Natal

Rui Naldinho

Alegrai-vos, apesar de tudo! Porque é Natal…

Os crentes festejam este dia, que no calendário litúrgico é atribuído o nascimento do menino Jesus. Nem o pagão descrente resiste a este cenário mítico do Natal, emprestando nessa noite igual a tantas outras, a sua emotividade aos familiares e amigos.

mesa de natal

Chego a casa horas antes da ceia do Natal, entro porta a dentro e reparo numa sala cheia de um consumismo inadequado aos tempos que correm. As crianças vão brincando diante da árvore iluminada de cores pisca-pisca, sobre um chão decorado com embrulhos enlaçados.  Algures, numa parede ao fundo arde um lume brando sem cessar, diante dos meus olhos transeuntes lacrimejados de chamas. Ao centro, há uma mesa com deliciosas iguarias confeccionadas pelos nossos ancestrais costumes. Intuo eu que serão degustadas à vez, numa sequência de ritos até que o cansaço nos esmoreça.

Porque é Natal…

Pela cidade, reparei que os mais pobres e sem abrigo tinham as suas mágoas brevemente esquecidas, por mesas guarnecidas com uma mistura de solidariedade  e hipocrisia. De facto, eles também existem, no Natal!

Quando soarem doze badaladas, as igrejas encher-se-ão de devotos pedindo ao menino Jesus, paz e amor na Terra, para todos, sem excepção.

Afinal, hoje é noite de Natal…

Coincidência ou não olho um televisor, numa sala contígua, e reparo que transmite àquela hora um telejornal.

Lá longe, noutras paragens, nem tudo parece ser igual…

Não há árvores engalanadas com cores cintilantes, estrelas, laços e serpentinas florescentes.

Não há presentes que façam as crianças adormecer madrugada fora aquecidas junto à lareira, com os sonhos a dar azo à sua imaginação. Nem há mesas recheadas com a fartura gulosa dos nossos lares.

Mas é Natal…

Ouço no televisor o som de rajadas, das bombas, explosões e um ruído ensurdecedor. Parece-me um lugar onde a dor, o choro e o sofrimento se misturam com corpos mutilados. Os cadáveres espalham-se pelas ruas empoeiradas, e o sangue quase não se distingue das outras cores.

É lugar onde a morte se intromete com o simbolismo da vida. Centenas de seres, em especial as crianças, desconhecem qual o será o seu destino.

Mas é Natal…

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