC. Entretanto, prepara-se para impor despreocupadamente o AO90 nos exames nacionais a jovens que vivem mergulhados num caos ortográfico que irão, evidentemente, reproduzir. As consequências imediatas serão visíveis nos descontos a que as suas provas serão sujeitas, mas o mais grave está num futuro muito próximo, um futuro em que haverá grafia sem ortografia.

Comments

  1. sinaizdefumo says:

    Nun há cumo nun concordar. “Antes do AO90, já éramos um país ortograficamente desleixado e… inseguro”, agora somos inda mais. Bailham’o dialeto.

  2. Julia Rocha says:

    De acordo com o novo acordo ortográfico , só é eliminado o c que não se lê ora em contacto o c é lido portanto deve ser colocado .

    • António Fernando Nabais says:

      Isso é o que afirmo nos dois primeiros parágrafos, mas o problema não é esse, como poderá perceber, se ler as várias ligações.


  3. Continuo com o meu ponto de vista de sempre: é necessário ler o AO90 na íntegra; remissões não bastam. O autor deste apontamento teve o cuidado de salvaguardar que o princípio da pronuncia como base da grafia é uma análise simplista. Em bom rigor, a ortografia obedece à ortoépia e esta está submetida à pronúncia de referência (goste-se ou não, fixada na transcrição fonética das entradas do dicionário da Academia de Ciências). Já agora, o AO90 teve, pelo menos, a virtude de levar os escreventes comuns a saber que existe um documento chamado AO90. Gostaria de saber quantos leram o AO45; ou melhor, quantos dos seus seguidores sabiam da sua existência.

    • António Fernando Nabais says:

      Calha bem: li o AO90 na íntegra. Neste texto, como em muitos outros, limito-me a constatar o efeito da analogia: a supressão de consoantes articuladas. Esse efeito está disseminado, contribuindo, como também digo no texto, para que escreventes mais inseguros ou menos informados reproduzam o erro. O AO90 é um instrumento mal concebido com consequências perniciosas.
      É irrelevante saber quantos partidários tem cada um dos acordos ortográficos a que faz referência. O que importa é saber qual dos dois é melhor.


      • Não nos podemos esquecer de que NÃO foi o AO90 que retirou o “c” de vitória e o “p” de assunção. Com que critério? Ninguém sabe; nunca ninguém soube; nunca ninguém perdeu o seu tempo a tentar saber. Isto leva-me a concluir que se convive melhor com a falta de critérios do que com eles.

    • Ferpin says:

      Essa virtude é como dizer que os actos de um qualquer pedófilo tem pelo menos a virtude do nos fazer conhecer a existência da pedofilia. Embora neste caso a lei depois tente lutar contra esse flagelo. Já no AO, é ver a forma acéfala como o Crato e outros apoiam a coisa.
      Já agora, quantos dos erros do exame da PACC se deverão a escrita no AO anterior a esta excrescência?

      É que nesse caso, como costumo escrever a cagar-me para o AO90 e depois em documentos legais passar a coisa por um pc que tem o novo AO ( no meu pc de uso diário não quero essa coisa, ainda tenho esperança que ele morra um dia), se calhar também me lixava.


  4. Mais elevação no discurso e menos ódio pela opinião contrária. Quem grita ou recorre a impropérios perde a razão. Com o devido respeito pelo professor António Fernando Nabais, que estimo e nada tem que ver com este meu comentário, por aqui me fico.

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  1. […] o problema parasse em “pára”, seria menos mau. Mas há os contatos, os fatos, os patos e muitos outros erros que, após a imposição descuidada do AO90, se juntaram […]

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