O que faz falta é vergonha na cara


2015-10-22_10h21_18

Angola tem um regime presidencialista cujo chefe de Estado é José Eduardo dos Santos, também presidente do MPLA, partido que venceu as últimas eleições legislativas (2012). O MPLA é uma derivação do braço do PCP em Angola (década de 1950). Por razões de aceitação internacional, alterou, oficialmente, a sua ideologia, passando do marxismo-leninismo para a social-democracia, conseguindo, depois, ser aceite na Internacional Socialista onde se mantem filiado. Na prática, mantem uma organização, completamente, estruturada, orientada e pensada de acordo com os antigos partidos únicos do bloco de Leste.

É este o Presidente e é este o partido que são responsáveis pela ignóbil e terrível situação atual de Luaty Beirão.


Obviamente que nada nos impede de fazer umas manifestações e umas petições a culpar Rui Machete e Passos Coelho pelo que está a acontecer. Eu, já que é para marimbarmos na gravidade do que se está a passar, preferia culpar o vizinho do lado que passa a vida a meter o carro no meu lugar. No fundo, o juízo de valor é, exatamente, o mesmo: o que nos dá jeito no momento. Porque resolver, efetivamente, a situação de Luaty Beirão não parece ser o verdadeiro interesse. Aliás, como é típico nestas gentes (é desprezo, sim senhor), as reais questões perdem-se no aproveitamento que elas podem propiciar. No fundo, a sobrevivência de Luaty Beirão (questão essencial), dilui-se no combate, por qualquer meio, ao Governo português em funções (lucro político). Para enfrentar, verdadeira e efetivamente, o problema, era necessário acusar os autênticos responsáveis e explicar a luta de Luaty Beirão contra o sistema angolano. Só que isso implicava dois problemas: por um lado perdia-se uma oportunidade de cumprir agenda e por outro, obrigava a desmascarar um passado (para muitos, ainda e também, um presente) que conduziu ao atual estado de coisas em Angola. No fundo, era preciso ter vergonha na cara.

Comments

  1. Nightwish says:

    A nova social democracia: nem social, nem democracia.
    No tempo do JCC não havia nada disto…

  2. Sarah Adamopoulos says:

    «O MPLA é uma derivação do braço do PCP em Angola». Ena. As coisas que eu aprendo a ler Garcez Osório. Quanto ao post em si, é também ele uma deriva, já que usa a situação em Angola para combater a coligação da esquerda em Portugal (isto é, para combater, sobretudo, a presença do PCP nessa união inédita). Por que não escreve logo sobre o assunto que verdadeiramente o interessa? Seria mais honesto intelectualmente, e teria ainda por cima o mérito de lançar aqui um debate que é não apenas inevitável como desejável: como (se é que é possível neste momento) ultrapassar as contradições do PCP? Enunciá-las com clareza e pensar nelas podia ser um bom começo, creio.

  3. Orlando Sousa says:

    Qual foi a posição do PC na moção sobre o caso na CM de Lisboa?

  4. joão lopes says:

    um texto que tem como pretexto o caso do activista…e so esta procupado com o PCP.por essa ordem de ideias,posso perguntar quem governou angola pre-1974? foram os portugueses, e tendo em conta que basta abrir qualquer CM,para ouvir falar em corrupção(ADN do bloco central) e sendo o estado angolano profundamente corrupto,logo a culpa é dos portugueses,certo?

  5. Rui Silva says:

    Carlos Garcez Osório,

    Ótimo post, oportuno e clarificador.

    cumps

    Rui Silva

    • Nascimento says:

      Olha o bolinhos! Atão pá? a esta hora devias de estar a almoçar… olha, queres ver que ele é como a outra a quem cortaram a cabecita? Guloso, a mamar brioches….seu finório.Vá, vai lá comer a sopinha, seu maroto acéfalo.

  6. Rui Moringa says:

    Não sou comunista. Mas o texto ao pretender estabelecer uma ligação entre um comunicado sobre uma vitória política e um caso de privação de liberdade injustificável no plano dos Direitos Humanos, falha gravemente.
    Mas algum comunista aceite essa privação de liberdade?!
    Percebo que o PCP (institucionalmente) venha divulgar que não se deve emiscuir na justiça de um Estado soberano. Entendo, mas não concordo.
    Claro não concordo com a política dos EU. O governo Obama já condenou a atitude da justiça-estado de Angola?
    Não há muitas dúvidas sobre o que está em jogo em Angola.
    A questão é saber de que lado estão os intervenientes e os asistentes.
    As pessoas de bem estarão com certeza do lado de Luaty.
    Quanto aos que não estão, conhecemois-lhe mesmo por alto as motivações.

  7. Nascimento says:

    Espelho meu, há alguém mais Humano do que eu?
    A postada é muiiita boa pá!Ó “ENVERGONHADO”, manda lá o Relvas “o facilitador”, ou o Vice “o irrevogável”, que eles tratam com a nomenclatura ” comunista /social democrata”.
    Mas nã te esqueças, leva também ( já agora aproveita-se a viagem, e sai mais em conta) o Aníbal com a tropa fandanga de “empresários”, tipo Mota Engil, ou Soares da Costa, que é para ver se recebem a guita que lhes devem. Tá bem?
    É PÁ, HAJA VERGONHA NA CARA/ ALGIBEIRAS.AFINAL DE CONTAS ESTA MERDA ANDA TODA LIGADA, NÃO É?

  8. Helder P. says:

    Entendo, quando é para as negociatas e comes e bebes com a Direita portuguesa, o MPLA é social-democrata.
    Quando se fala em violação dos direitos humanos, sacudem a água do capote para os comunistas. No fundo, é como no BES, há o MPLA bom e o MPLA mau.
    Tenha você vergonha.

    • Helder P. says:

      Esclareço que não concordo com a posição do PCP neste assunto, bem como em muitos outros de política internacional.
      Mas uma coisa é certa, o PCP tem UMA posição sobre o assunto, goste-se ou não.
      Outros mudam de posição de acordo com o lado para o qual os ventos sopram. E vem falar de vergonha na cara!
      Ainda se lembram da posição vergonhosa do governo de Portugal face ao Apartheid da África do Sul? E lembram-se de como tudo mudou num ápice? Num dia, és um terrorista e deves estar na prisão, no outro meu querido amigo Mandela, venham de lá esses ossos!

      • Rui Silva says:

        Caro Hélder P., olhe que nesse caso do apartheid o que mudou foi a resolução ONU. Portanto a própria ONU reconheceu que a resolução não estaria “perfeita” , emendou-a e de imediato foi subscrita também por Portugal. Ou seja Portugal não mudou de opinião . A ONU mudou de opinião , o que para mim só veio dar razão á posição portuguesa.

        cumps

        Rui Silva

    • Rui Silva says:

      A mim o que me parece é que o autor não tomou sequer partido caro Hélder P.
      Pareceu-me que o que fez foi alertar para o síndroma de Dr. Jekyll and mr.Hyde, de que o PC parece sofrer nesta história.

      cumps

      Rui Silva

      • joão lopes says:

        quem governou angola para angola dar estes “exemplos” ao mundo?quem deu o “exemplo”?p.s-com “advogados” como tu,não admira que o proprio passos ande perplexo,como quem diz,com “amigos” destes mais vale juntar-me ao “inimigo”

  9. A.Silva says:

    Carlos Garcez Osório, um aldrabão! misturando diferentes situações, preferias a vitória da UNITA em 2012, não é seu reaccionáriozinho?

    Deves ser um pafista à rasca à procura de criar confusão.

  10. José almeida says:

    Quando tenho vômitos de estômago vazio é mau sinal. As 2 últimas vezes que isto me aconteceu foi agora, e há uns dias, também depois de ler um Post do mesmo autor. Talvez por isso goste do Aventar.

    PS – não sou de PCP.

  11. Não conheço bem a realidade angolana; conheço bem o que o assassino Sabimb e seus capangas de que o Osório concerteza era apoiante, fizeram ao povo angolano.

    Custa – me saber que em Angola ou no Burkina Fasso haja um cidadão em greve de fome.

    Porque quis saber mais, aqui fica para discussão se assim alguém se disponibilizar.

    A posição da oposição angolana liderada pela actual direcção da UNITA contra o espírito de unidade e reconstrução nacional presente nos acordos de paz do Luena começou com a decisão de Samakuva de pôr fim ao GURN. Esta atitude de renegação mantém-se inalterável até hoje, mas ao contrário do que pensa o líder da oposição, ou quem interpreta a realidade por si, tem prejudicado muito mais o país do que o MPLA e o seu líder.

    Quem percebe bem isto que acabo de afirmar são as igrejas angolanas, mas estas, porque atravessadas também pela influência das direcções dos partidos políticos, pouco ou nada podem fazer para chamarem à razão as almas desavindas. Até talvez nem convenha, como dizia o meu mestre, sempre céptico com asserções definitivas. O melhor é concentrarem-se no evangelho e na salvação das almas, que o país também precisa.
    Abandonando o quadro institucional da reconciliação nacional balizado no Luena, a oposição liderada pela UNITA de Isaías Samakuva quis com isso abrir o seu espaço de ataque à governação, seguindo modelos exógenos e académicos, sem entender no que se metia. Só que alargou tanto o seu campo de crítica que se afastou do nível da sensatez política e caiu no extremo perigoso, chegando a assumir contornos que se aproximam do passado. A UNITA desta linha política descomprometeu-se das responsabilidades que teve no estado a que chegou o país, voltando a abandonar lugares na Assembleia Nacional, qualificou o regime de ditadura, incitando à revolta e a manifestações selvagens, elevou o limite da crispação até à hostilidade, usando a Rádio Despertar e o terrorismo mediático das ditas redes sociais, e voltou a conduzir uma diplomacia paralela contra o próprio Estado a que pertence, dando novo alento a antigos “lóbis” savimbistas adormecidos e enfraquecendo a democracia angolana. Por exemplo, para provar que a imprensa angolana não é independente nem pluralista, a liderança da UNITA evita ao máximo o contacto com os meios de comunicação social. Pela terceira vez consecutiva em vários anos, o pedido de entrevista feito pelo Jornal de Angola a Isaías Samakuva e a Chivukuvuku foi recusado. Mas, naquilo que é um caso de corrupção, o maior partido da oposição disponibilizou dinheiro para pagar o congresso do Sindicato de Jornalistas Angolanos (SJA), que se transformou numa fraude democrática camuflada. 
    As consequências do tipo de oposição que é feito pela UNITA de Isaías Samakuva são óbvias. É nos  momentos de grandes dificuldades e de maior aperto que melhor se conhecem os grandes homens e se vê quem está de facto empenhado em dar solução aos problemas da Nação. Os renegados do espírito dos acordos do Luena rejubilam com as consequências da descida do preço do petróleo para as finanças públicas, quase como se fossem rebeldes interessados num Estado fraco. Nos tempos duros da guerra, o cidadão viu quem esteve a defender a integridade e a soberania nacional e quem não esteve. Nos tempos virtuosos do preço alto do petróleo, toda a gente viu quem esteve a rasgar o território e a fazer obra e quem ficou de braços cruzados a ver a caravana a passar e apenas a criticar. 
    A intolerância política de que Isaías Samakuva se queixa interessa à própria UNITA, pois permite-lhe aparecer como vítima. Como a mulher que se zanga com o marido e atira o bebé pela janela fora, até é útil para políticos do estilo de um Numa ou Adalberto Júnior, criar mártires na sociedade angolana. O “caso” Luaty Beirão é um reflexo da política daqueles que fizeram a guerra e a propaganda de Savimbi.
    A oposição liderada pela UNITA preferiu o caminho do confronto extremado, mas entrou num beco sem saída. Agora dá a entender que deseja voltar ao tempo do acordo de Alvor do fim do império português, da “partilha do poder” de Chester Crocker, dos acordos de Bicesse de Durão Barroso, do Protocolo de Lusaca de Maître Beye, enfim, quer voltar a reduzir o sistema político angolano ao controlo dos antigos movimentos de libertação, recuar aos privilégios que conquistou com o GURN e estupidamente abandonou, agravando a vida de muitos dos seus militantes, e quer uma democracia que lhe seja submissa. 
    Só que Isaías Samakuva pede o impossível, porque, 40 anos depois da Independência Nacional, novos protagonistas emergiam na cena política angolana, com tanto direito como os velhos, a democracia angolana evoluiu, nasceram novos poderes e o caminho a partir de agora é para a liberdade e a modernidade.  
    Na democracia à americana, que passei a visitar ultimamente, tentando perceber as diferenças entre o sistema liberal do outro lado do Atlântico e os regimes europeus egoístas, colonialistas, exploradores, chulos e corruptos, tão conhecidos e próximos de nós que já sufocam, o que prevalece acima de tudo é o primado da lei. Se à conduta de hoje da UNITA fossem aplicadas as regras do modelo democrático americano, nesta altura toda a direcção de Samakuva que se esconde por trás das instituições democráticas estaria a contas com a justiça. 
    Felizmente para esse tipo de oposição, o actual regime político em Angola é moderado, reconciliador, dialogante e sensato, opção política que deu frutos, entronca no espírito do Luena e tem sido fonte de inspiração na resolução de outros conflitos africanos. Em 40 anos de Independência e depois de tantos anos de guerra, essa é uma lição a reter.

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