Postal de Valencia #1

‘Cuando tenemos un día gris nos apagamos’

Devia ter escrito um postal de Belfast, um pelo menos, ainda há coisa de duas ou três semanas. Não é que não houvesse nada para dizer sobre Belfast, mas praticamente, exceto a bela Queens University e o hotel e os meus colegas, não vi grande coisa. E então não escrevi, mas espero voltar um destes fins de semana maiores àquela cidade da Irlanda do Norte e, então sim, escreverei.

Às vezes parece que não faço mais nada se não andar de um lugar para o outro, entre Aveiro e muitos sítios, dentro e fora de Portugal. Reparo que ultimamente essas viagens, sobretudo as para fora do país, estão cada vez mais pequenas, 2 ou 3 dias no máximo e não dá para muito mais do que trabalhar, jantar e beber um copo com os colegas. Assim mesmo, já sabemos, são viagens de que gosto. Como gosto das outras mais vagarosas. Menos, evidentemente. Que a idade já me pesa e o vagar sabe-me bem.

Valencia é outra dessas viagens a correr, menos a correr do que a que fiz a Belfast. Mas também já é a terceira vez que aqui venho e parece que já estou em casa, que me oriento bem, nestas ruelas e nestas avenidas, nas praças e larguinhos. Venho pela tese da Marina, desta vez. Amanhã a discutiremos, na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Valencia. A viagem foi o costume, muitas horas para chegar onde quer que seja, desde Portugal. Desencontros de horários de voos. Tudo isso. Apanhei o avião para Madrid, em Lisboa. Mal levanta, aterra logo. A seguir o Cercanías para Atocha e daqui o Ave para Valencia. Hora e meia. Como no comboio. Continuo, preguiçosa, a transcrever uma entrevista que comecei no avião. Distraio-me pouco com a paisagem fora da janela que passa demasiado rápido.

Em Valencia fico alojada no Colegio Mayor Rector Preset na praça do forno de São Nicolau. Uma residência para professores e alunos da Universidade de Valencia, num edifício imponente, mas acolhedor. As pessoas são extremamente simpáticas, o quarto tem um tecto altíssimo e faz muito eco o arrastar da cadeira, o abrir da portada da janela que dá para a varanda onde, aliviada, constato que posso fumar.

Plaza de la Virgen

Valencia está bonita, como dela me lembrava. E é primavera em Valencia este princípio de fevereiro. Sabe-me muito bem encontrar a primavera a despropósito. Não me apetece vestir o casaco. Janto ‘al fresco’ como se não me pudesse constipar, bebo duas cañas num sítio onde entro porque ouço o hasta siempre e trauteio distraída aprendemos a quererte desde la historica altura, donde el sol de tu bravura… la la la… comandante Che Guevara. E volto, depois, devagar, pelas ruas e ruelas, para o quarto e para a varanda, mais contente. Com a primavera rápida, as cañas e o hasta siempre. Não é preciso muito para ser contente. Esqueço-me frequentemente disso. Se calhar devia viajar ainda mais vezes, se calhar não estou sozinha, enfrentando a primavera e todas demais estações, as vezes suficientes.

É primavera em Valencia hoje. Comentei isso com o taxista, extraordinariamente simpático, que me trouxe desde a estação dos comboios. Disse-me que este ano mal tinha havido inverno em Valencia. E que os valencianos estão muito mal habituados, por terem sempre tanto sol. ‘Cuando tenemos un día gris’, disse-me ele cheio de poesia, ‘nos apagamos’. Depois indicou-me um sítio para comer bolos de abóbora. O melhor de Valencia. Deixou-me no número 4 da Plaça del Forn de San Nicolás e foi à vida dele, no meio da primavera.