Soares é fixe? A História fará o seu julgamento.

Rui Naldinho

soaresSoares foi um personagem controverso, por vezes até polémico. Isso é indesmentível. Mas, ao mesmo tempo, alguém incontornável na história da nossa democracia. Menorizar o seu contributo para a liberdade que hoje desfrutamos como povo, é no mínimo, não ter memória. E um povo sem memória não tem História.
É verdade que Soares foi o grito de liberdade que por vezes se confundiu com a vaidade. O tribuno republicano e maçon, que por vezes se comportou como um monarca. Um bonacheirão que por vezes tinha tiques de arrogância. Mas isso não pode diminuí-lo como o personagem mais importante na construção da nossa democracia.

O carácter de Soares era por vezes errático e as opiniões dividem-se a seu respeito. Há quem veja nele alguém que não olhou a meios para atingir os seus fins, mas também há quem veja nele o pai do regime político no qual ainda hoje vivemos.

Contrariamente aos seus mais fervorosos detractores, eu considero que o seu maior pecado foi o ter “mandado engavetar o socialismo”. Aí, de facto, ele borrou a pintura, e mostrou que tinha uma agenda diferente da que alardeava.

Mas, Mário Soares faz jus a frase de Ortega e Gasset, quando o filósofo espanhol afirmava: “O Homem é ele e a sua circunstância.”

Comecemos pelo princípio da nossa democracia e algumas das situações mais polémicas do percurso do velho antifascista

1Quando chega a Portugal após a revolução de Abril de 74 e toma conta da pasta dos Negócios Estrangeiros, Soares nem ninguém da oposição democrática, estavam minimamente preparados para essa função. Tudo o que possa ser dito para além desta constatação de facto são histórias da carochinha. A política internacional de Salazar tinha sido de um autismo permanente face aos seus parceiros da NATO e OCDE. O “orgulhosamente sós” estava para a ditadura como a unha para o dedo. A condução da política ultramarina tinha sido um desastre completo. O golpe militar foi uma consequência disso mesmo e da forma como os militares se posicionaram, a partir de certa altura do conflito, que se eternizava, perante o Poder. Olhemos pela vertente que quisermos, esbarraríamos sempre num conflito de interesses irresolúvel entre as várias partes. O caso Angolano foi aquele que teve piores consequências.

Numa primeira fase, Salazar temendo que as colónias Africanas se tornem num novo Brasil, limita a ida maciça de brancos para o ultramar. Cria uma série de barreiras à deslocação das gentes da metrópole, com as célebres “cartas de chamada”, que não eram mais do que vistos de autorização de residência nas colónias, mediante a aprovação de alguém que já lá estivesse estabelecido, garantindo emprego ao migrante. Só com o início dos conflitos armados em Angola, e com os primeiros massacres das populações europeias, o ditador se designa a avançar em força com destino a África. Agora passava a ser necessário enviar contingentes maciços de militares recrutados no Continente para defender as Províncias. Os poucos que na altura ali existiam eram insuficientes. A velha sigla do regime vigente, “Angola é nossa”, que se poderia repetir posteriormente para todas as outras possessões, demonstra bem a confusão que ia na cabeça do ditador. Era nossa, mas segundo as regras que ele achava serem as adequadas. Qualquer veleidade autonómica, mesmo da minoria branca, nem pensar. Ainda assim, e muito titubeante, ele foi permitindo alguma emigração continental, com a instalação de alguns colonatos, mas sempre longe das fronteiras e junto do litoral. Só com Marcelo Caetano as coisas mudaram, mas era tarde. Ora, se analisarmos friamente, com política ultramarina seguida até então, a receita para o desastre estava garantida. Qualquer descolonização seria pois muito difícil de ter sucesso. Nomeadamente agradar à minoria branca, que independentemente das questões ideológicas, também tinha sido enganada com a ideia de que estava tudo sob controlo, não tendo tido a oportunidade de se precaver, para a eventualidade de um dia regressar à metrópole. A verdade é que após a revolução dos cravos já não havia “tempo para se negociar com tempo”. O cansaço tinha vencido o pragmatismo. A anarquia no Continente estava instalada. Vir embora e depressa, era a palavra de ordem.

Continuar a culpar Soares pelo fracasso da descolonização, 42 anos depois do descalabro, não me parece uma atitude racional. Já agora, porque não culpar Margaret Thatcher pelos acordos que deram a Independência ao Zimbabwe, e cujos resultados estão à vista de todos? E o General de Gaulle com as independências da Argélia, da Tunísia e de Marrocos? E porque não, a uma boa parte dos brancos, pela forma como exploraram e trataram a maioria negra?

Ou será que esta parte já não interessa?!

Todos os territórios ultramarinos africanos, fossem eles francófonos, anglo-saxónicos ou portugueses, onde a minoria branca teve algum peso económico e social, acabaram todos com processos de descolonizações ou transferências de poder, problemáticas, e com um forte impacto negativo nestas comunidades. Soares sabia que corria o risco de isso acontecer. Sujeitou-se e ficou com a criança nas mãos. Contudo, também foi ele com a ajuda dos norte-americanos que conseguiu, apesar de tudo, minorar esses efeitos devastadores na auto-estima dessa gente, através de medidas de apoio como o IARN, com linhas de financiamento a investimentos diversos. Fomos elogiados por toda a Europa na forma como as sequelas da descolonização acabaram por ficar reduzidas no seio de grande parte da comunidade branca.

2O FAX de Macau foi outra das trapalhadas soaristas que mais brado deu em meados dos anos 90. Era governador de Macau, Carlos Melancia. No negócio de cedência de terrenos para o novo aeroporto da cidade, este terá rendido cerca de 50.000 contos ao PS. Nunca duvidei da veracidade deste episódio pouco abonatório para Soares e para o PS.

Como conheço a China, Macau e Hong Kong minimamente, sei que aquela gente não paga almoços sem nada em troca. E logo num território com uma população excessiva para a sua área geográfica, onde qualquer metro quadrado de terreno vale uma fortuna. Portanto não duvido que isso tenha acontecido. Por exemplo: o Aeroporto de Hong Kong é uma ilha artificial sobre bancos de areia. Foi uma das obras mais caras do planeta, até hoje. Imagino os interesses que ali estiveram em jogo.

É depois desse episódio do aeroporto de Macau que Rui Mateus se predispôs a escrever em livro a história das traições e financiamentos do PS, desde a sua fundação até aquele dia. Quem já leu o livro percebe logo como o PS se movimentava no mundo dos negócios, criando empresas, muitas delas com o fim único de financiar o partido.

3Angola, UNITA e o tráfico de diamantes e de marfim.
“A polémica em torno das acusações das autoridades angolanas segundo as quais Mário Soares e seu filho João Soares seriam dos principais beneficiários do tráfico de diamantes e de marfim levados a cabo pela UNITA de Jonas Savimbi” foi denunciada pelo governo de Angola na imprensa internacional. O acidente de avioneta de João Soares veio criar a expectativa de que esta pequena aeronave estaria carregada de marfim.

A UNITA estava na zona Leste de Angola. Os recursos naturais de Angola estavam nas mãos dos altos dirigentes do MPLA e da família de José Eduardo dos Santos. Savimbi para além do apoio militar e logístico dos sul-africanos, de Marrocos e da Costa do Marfim, estes dois últimos muito reduzidos, só tinha uma forma de angariar receitas em dinheiro vivo. O tráfico de diamantes e marfim. A família Soares terá servido de intermediário nessa actividade.

E isso não é condenável? Sim, com toda a certeza. Quanto mais não fosse por questões de preservação das espécies e do ambiente. Engraçado é uma certa elite que adora caçadas e safaris, em especial em África, se preocupe agora, com os dentes de elefante que João Soares possa ter vendido até a alguns deles, provavelmente.

Eu também sou de opinião que Mário Soares cometeu alguns actos ilícitos e teve comportamentos menos éticos, que num outro país, que não este, configurariam crime. Mas, ainda assim, isso não afectou o nosso PIB, apesar de ser um comportamento condenável passível de punição.

Porém, se eu não desculpo Soares, também não confundo a maré cheia com o tsunami. Nem a Rua dos Caldeireiros com a VCI.

Ver os moralistas desta direita pafiosa que nos últimos vinte anos tanto zurziu nele esquecer-se dos seus crimes de colarinho branco, quando não mesmo de sangue, dá-me náuseas. Ou será que Duarte Lima nunca terá conhecido a viúva de Feteira? A comunicação social até dá uma ajuda, não vá alguém lembrar-se deles.

Desde o início da crise, em 2008, o Estado português já gastou mais de 14 mil milhões de euros em ajudas à banca, esse Olimpo financeiro onde o PSD e mesmo alguns Centristas se instalaram de armas e bagagens há umas décadas. Um número que pode aumentar ainda devido à incerteza quanto à venda do Novo Banco e ao futuro da Caixa Geral de Depósitos, ainda que neste último caso, o PS também esteja no rol dos culpados. Este valor, que se retira de dados do Tribunal de Contas e do Instituto Nacional de Estatística, representa quase 8% do PIB português – e não inclui as ajudas devolvidas por algumas das entidades apoiadas, nem os lucros obtidos com a cobrança de juros.

Que moral tem esta direita para falar de quem quer que seja, quando ela está metida em tudo o que é negócios de monopólio e de rendas excessivas, pagas por todos nós. Eles estão na EDP, na PT, na Luso Ponte, na BRISA, Melo Saúde, nos Vistos Gold, no Imobiliário de Luxo … os tais que gemem por causa de uma sobretaxa no IMI. Pois, foi aí que nidificaram o Isaltino Morais, o Duarte Lima, o Valentim Loureiro, o Filipe Menezes entre muitos outros. Sim, essa gente ajudou a dar cabo do nosso PIB.

Soares pode até nem ser fixe. Mas muito daquilo que se lhe seguiu, boa merda me saiu!

Comments

  1. anónimo says:

    “A História fará o seu julgamento.”
    Que quer dizer esta ideia?
    1
    Que os contemporâneos estão toldados por conflitos de interesse e são incapazes de escrever a história com objectividade e justiça?
    2
    Que não se conhece a obra na totalidade, e que há obra escondida?
    3
    Que as consequências da obra não estão ainda bem visíveis?
    4
    Que as vítimas não têm direito à palavra?


    • Vítimas? Temos pena, Salazar e sus muchachos têm que se aguentar.

      • anónimo says:

        Vítimas que, depois de 40 anos de fascismo, acreditaram na palavra “socialismo”, que foram enganadas e vendidas, escravos do capitalismo.
        Vitimas que acreditaram na “democracia” e que se encontram condicionadas ao fascismo bipartidário, e às imposições da UE.
        Vítimas que acreditaram na humanidade da UE, e que se vêm cercadas por bestas ameaçadoras.
        Vítimas que viram o estado mal gerido, a ser levado à falência por várias vezes, e a pagar as dívidas, com juros impossíveis.
        Vítimas que foram roubadas pelos bancos, e que se vêm obrigadas a resgatar os bancos e a pagar o roubo.
        Vítimas que são constantemente acusadas de ser responsáveis pela dívida nacional.
        Responsáveis sim, por elegerem governantes tão incompetentes e tão corruptos.

  2. martinhopm says:

    Leio este seu ‘post’. Procura um certo equilíbrio, Está bem escrito, com boa argumentação e procura ter um cerfo equilíbrio em relação a Soares. Para mim, 73 anos, reformado pobre, pagador de impostos, após a ‘brilhante reforma’ do ministro Gaspar com língua de palmo, tenho muitas reticências em relação à sua actuação política. Assim, num repente e sem delongas, relembro as suas várias voltas ao mundo à custa do erário público (com que proveitos?), as fundações (2 de Mário + 1 do falecido cônjuge) a sorver dinheiro público e a actuação em 1975, em que se preparava um golpe à semelhança do que tinha acontecido no Chile de Allende. Não terá só defeitos, também virtudes, como qualquer mortal. Teremos que os saber balancear. Concordo em absoluto com o que diz da gente de direita. Não são flor que se cheire e deveriam ser responsabilizados politica e criminalmente. Tal e qual os do PS, envolvidos nas mesmas maroscas.

    • Rui Naldinho says:

      Meu caro
      No que concerne a viagens, a personalidade que mais viajou até nem foi Mário Soares. Foi Cavaco Silva. É um facto que Cavaco foi dez anos Primeiro ministro e dez anos Presidente da República. Ou seja, ele esteve muito maus tempo no Poder do que Soares. Logo, será natural que assim seja. Se Soares foi às Seychelles andar de Tartaruga, e à Costa de Marfim ver os crocodilos no fosso exterior do palácio presidencial de Félix Houphouët-Boigny, qual castelo medieval, a comer as galinhas, que simbolizavam os adversários do líder africano, Cavaco também andou a subir aos coqueiros de S. Tomé e Príncipe…
      Para quem dizia que não era um político profissional, digamos que Cavaco não se ficou “por terra”.
      Mas, ainda assim, eu julgo que a maioria dos portugueses, incluindo você, preferiam pagar algumas viagens a esta gente, mesmo que desnecessárias para a sua função de Estado, a ter de andar a pagar as dívidas de bancos falidos, as PPP’s, as Octopharmas, etc..
      Não há viagens à volta ao mundo que paguem tamanho buraco.

  3. Paulo Só says:

    Soares terá os seus defeitos, como todos temos. Pouco me importa se o Soares pessoalmente tinha caspa ou não. Em Soares, como em Cunhal, eu projeto todos aqueles que 40 anos antes do 25 de abril andavam a lutar contra o salazarismo e a favor da democracia, a custo muitas vezes da própria vida, enquanto os grandes “democratas” do CDS e PSD (com raríssimas excepções), e até dos que hoje estão no PS, estavam todos sentados à manjedoura, ou andavam a matar gente nas colónias como o Spinola e seus ajudantes militares, que depois durante 10 minutos se descobriram grandes democratas..Quem ataca Soares ou ataca a democracia ou deveria atacar a justiça que não funcionou, nem funciona, porque nunca foi saneada e é um reduto de reacionários até hoje.

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