Carta aberta aos abstencionistas portugueses

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Caros compatriotas abstencionistas,

Permitam-me saudá-los neste momento tão especial que antecede as eleições Legislativas. No próximo Domingo, como sabem, decide-se parte do nosso futuro colectivo. À nossa frente existem, no meu ver, 2 opções:

1.       Reconduzir o regime

2.       Votar num dos outros 16 partidos em disputa

Eu sei que parece simplista mas na verdade não é. De um lado temos os partidos que governam Portugal desde a implementação efectiva da democracia, PSD, CDS-PP e PS, os mesmos que nos conduziram até este buraco onde nos encontramos e que controlam a esmagadora maioria dos recursos e do aparelho governativo e empresarial do Estado, da sua freguesia até São Bento, do outro temos todos os outros partidos, que nunca governaram e que em nada contribuíram para esta dura realidade de dívida infinita, contas descontroladas, cortes, cargas fiscais aberrantes, tráfico de influências, corrupção, má gestão pública e um fosso entre ricos e pobres que não pára de aumentar.

Eu sei que alguns daqueles que integram o segundo lote podem parecer estranhos, assustadores até. Mas não devem ser culpabilizados por aquilo que os partidos do regime fizeram ao país. Dizer que são todos iguais é uma falácia, que apesar de parecer ter o efeito contrário acaba por penalizar mais os pequenos partidos do que aqueles que são efectivamente o regime. Mas não foram eles que corromperam, que destruíram instituições bancárias que todos pagamos, que nomearam gente sem competência para cargos vitais conduzindo a mais despesismo, mais dívida e mais sofrimento. Não foram eles que colocaram parte substancial dos recursos que são de todos ao serviço das elites que nos comandam, enquanto nos condenavam ao empobrecimento e à precariedade.

É aqui que vocês, caros abstencionistas, podem fazer a diferença. E que grandes diferença! Enquanto a cascata de sondagens segue o seu curso e os grandes partidos lutam por uma maioria absoluta cada vez mais improvável, senão mesmo impossível, vocês representam, a julgar pelos resultados da eleição de 2011, cerca de 42% do eleitorado. Mais de 4 milhões de portugueses num universo de aproximadamente 9,6 milhões de eleitores. Juntos, vocês poderiam decidir o resultado de uma eleição. Juntos, vocês representam mais do que a soma do eleitorado que votou PS e PSD em 2011. Juntos, vocês podem ser a chave da mudança.

Não me interpretem mal: eu respeito a vossa opção de não quererem votar. Vivemos em democracia, no que resta dela alguns dirão, e cada um é livre de fazer as suas escolhas políticas. Lamento, contudo, essa em específico. Não pensem que irei apelar ao voto em A ou B, não é isso que me traz aqui. O que me traz aqui é um simples apelo: votem. São 10 ou 15 minutos que, na maioria dos casos, precisam para o fazer. É um momento, raro, em que vocês podem exercer a verdadeira democracia. Votem. Afinal de contas, para que serviu fazermos uma revolução para remover a arbitrariedade da ditadura, do autoritarismo, da captura de uma nação por um punhado de homens sem carácter? Para o entregar de mão beijada a formas mais sofisticadas de controle social?

E lembrem-se: vocês poderão optar por não votar mas eles não vacilarão. As tropas leais ao regime, militantes e simpatizantes, esses não abdicarão do seu voto. E por cada um de vós que não vota, é o voto deles que sai reforçado. Por isso é que este governo que nos enganou com falsas promessas subiu ao poder com apenas 2.813.729 votos num universo superior a 9.600.00 milhões de eleitores. Por isso José Sócrates subiu ao poder com maioria absoluta com apenas 2.588.312 votos. Por isso continuamos reféns de máquinas partidárias avassaladoras que, por mobilizarem pouco mais do que um quarto da população, recebem milhões de euros de financiamento para campanhas que pura e simplesmente abafam as restantes, onde a demagogia e o populismo fácil substitui a discussão de ideias concretas para o país e através das quais ascendem ao poder obtendo o controle absoluto das nomeações, dos tachos e das instituições que lhes permitem perpetuar redes de clientelas através das quais pequenas minorias assumem o controle de uma maioria que se indigna quando é tarde e que vacila quando pode fazer a diferença.

Não tem que ser assim. Uma parte fundamental da mudança está nas vossas mãos. E que tal enchermos as urnas desta vez?

Comments

  1. omaudafita says:

    “De um lado temos os partidos que governam Portugal desde a implementação efectiva da democracia, PSD, CDS-PP e PS, os mesmos que nos conduziram… … ….”
    Do outro os que nunca tiveram e quiseram governar e tudo fizeram para dificultar a vida a quem teve que o fazer.

  2. JgMenos says:

    «em nada contribuíram para esta dura realidade »?!?!?!?
    Então a heróica luta anti-fascista e a sua gloriosa vitória?
    Então a justas lutas e suas conquistas?
    Então as liniciativas constitucionais e legislativas fundadoras do nosso modelo social?

    Agora vêm dizer que nada contribuíram?
    Não havia necessidade…


  3. … “do outro temos todos os outros partidos, que nunca governaram e que em nada contribuíram para esta dura realidade de dívida infinita, contas descontroladas, cortes, cargas fiscais aberrantes, tráfico de influências, corrupção, má gestão pública e um fosso entre ricos e pobres que não pára de aumentar”
    Recordo apenas os Artigos 161º a 165º da Constituição da República Portuguesa (em https://www.parlamento.pt/Legislacao/Documents/constpt2005.pdf)
    A propósito da “divída infinita” refira-se o Artigo 161º, h), ” Autorizar o Governo a contrair e a conceder empréstimos e a realizar outras
    operações de crédito que não sejam de dívida flutuante, definindo as respectivas
    condições gerais, e estabelecer o limite máximo dos avales a conceder em cada ano
    pelo Governo”

  4. Ana A. says:

    É triste termos que fazer um apelo destes no século XXI, depois de tanta gente morta e torturada, no mundo, em prole da Liberdade! Porque será que o Ensino não faz finca pé para o estudo da Filosofia e da Cidadania?! E porque é que, não estando satisfeitos com a “ementa” servida no boletim de voto, não arregaçamos as mangas e fazemos a nossa parte?!

  5. Zé Manel says:

    Otário…os abstencionistas não leêm “cartas abertas”…ahahah

  6. José almeida says:

    Não é verdade que o futuro está nas mãos dos abstencionistas, ou em qualquer dos votantes. Os programas estão definidos pela Troika. O Siryza demonstrou que o voto de pouco ou nada serve. As políticas estão definidas e são inalteráveis. O meu voto, nunca servirá para materializar políticas de austeridade independentemente do partido ou coligação que as execute. Embora não concorde minimamente com a lei eleitoral, só voltarei a votar quando votar em programas que possam ser exequíveis por portugueses e para Portugal. Não apelo à abstenção, mas o meu voto, nestas circunstâncias nunca o terão. Não publicaria a minha opinião se soubesse que vai ser lida por mais 100 pessoas. Espero que todos votem em consciência, porque eu vou fazer o mesmo.


  7. Infelizmente na abstenção eles incluem aqueles que querem e nao conseguem votar. Se fores emigrante e tiveres mudado a morada no CC a menos de 6 meses e motivo para ja nao te deixarem votarem. Acresce-se ainda o facto de seres obrigado a te deslocares ao consulado q fica na capital do pais para manifestares a intencao de voto, coisa q se poderia fazer por correspondencia. Devido a esta estrategia para retirar o direito de voto a quem quer votar conseguiram fazer de nos (eu e a minha esposa) dois abstencionistas. Os governantes PTs passam a vida a falar de direitos mas esses direitos sao apenas para alguns. No pais acolhedor tudo foi mais facil demorou 2 semanas para tratar do processo de eleitor (tudo por correio) e neste momento ja podemos (eu e a minha esposa) votar para nas eleicoes locais e europeias! Quantos mais portugueses se queixam do mesmo? Alem de nos convidarem a sair ainda nos impedem de votar!!!

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  1. […] Não votes, não questiones, não discutas, não opines e nem te atrevas a pensar que podes fazer a diferença. […]

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