Lettres de Paris #39


Les gens heureux lisent et boivent du café

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foi o título de um livro, na montra da Compagnie, que me despertou a atenção quando passei por lá a caminho do Ladyss. As pessoas felizes lêem e bebem café. Juntar-lhe-ia um cigarro e o título do livro que, pesquisei depois, foi escrito por Agnès Martin-Lugand, que não conheço (apesar do livro estar traduzido em português e editado pela Guerra & Paz) faria todo o sentido para mim. Pelas críticas que li, quando pesquisei, acho que também não vou querer lê-lo. Fico-me pelo título na montra da Compagnie que me fez parar hoje a caminho do trabalho.
 
Tenho bebido mais café e, sim, fumado mais cigarros, do que tenho lido, por estes dias. Gasto os dias não sei bem em quê (enfim, aparte as horas em que estou no Ladyss ou a passear) e acabo por ler pouco, ultimamente. Longe dos tempos em que lia compulsivamente tudo o que apanhava, muita porcaria incluída neste tudo. Agora leio menos, não só aqui em Paris, como em casa, na minha vida normal. Faço isso, mas ao mesmo tempo lamento não ler mais. São já raras as vezes em que atravesso a noite até de manhã agarrada a um livro, como fazia há uns anos – não assim tantos – muitas vezes. A culpa não é dos livros, evidentemente. Há milhões de livros por ler que me fariam – se os lesse – ficar agarrada a eles noite fora. O trabalho, desde logo. Uma pessoa vem para Paris cheia de planos de melhor gestão do tempo e acaba por ter menos tempo do que tem em casa. Paris tem muitas distrações e estar longe de casa, da minha rotina também me distrai, é a verdade. Desconcentra-me até, se querem saber. Depois convidam-me para coisas (de trabalho) e eu não sei dizer que não. E é assim que me vejo a responder a solicitações intermináveis. Quando pensamos que uma tinha acabado, aparece logo mais uma, ou mais duas, ou as que forem, em catadupa.
 

Foi assim que acabei por aceitar um convite que me fizeram há uns tempos da European Commission. E foi assim que acabei a ter de ir a Bruxelas amanhã e depois. Não que me desagrade ir a Bruxelas, bem entendido. Não vou lá desde 2009 e vendo bem já são alguns anos. Não que me desagrade falar do meu trabalho, também bem entendido. Mas ter aceitado este convite foi ter aceitado uma dose de trabalho suplementar e inesperada de que, convenhamos, eu não precisava. Mais a mais porque me enervo um bocadinho sempre diante de centena e meia de pessoas, de vários países, a ter de falar em inglês em 10 minutos sobre coisas que, no mínimo, levariam dias, meses e algumas até anos a serem bem faladas, faladas como deve ser. Talvez um dos problemas da forma como se divulga a ciência, o conhecimento que vamos produzindo resida nos minutos, geralmente entre 10 e 15, que nos dão para falar em conferências e seminários e, até, como é o caso, quando somos keynote speakers num qualquer evento. Tipo papa-léguas ou speed-dating (e é verdade que já há encontros científicos speed-dating!). O que se diz em 10 minutos ou mesmo 15, além de Bom dia. Agradeço muito o convite que me foi dirigido. E adeus? Pouco mais, terão de convir. Mas é assim que estamos atualmente. Fast talking, fast science, fast tudo e faz-te à vida.
 
Uma das coisas de que vou falar depois de amanhã é exatamente disso. Do tempo. Não do que me deram para falar. Mas do tempo que é preciso para aprender e para intervir. E da descoincidência que há entre esse tempo fundamental – o saber, o conhecer, o agir – e o tempo da política, das políticas e dos projetos de investigação. O tempo dos últimos é totalmente irreal e fragmentado face ao tempo longo das pessoas, dos territórios, sobretudo se forem – como é o caso do objeto da minha intervenção na EC depois de amanhã – territórios rurais. O rol de burocracias a que me sujeitaram as meninas funcionárias também é inenarrável. Por isso, nem vos conto. Mesmo porque demoraria muito mais que os 10 minutos que terei para falar da regeneração dos territórios rurais. Claro que eu vou procurar desconstruir tudo, a começar pelas calls para projetos europeus, cheias de guidelines, assuntos que (entendem os eurocratas, possivelmente) devem ser abordados, metodologias que devem ser usadas e o modo como nós, cientistas e tudo, embarcamos naquilo sem a mínima capacidade crítica. Ah pois claro, é verdade que precisamos de dinheiro para investigar. Mas ao investigarmos nas direções que nos recomendam os financiadores estamos muitas vezes, cegamente, a cumprir encomendas. Enquanto os territórios, os processos, as dinâmicas continuam como sempre a sua vida, alheios à eurocracia, afinal. Não sei se terei capacidade para desconstruir isto tudo ou sequer se serei bem entendida. Provavelmente não. Depois vos contarei, ou não, se tiver qualquer outra coisa que ache mais relevante a contar-vos. De maneira que amanhã lá vou eu no Thalys em direção a Bruxelas. Uma hora e meia apenas de caminho. Conto rever a Grand Place e o Manneken Pis e deitar o dente a umas moules et frites e a uma (pelo menos) cervejinha. Conto comer uns chocolatinhos ‘Neu Haus’, evidentemente. E se nada disto me cair mal, conto fazer uma figura menos má na minha conversa de 10 minutos (que demorei um monte de horas a preparar, evidentemente) no infoday de uma call de projetos europeus.
 
Hoje de manhã, ao passar em frente da Université René Descartes, na Rue de L’École de Medecine, notei uma série de cartazes publicitários à mesma Universidade (e à Universidade em geral, se calhar). Salientavam-se as descobertas, os recursos, a capacidade de fazer ciência, produzir conhecimento, acumular e difundir saber. O último deles, que fotografei, dizia: ‘L’Université: où irions-nous sans elle?’… É uma pergunta pertinente e difícil, embora o tom dos cartazes não tivesse esse objetivo, o de inquietar. Mas é, realmente, uma pergunta inquietante, nestes tempos de eurocratização da ciência. Fiquei a pensar nela, na pergunta, está bem de ver. E no modo como as universidades são cada vez menos autónomas na maior parte da investigação que desenvolvem. Não consigo, em 10 minutos, nem em 20, nem numa hora, dizer-vos mais que isto. Acho, pelo que vejo nas livrarias, que os franceses são cientistas (os sociais, pelo menos) mais felizes que nós. Publicam muitos livros, em francês e presumo que os leiam. Que bebam café e, alguns até fumem um cigarro ou outro, folheando as páginas desses livros. As conversas que tive com franceses só me garantiram essa felicidade que vos conto. São ainda imunes ao publish or perish, às publicações em revistas em inglês, com referee bem entendido, aos factores de impacto e ao número de citações. Todos os cientistas sociais com quem tenho falado, geógrafos, sociólogos, antropólogos, me mostram essa (ainda) imunidade a um sistema que nos limita cada vez mais. Que nos dá 10 minutos e um guião cheio de requisitos que temos de preencher se queremos ter dinheiro que nos garanta mais 10 minutos, antes de perecer. Mais cedo ou mais tarde, seja por que razão for, vai acontecer. Por isso, se calhar, melhor será ler romances, beber café e fumar cigarros, tudo muito devagar. E falar longamente também, daquilo que perdemos anos a investigar, a aprender e a ensinar. As pessoas felizes lêem livros, bebem café, algumas fumam cigarros e gostam de falar com quem as quer ouvir.

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