Hoje dá na net: Literatura – Fernando Pessoa

A base de dados Arquivo Pessoa contém, na secção Obra Édita, a maior parte dos textos de Fernando Pessoa publicados até 1997. É muita poesia, com todos os autores que Pessoa também era. Interessa a todos os amantes de poesia, de Pessoa e a todos os alunos de 12º ano.

Provocações – O Essencial é Saber Ver

Sem que desejasse ou procurasse, caiu-me uma provocação nas mãos. Como um bilhete do ‘metro’, onde estou a viajar. Sentado e pensativo, fui enrolando ambos na mão esquerda. O que é minúsculo e insignificante, no fundo, reduz-se a minudências materiais ou imateriais. Facilmente destrutíveis num enrolar de dedos.

No decurso da viagem, o pensamento vazou-me um poema de Pessoa, no heterónimo Alberto Caeiro; aqui declamado por Antônio Abujamra:

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No comboio descendente

Sim Dario, vamos lá de comboio, cantando e rindo, mas levados, levados, não.

Fernando António Nogueira Pessoa

Faz hoje 123 anos que nasceu. O Google lembrou-se, mas apenas para a sua pátria, a língua portuguesa. Tristeza.

Deixo aqui a mais bela homenagem que lhe foi feita, acho eu.

Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos  de Mário Cesariny de Vasconcelos, dito por Mário Viegas

Álvaro de Campos: Soneto já antigo

Não sei porquê, acordei com este poema na cabeça:

Olha, Daisy: quando eu morrer tu hás de
dizer aos meus amigos aí de Londres,
embora não o sintas, que tu escondes
a grande dor da minha morte. Irás de

Londres p’ra Iorque, onde nasceste (dizes…
que eu nada que tu digas acredito),
contar àquele pobre rapazito
que me deu tantas horas tão felizes,

Embora não o saibas, que morri…
mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar,
nada se importará… Depois vai dar

a notícia a essa estranha Cecily
que acreditava que eu seria grande…
Raios partam a vida e quem lá ande!

(Retirado de Fernando Pessoa, um blogue inteiramente dedicado ao poeta)

Aguardam a Sua Chegada na Brumosa Manhã Portuguesa

É um Portugal nebuloso o que temos hoje em dia, cheio de secretas esperanças e de cada vez menos valores. Com a revolução, já lá vão uma quantidade de anos, chegou a democracia nas palavras que depressa desapareceu nos actos (se alguma vez chegou a existir neles), chegou alguma modernidade e um moderado desenvolvimento, subiu temporariamente o nível de vida de uns quantos, com todos a passarem a considerar-se aristocratas e, fruto de inúmeros erros, os critérios das escolhas das chefias baseados na competência foram desaparecendo como que por encanto, substituídos pelo laxismo, facilitismo, pelo grupo político predominante e pelo favorecimento económico.

Desde o tempo do poeta Pessoa que os fantasmas povoam o nosso imaginário, se bem que mesmo antes do primeiro quarto do século passado, seja certo que também eles por cá tenham andado. [Read more…]

A pálida luz da manhã de inverno

A pálida luz da manhã de inverno,
O cais e a razão
Não dão mais ‘sperança, nem menos ‘sperança sequer,
Ao meu coração.
O que tem que ser
Será, quer eu queira que seja ou que não.
No rumor do cais, no bulício do rio
Na rua a acordar
Não há mais sossego, nem menos sossego sequer,
Para o meu ‘sperar.
O que tem que não ser
Algures será, se o pensei; tudo mais é sonhar.

Fernando Pessoa

A máquina do tempo: O fenómeno explosivo dos blogues

 

Segundo informação que colhi na Wikipédia, em 2007 foi rastreada a existência de mais de 112 milhões de blogues. Dois anos depois este número deve ter sido em muito ultrapassado. Caracterizados como uma fonte dinâmica de informação e de entretenimento, são um fenómeno típico dos últimos anos. Para além desta função de informar, de entreter, de permitir o contacto com outras pessoas, já aqui, noutra das minhas crónicas, salientei o carácter catártico deste meio.

 

 Através dele, dizem-se coisas que doutro modo ficariam sepultadas e, quem sabe, a remoer dúvidas e a adensar angústias dentro das cabeças dos bloggers. Com eles faz-se uma catarse que alivia tensões e evita dispendiosas idas ao psicanalista. Provavelmente, ao aliviar essas tensões, os blogues já terão salvo vidas, evitado suicídios (pensando melhor e lendo alguns comentários, talvez tenham provocado outros suicídios, digo eu com o meu feitio pessimista). Porque é preciso alguma contenção e cuidado com as pulsões que se libertam em posts e comentários. Algumas, transformam-se em rottweilers à solta e sem açaimo…

 

A propósito desta nova maneira de comunicar, Clara Ferreira Alves escreveu, estas linhas no Diário Digital, aqui já citadas pelo Arrebenta: “A blogosfera é um saco de gatos que mistura o óptimo com o rasca e acabou por tornar-se um prolongamento do magistério da opinião nos jornais. Num qualquer blogger existe e vegeta um colunista ambicioso ou desempregado ou um mero espírito ocioso e rancoroso. Dantes, a pior desta gente praticava o onanismo literário e escrevia maus versos para a gaveta, agora publicam-se as ejaculações. Mas, sem querer estar aqui a analisar a blogosfera e as suas implicações, nem a evidente vantagem dessa existência e da qualidade e liberdade que revela por vezes, destituindo do seu posto informativo os jornais e televisões aprisionados em formatos e vícios, o resíduo principal de tudo isto é que os jornais mudaram, e muito, e mudaram muito rapidamente. Parafraseando Pessoa na hora da morte, We know not what tomorrow will bring.

 

Reconhece-se alguma razão ao que Clara Ferreira Alves diz – os blogues transformaram-se em receptáculos de prosas absolutamente impensáveis – a iliteracia, a ignorância, o facciosismo desbragado (político, futebolístico e não só), tudo é acolhido nos blogues com o mesmo estatuto que peças interessantes e culturalmente válidas. Qualquer anormal se sente no direito de dar vazão aos sentimentos mais primários, à obscenidade sem limites, à mais ordinária incontinência verbal.

 

Tudo cabe nos blogues. Na blogosfera, liberdade é igual a impunidade. Nestas condições, de facto, separar o óptimo do rasca, não é fácil (mesmo dentro de um texto, seja ele da Clara Ferreira Alves ou do Arrebenta). Embora esse seja um problema que não afecta somente os colaboradores dos blogues, reconhece-se que neste meio ele assume uma maior acuidade.

 

Há diversos tipos de bloggers – serão muitos os tais colunistas desempregados – e aproveito para perguntar à Clara que usa o termo num estranho sentido pejorativo – É crime estar desempregado? Quantos jornalistas ou colunistas desempregados não são mais dignos do que aqueles que mantêm os empregos à custa de sabujice, de amigos bem colocados junto das administrações, de favores sexuais, de se apostar nas teses mais convenientes, de se manter o silêncio sobre temas importantes, e fazer berraria por irrelevâncias  e por aí fora – esses «colunistas desempregados» escrevem muita vez com um sentido de responsabilidade que nem todos os colaboradores dos jornais demonstram. Porque, sobretudo no jornalismo, estar empregado, nem sempre é um mérito. Fechar parêntesis.

 

Há também os bloggers ignorantes, estúpidos e analfabetos que aproveitam a blogosfera para vomitar insultos e obscenidades que, ditas em qualquer recinto público, dariam direito a prisão imediata. A questão é – não podemos exterminá-los – como impedi-los de aparecer com os seus comentários piratas? A blogosfera é livre e isso é bom enquanto todos os bloggers se comportarem de forma civilizada. Oxalá a irresponsabilidade de imbecis, que só com muito boa vontade podem ser considerados gente, não obrigue a criar regras sem as quais até agora se tem vivido perfeitamente.

 

O blogger não tem de respeitar as ideias dos outros (as ideias fizeram-se para ser desrespeitadas, debatidas, rebatidas e, se necessário, abatidas); mas deve respeitar sempre quem expende essas ideias com que não concorda. A isto se de deve resumir o código deontológico de quem colabora em blogues. É lícito desrespeitar ideias com que se não concorda, por mais sagradas que sejam para outros. Todavia, tem de se respeitar os outros, mesmo que sejam os defensores de ideias que nos parecem absurdas.

 

 É tão simples, não é?

 

 

A máquina do tempo: é a arte necessária?

 

 

 

 

 

Prometeu trazendo o fogo do Olimpo para a terra ou Orfeu enfeitiçando a natureza, homens, animais e plantas, com o seu canto melodioso. Tal como Prometeu, o artista é um ladrão de fogo, um mago. Pelo poder da palavra, pela magia da cor, pelo sortilégio do som, cria a beleza para a ofertar aos homens. E produz esta magia usando as mesmas palavras que se utilizam, no dia a dia, para comprar pão, as mesmas cores com que se pintam muros e os mesmos sons que ecoam por campos e cidades. É o poder mágico do homem sobre a natureza hostil que o rodeia, transformando-a, adaptando-a a si. Humanizando-a. E como? Pelo poder da palavra, pela magia da arte. Por isso, enquanto a própria humanidade não morrer, a arte não morrerá. Esta, a natureza da arte, é uma discussão tão antiga quanto a civilização. Platão, Aristóteles, milhares de filósofos e de poetas discorreram longa e sabiamente sobre este tema. Não vou entrar por aí – o GPS da minha máquina não funciona em labirintos.

 

 

Por isso, a nossa viagem de hoje não nos levará para tão longe. Mais recentemente, nos anos 60 do século XX, num trabalho com o título «A Necessidade da Arte», Ernst Fischer (1899-1972), o ensaísta austríaco,  dizia que «a arte é ela própria uma realidade social. A sociedade necessita do artista, esse supremo feiticeiro, e tem o direito de lhe pedir que tenha consciência da sua função social.» Na verdade, com o advento do capitalismo, surge pela primeira vez na história das civilizações uma classe dominante que não procura colocar, de uma maneira objectiva, a arte ao seu serviço. Pela primeira vez, o artista é livre de qualquer tutela e fica desvinculado das suas obrigações para com a comunidade de que faz parte.

 

Naturalmente que esta desmedida liberdade, longe do o libertar no sentido mais nobre da palavra, o sujeita a uma terrível tirania – à solidão, à angústia e ao desespero. Em alternativa, à submissão. É uma liberdade que, em última instância, o força a enfrentar sozinho toda uma sociedade orientada para o lucro. Das duas uma: ou o que produz é mercadoria vendível ou é rejeitado. Rectifico, portanto: o capitalismo não dá liberdade ao artista – abandona-o, rejeita-o, ignora-o. Dá-lhe a liberdade de aceitar as suas leis ou de não existir.

Voltemos a Fischer: «O artista na época do capitalismo encontrou-se numa situação muito peculiar. O rei Midas transformava tudo o que tocava em ouro: o capitalismo transformou tudo em mercadoria.» A arte passou, pois, a ser uma mercadoria e o artista um produtor. O sistema de mecenato foi substituído por um método de iniciativa privada e por um mercado livre onde a apreciação mercantil da obra ficou à mercê do gosto do público, gosto (de)formado por toda uma dinâmica de relações de mercado. Digamos que um livro, um quadro, uma partitura, têm de submeter-se às contingências da competição mercantil, às leis da oferta e da procura.

Fernão Lopes, Gil Vicente, Camões, viviam de tenças, de sinecuras ou de cargos atribuídos pela Corte. Shakespeare, ainda que burguês de origem, fazia parte da casa do conde de Leicester, submetendo-se a um estatuto feudal. Milton, que foi secretário dos negócios estrangeiros de Cromwell pôde guiar-se por uma norma burguesa, conciliando a sua poesia com as condições em que a criava, com uma total identificação entre a sua obra e as suas concepções políticas e sociais. Também manda a verdade que se diga que os artistas raramente foram gratos a quem os apoiava. Como disse Montesquieu «quase todas as monarquias foram instituídas na ignorância das artes e destruídas porque as cultivaram demais.» Por vezes a arte foi a víbora que tiranos distraídos alimentaram e que os veio a destruir.

Mas então não é um avanço o facto do artista poder criar a sua obra sem ter de agradar aos mecenas, ao rei, a senhores feudais, a burgueses ou ao Estado? Num certo aspecto,  é verdade. Porém, não esqueçamos que agora é a opinião pública que ajuíza do valor da sua obra. E como é formada (ou deformada) essa opinião? Por pedagogos, por gente de cultura? Não. Os chamados opinion makers são, em regra gente ou inculta ou desonesta, frequentemente as duas coisas. O «gosto popular» é formado pela imprensa – tablóides, revistas do coração – pela televisão, da forma que se sabe – telenovelas, reality shows, talk shows e toda essa tralha que nada tem a ver com a cultura. Em suma – o «gosto popular» é construído pelo marketing. No que se refere ao vestuário, à alimentação, a tudo – e também aos hábitos culturais.

Vejamos a literatura. A síndrome de Dan Brown leva a que se produzam em catadupa romances com a dimensão de tijolos competindo em acção e intriga, em teorias da conspiração e teses esotéricas com as séries televisivas e com os filmes de Hollywood. É este tipo de literatura que mais se consome. Está nas grandes superfícies a par com os iogurtes que regulam o trânsito intestinal, com os cereais que mantêm a linha, com o pão tipo esferovite, com as bebidas à base de aditivos… Terão estes livros alguma coisa a ver com arte? Acho que não. Mas têm tudo a ver com as necessidades do mercado.

Saramago, um bom e prestigiado escritor, recorre ao marketing para vender. O que vende milhares de livros seus não é apenas a inegável qualidade da sua escrita, mas a habilidade com que a promoção das suas obras é feita. Atente-se no exemplo recente de «Caim». As declarações que o Nobel produziu em entrevistas sobre a Bíblia são bem mais agressivas do que o livro propriamente dito que se limita a recontar uma história bíblica, virando-a do avesso, mas levando-a a sério. Resultado: a Igreja Católica, mesmo antes de ler o texto, saltou encolerizada, a polémica instalou-se, o livro vende-se a bom ritmo. Ontem, no décimo dia após o lançamento, esgotou-se a 4ª edição – 80 mil exemplares vendidos. É Saramago igual a José Rodrigues dos Santos ou a Margarida Rebelo Pinto? Claro que não. É um bom escritor. Mas numa coisa são iguais –  estão submetidos às leis do mercado, são tutelados pelas regras do marketing.

Dirão, «mas então uma das funções da arte não é precisamente a de entreter, a de distrair? Antes da escrita, quem contava histórias nas cavernas ou as pintava na rocha, não correspondia, nesse esforço de recrear, aos artistas actuais? Sim, uma dos objectivos  da arte será esse. Mas há um outro, mais importante – que é o de chamar a atenção para os problemas do ser humano e da humanidade – «abrir portas fechadas». Voltemos então a Ernst Fisc
he
r.

Criar de acordo com o que o mercado pede é, como disse Fischer, «passar por portas abertas»: «A função da arte não é a de passar por portas abertas, mas é a de abrir as portas fechadas. A cultura deve ser compreendida como todas as formas de expressão artística e todo o património material é simbólico da sociedade. Esse conjunto é fundamental para a nossa memória e identidade. Quando se promove oportunidade para que todos os grupos, inclusive as minorias, se exprimam culturalmente, fomenta-se o respeito pela diversidade. Assim, a cultura constitui-se como um veículo eficaz de promoção da paz, da cidadania, da coesão nacional». 

Quando o artista trabalha exclusivamente com a preocupação do mercado está a trair a arte. Pessoa escreveu os seus maravilhosos textos não para o mercado, mas para o baú onde os ia arrumando. Os anos 20 e 30 do século XX não estavam preparados para os receber. Morreu apenas tendo publicado o livro menor que foi a «Mensagem». Suspeito de que tinha consciência da sua grandeza. E, se assim foi, mais difícil lhe terá sido não ter destinatários para essa grandeza, gente que o lesse, críticos, leitores… Público, numa palavra.

*

Fischer salienta o carácter mágico da arte. Se for desprovida da magia que provém da sua natureza original, segundo ele, a arte deixa de ser arte. A arte tem a idade do homem e o homem foi, desde a sua origem e face à hostilidade da natureza, um mago. A magia da criação da ferramenta transforma um primata superior num homem. O homem produziu a magia que deu lugar à humanidade. É um produto de si mesmo. Só inventou deuses porque não entendia nem os mecanismos, nem o poder da sua própria magia. Não entendia também a natureza sobre a qual exercia essa magia. E precisava de explicar tudo isso. E a sua magia criou também os deuses e a lenda de que tinham sido os deuses a criar o homem.

A mão precedeu o cérebro no desvendar dos mistérios. A agilidade da mão fabricou o utensílio: mão e utensílio passaram a ser indissolúveis. Por isso disse aqui há dias que «no princípio era o trabalho». O homem primitivo não distinguia a sua actividade do objectivo que a determinava – actividade e objectivo formavam uma unidade. A abstracção veio depois com o advento da palavra. E a palavra veio substituir a magia. Transformou-se ela própria em magia. Os homens eram todos magos. Com a palavra consolidou-se o salto entre animal e ser humano.

Com a palavra nasceu a poesia, como referi num texto em que falei de George Thomson e do seu estudo sobre a origem e a evolução da poesia. Foi-me chamada a atenção para a antiguidade do texto de Thomson (e a primeira edição do texto de Fischer remonta já aos anos 60). As deduções que estabeleço não se baseiam nas últimas descobertas da antropologia, é um facto. Mas não é o estar em dia nessa informação que me preocupa. Há reflexões de Aristóteles que continuam a ser pertinentes. E ele não via a «National Geographic»…

Esta é precisamente um das maiores funções da literatura e arte contemporânea. Finalmente, o homem que se tornou homem pelo trabalho, que superou os limites da animalidade transformando o natural em artificial, o homem que se tornou um mágico, o criador da realidade social, será sempre o mágico supremo.  A arte, em todas as suas formas, era uma actividade comum a todos e elevando todos os homens acima do mundo animal. Mesmo muito tempo depois da quebra da comunidade primitiva e da sua substituição por uma sociedade dividida em classes, a arte não perdeu seu carácter colectivo. Somente a verdadeira e autêntica arte consegue recriar a unidade entre o singular e o universal. Somente a arte consegue elevar o homem de um estado fragmentado a um estado de ser íntegral, total. A arte é uma realidade social.

 

Embora não tenha consciência disso, a sociedade necessita do artista e da arte É a arte, entendida nos seus múltiplos aspectos, que leva o homem a compreender a realidade, e mais , a suportá-la e, até a transformá-la, tornando-a mais humana. A arte é indispensável. Sem ela a humanidade fica amputada e confinada à sua animalidade. Sem arte não há humanidade. Poderá haver robôs ou produtos da engenharia genética. Mas já não serão homens.  

Enquanto houver seres humanos, a arte não morrerá.

 

 

 

A máquina do tempo: canções de beber (de Omar Khayyam a Fernando Pessoa)

 

Vamos a uma viagem pelo território de Baco. Entre dornas e jarros de tinto, passaremos pela Pérsia dos séculos XI e XII da era cristã e viremos depois até Lisboa, em Setembro de 1935.

                        Vinho! O meu coração enfermo quer este remédio!

                        Vinho de perfume almiscarado! Vinho cor de rosas!

                        Vinho, para extinguir o incêndio da minha tristeza!

                        Vinho e o teu alaúde de cordas de seda, ó minha bem-amada!

 São versos de Omar Khayyam. Ainda hoje na poesia popular do Irão se usa uma forma arcaica de rima – os rubai e os rubayat – o rubai pode ter a rima a a a a ou a a b a ou a a b b, ou seja poemas de dois versos com dois hemistíquios, que são as metades ou partes de um verso, em particular de um alexandrino. O rubayat possui uma forma de métrica quantitativa inusual na poesia árabe, medindo-se a quarteta com a quantidade de sílabas e não com a quantidade de sílabas curtas e longas. Foi seguindo estes cânones que Omar Khayyam (1048-1132), mestre da chamada quadra persa, escreveu a sua sumptuosa poesia.

 

Omar Khayyam nasceu em Nichapur, no actual território do Irão. O seu nome completo era Gheyas ad-Din Abu ol-Fath Umar Ibrahim ol-Khayymi. O último nome significa «fabricante de tendas», que era o ofício de seu pai. Não foi a poesia que o celebrizou, mas sim a matemática, pois foi autor de um tratado sobre equações do 3º grau – as «Demonstrações de problemas de al-jahr e al-Muqabalah», – obra que integra uma classificação de equações. Para cada tipo de equação do 3º grau, Khayyam aponta uma construção geométrica de raízes. Procurando provar o 5º postulado de Euclides, reconheceu a relação entre este postulado e a soma dos ângulos do quadrilátero e, consequentemente, do triângulo.

Além de matemático e poeta, Khayyam foi astrónomo e filósofo. Ouçam só este rubai, traduzido directamente do persa para o português por Halima Naimova, investigadora luso – russa da Biblioteca Nacional:

                        É madrugada. Levanta-te, ó essência de deleite!

                        Bebe suavemente, tocando a harpa.

                        Deixa aqueles que estão adormecidos. Eles não encontrarão a verdade.

                        Deixa aqueles que foram. Eles nunca voltarão.

Foi, pois, com o rigor do matemático e com a visão ampla do astrónomo que construiu os seus rubai e rubayat. E a prodigiosa fantasia com que vestia a filosófica estrutura da sua poesia? Essa, talvez lhe fosse dada pelo vinho. Sim, pelo, vinho. Bom maometano, Khayyam gostava de beber. E não se trata de uma infracção, porque, segundo julgo saber, o profeta apenas proibiu o vinho de tâmara e foram os homens da estrutura clerical do Islão que tornaram a proibição extensiva a todas as bebidas alcoólicas. Perguntava, retoricamente, o poeta: «O que será preferível? Sentarmo-nos numa taberna e em seguida fazermos um exame de consciência, ou prosternarmo-nos numa mesquita com a alma fechada?». E disse também: «Bebe vinho! Receberás uma vida eterna. O vinho é o único elixir que te pode devolver a juventude. Divina estação das rosas – vinho e amigos sinceros! Frui este fugitivo instante que a vida é.»

Fernando Pessoa estudou a fundo a obra de Omar Khayyam. E escreveu rubai e rubayat. Foi a investigadora da Faculdade de Letras de Lisboa, Professora Maria Aliete Galhoz quem recuperou esses rubai e rubayat, quase todos inéditos 44 (entre éditos e inéditos), e os reuniu num livro (ilustrado por Eurico Gonçalves) que publicou em 1997 , «Canções de Beber na Obra de Fernando Pessoa». Ouçamos um rubai de Pessoa. Tem um verso incompleto, pois é um manuscrito datado de 12 de Setembro de 1935 e o poeta morreu em 30 de Novembro desse ano. Escolhi-o por ser belo e por, incompleto, nos lembrar a transitoriedade da vida:

            Não me digas mais nada. O resto é vida.

            Sob onde a uva está amadurecida

            moram os meus sonos, que não querem nada.

            Que é o mundo? Uma ilusão vista e sentida.

 

            Sob os ramos que falam com o vento,

            inerte, abdico do meu pensamento.

            Tenho esta hora e o ócio que está nela.

            Levem o mundo: deixem-me o momento!

 

            Se vens, esguia e bela, deitar vinho

            em meu copo vazio, eu, mesquinho

            ante o que sonho, morto te agradeço

            que não sou para mim mais que um vizinho.

 

            Quando a jarra que trazes aparece

            sobre o meu ombro e a sua curva desce

             a deitar vinho, sonho-te, e, sem ver-te,

            por teu braço teu corpo me apetece.

           

            Não digas nada que tu creias. Fala

            como a cigarra canta. Nada iguala

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