Tudo pela nação, nada contra a nação

Cavaco

O Presidente da República tem toda a legitimidade para interpretar os resultados das eleições e tomar as decisões que lhe competem em conformidade com essa interpretação e com a lei. Não me choca, por isso, que Cavaco Silva tenha indigitado Pedro Passos Coelho. Até porque, sejamos sérios, por maior que seja a vontade de PS, BE e CDU de chegar a um entendimento, a verdade é que esse entendimento não foi ainda oficializado e na prática não existe.

Contudo, não compete ao Presidente da República substituir-se à lei ou à democracia. Compete-lhe zelar pelo cumprimento de ambas. Dada a importância do cargo, é expectável que quem o ocupa consiga, como disse um dia um certo presidente, estar acima dos partidos políticos. Acima de sectarismos. Mas Cavaco Silva não esteve ao nível das funções que ainda exerce. Foi sectário, incitou à discórdia e comportou-se como um fanático de bandeira na mão. Colocou-se acima da democracia e da Constituição agindo como uma divindade lunática que, do alto da montanha, decide arbitrariamente quem pode ou não exercer um direito que é de todos os portugueses, fulminando quem não lhe agrada. Para Cavaco Silva, CDU e BE, bem como os seus eleitores, não não entram nas contas da democracia. São renegados. Cavaco Silva encarnou ontem o velho regime, reescrevendo a história da democracia onde uns podem governar e outros não. Onde os votos de uns valem, os de outros não. Tal como Salazar, Cavaco negou a democracia.

A palavra de Cavaco Silva tem hoje um valor que se aproxima do nada. E não é de agora, bastando para isso recuar alguns meses até as declarações contraditórias que fez sobre o BES, anunciando num dia que era seguro investir no banco para, poucos dias depois, se indignar com uma jornalista afirmando nunca ter feito declarações nesse sentido. Mas o Cavaco que ontem excluiu do processo democrático os partidos à esquerda do PS é o mesmo Cavaco que, nas últimas semanas, insistiu constantemente na necessidade de um governo estável e duradouro, algo que um governo suportado pela coligação PSD/CDS-PP não será. Lamentavelmente, não foi o Presidente da República que ontem falou ao país. Foi um militante do PSD. Um militante ressabiado e agressivo a quem só faltou apelar à ilegalização do PCP e do Bloco. O mesmo Cavaco que declarou em tempos sentir-se perfeitamente integrado no regime fascista. Felizmente, quem decidirá sobre o próximo governo do país, independentemente da decisão que tome, será o Parlamento. E suspeito que o Parlamento, pela sua actual composição, se reveja no discurso extremista e doente que o presidente ontem leu ao país. Um discurso fundamentalista que deveria servir de tónico por um fortalecimento da união à esquerda porque, por muitas que sejam as divergências entre socialistas, bloquistas e comunistas, numa coisa estou absolutamente convencido que todos convergem: a democracia é de todos e para todos, não apenas para quem um vulto decadente do antigo regime decida que seja.

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  1. […] todas as crianças para fora do país que os comunas vão levá-las todas para o pequeno-almoço. Abençoado Cavaco Silva que não olha a meios para proteger a democracia do perigo esquerdista. Cavaco e os democratas que conhecem o valor da tradição e que se sublevaram contra o ultraje que […]


  2. […] O próprio Cavaco Silva, que nos vem agora falar sobre a influência negativa exercida sobre PCP e BE na governação do país, é a mesma pessoa que afirmou sentir-se integrado no regime fascista e que até condecorou um ex-PIDE. Penso que, posto isto, ficamos esclarecidos quanto aos critérios que norteiam Cavaco na definição de boas e más influências. Tudo pela nação, nada contra a nação. […]

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