Noticiar ou não noticiar? Razões de uma não-notícia

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Sinais de luto e tristeza pela morte de Maria L., numa árvore em Freiburg; Imagem Spiegel

Os factos são os seguintes: Às 3 horas da manhã do passado dia 16 de Outubro, na pequena e liberal cidade universitária de Freiburg, uma estudante de medicina voltava a casa de bicicleta, vinda de uma festa. Na manhã seguinte, o seu corpo foi encontrado pela polícia na foz do rio Dreisam, com evidentes sinais de violação. Desde então, o caso vinha sendo investigado por uma comissão especial. Há uns dias, foi detido um suspeito fortemente indiciado de 17 anos, chegado à Alemanha em 2015 como refugiado do Afeganistão.

A ARD, o primeiro canal de televisão pública, optou por não incluir esta notícia no Tagesschau (telejornal). A maioria dos outros media, desde o segundo canal público até ao Spiegel, deram a notícia. Logo se levantou um tal encrespamento nas redes sociais – não só pelo crime em si como pela ausência da notícia no Tagesschau – que o director de redacção da ARD se viu compelido a justificar a decisão tomada por si e pela sua equipa, tendo-o feito do seguinte modo:

(…) “É-me extremamente difícil vir explicar, de forma quase tecnocrática, quais foram os critérios que usámos na análise deste caso. Está em causa a perda de uma vida humana. O que sentirão os pais, parentes e amigos da vítima perante o nosso esmiuçamento das razões pelas quais a morte de sua filha não conseguiu ter espaço no telejornal? Porém, tratando-se de um tema jornalístico importante, vou tentar explicá-lo.

Todos os assassinatos são terríveis. O caso ocorrido em Freiburg é ainda agravado por ter sido aniquilada uma vida humana jovem. Os redactores do Tagesschau não são insensíveis; porém, raramente noticiamos casos singulares de crime. No mercado de media, há órgãos editoriais que se especializaram em reportagens sobre casos de crime e que o fazem de forma adequada. O Tagesschau informa sobre eventos relevantes de carácter social, nacional e internacional, o que não inclui casos de assassinato específicos. Não significa isto que o tema crime nunca seja referido no Tagesschau; é claro que a evolução do crime na Alemanha é uma questão importante. Mas não podemos, nem queremos, noticiar sobre cada um dos cerca de 300 assassinatos que ocorrem anualmente (note-se que este número diminuiu drasticamente ao longo dos últimos 15 anos).

Em causa estava pois avaliarmos se o caso de Freiburg se distinguia de outros casos de assassinato. Considerámos que não e por essa razão não demos a notícia sobre a morte da jovem. E pela mesma razão, também não alterámos este critério de referência aquando da detenção do suspeito. A nacionalidade do alegado infractor não tem portanto nada a ver com a decisão tomada. (…) A cobertura que fizemos dos acontecimentos da noite de fim do ano em Colónia, na qual mencionámos desde o início a origem dos presumíveis autores, é a prova evidente de que não temos qualquer problema em, se necessário, nomear a nacionalidade dos suspeitos.

Se poderíamos ter tomado uma decisão diferente? Sim, poderíamos. De facto, poderia ter-se argumentado com o “valor-notícia” deste caso de assassinato, já que os dois recentes casos de violação e assassinato em Freiburg (dos quais não se sabe se estão relacionados) suscitaram uma grande atenção dos media, mesmo para além da região Freiburg.

No entanto, o facto de, no Tagesschau, a ponderação do critério “valor-notícia” de um tema ser menor do que a do critério da relevância, levou-nos a tomar a decisão de não noticiar o caso do assassinato no Tagesschau. Por favor, acreditem que me custa muito falar em falta de relevância ao referir-me a um assassinato. (…). Porém, e apesar dos sentimentos de compaixão, a redacção do Tagesschau não deixa de considerar os critérios acima referidos na selecção que faz das notícias.”

Mais uma vez, desabaram vendavais de críticas: censura por razões do que é “politicamente correcto”, media mentirosa, perda de confiança nos media… enfim, os bombardeamentos de lama tão característicos desta nossa era.

De entre o milhão de refugiados que entrou na Alemanha desde o ano passado há, como em qualquer grupo e em todo o lado, uma minoria de gente perigosa. As notícias sobre actos criminosos perpetrados por refugiados, tanto mais quando se trata de ataques sexistas – o ataque em massa no fim do ano passado, em Colónia, foi marcante – são achas para a já incandescente fogueira da extrema-direita, engrossando assim as fileiras do AfD e pressionando Merkel que, a este respeito, tem tido uma posição notável.

Comments

  1. omaudafita says:

    O trabalho a que se deu para pintar de branco uma parede preta…

    • Ana Moreno says:

      Engana-se, pintei as paredes – porque o texto levanta várias – de cinzento; mas omaudafita pelos vistos faz parte do grupo de pessoas que tem de ver o mundo a preto e branco, senão perde a orientação…

      • omaudafita says:

        Todos os argumentos que utilizou já são bem conhecidos das ditaduras, omite-se um facto ou verdade «por um bem maior», porque «as pessoas não estão preparadas para saber a verdade», bla bla lápis azul, bla bla lapis azul…

        • Ana Moreno says:

          Não argumentei absolutamente nada quanto a a notícia dever ter sido dada ou não; Descrevi o que aconteceu e como foi justificado pelo director de informação da ARD – é uma citação. No último parágrafo, fiz o enquadramento.

        • Nightwish says:

          Pois, deviam ter falado no assassinato e ter dito, porque também é um facto, que os outros milhões não mataram ninguém. Estava bem assim para si?

          • Ana Moreno says:

            Considero um privilégio ter acesso a um telejornal de qualidade que se centra na relevância e, em princípio, não noticia casos singulares de assassínio. Na emissão do dia seguinte, o telejornal da mesma ARD entrevistou a Merkel; a qual disse exactamente isso, que este caso é gravíssimo mas não pode, nem deve, ter qualquer implicação para a forma como é vista e tratada a grande maioria dos refugiados. Está bem para mim 🙂

      • omaudafita says:

        Simplesmente quiseram fugi a uma notícia que teria como título, directo e conciso:
        Refugiado viola e mata adolescente
        Passe bem!

        • José Peralta says:

          omaudafita

          Temos cá “disso”…e chama-se “correio da manha” ou “escarro da manhã”…

          Passe bem !

        • Ferpin says:

          Podiam sempre noticiar: refugiado viola e mata jovem alemã. Portanto bem 2016 o resultado é 299-1 entre alemães e refugiados em matéria de assassinatos.


    • Vexa tem a certeza que sabe ler e entender o que lê ?

  2. Paulo Só says:

    O jornalismo não é uma ciência. Não há acontecimentos que sejam “notícias em si”. Toda a notícia é já uma interpretação. “A notícia” no caso não me parece ser o assassinato em si, mas a repercussão que o mesmo teria, pois seria apontado por aqueles que receiam a insegurança e aumento da criminalidade devido aos refugiados e imigrantes. A novidade da situação é o efeito multiplicador das redes sociais que, paralelamente aos media amplificam de forma mais ou menos espontânea todos as “notícias”, boatos, verdades ou mentiras. Países como a Rússia, a China etc controlam as redes sociais, e usam-nas para tentar desestabilizar outras países Os EUA controlam através da espionagem digital aspectos que respeitam a segurança nacional, mas vão bem além disso, e também manipulam a media. A Europa é tradicionalmente um campo de batalha exposto a ventos de oeste e de leste. É claro que se os regimes autoritários voltarem a estabelecer-se na Europa, as redes sociais serão controladas ferozmente. Como era a imprensa no salazarismo. Os mesmos que criticam na web a escolha editorial da ARD serão então silenciados. Quase sempre o feitiço se volta contra o feiticeiro.


  3. Ana Moreno no post que mais gostei seu aqui os meus comapnheiros trolls desataram todos a cascarem-lhe em cima. Palavra que gostava de entender esta trolada que quando lhe explicam um assunto com rigor, formativo e de tolerancia e bom senso, irrita as sua meninges, Será que a formatação que o aventar lhes tem proporcionado , dificulta a leitura de opiniões contrárias ou é a “freguesia ” que exige unanimidade ? seja como for parabens. e deixe-se da estopada de responder (se fosse eu nem lia) os nossos estimados trols.

    • Ana Moreno says:

      Obrigada Antonio, tento sempre mais ou menos escrever nesta linha 🙂 Respondo aos trolls só até certo ponto, por mania de levar as pessoas – e por trás de cada troll há uma pessoa que, se quiser, até pode tirar a máscara da provocação – a sério. 🙂 Mas quando é estopada, não faço. 🙂 Um bom fim de semana!

    • omaudafita says:

      Vai chamar troll a quem te for próximo…

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