Lettres de Paris #28


Éclairage Intime*

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Hoje também não há fotografias, a não ser uma que tirei noutro dia qualquer ao meu cinema em Paris. O meu cinema em Paris é o Le Champo, na esquina da Rue des Écoles com a Rue Champollion. É um cinema antigo, com o cognome de Espace Jacques Tati a Paris. Comprei um cartão com 10 sessões logo nos primeiros dias que cheguei a Paris. Passo lá praticamente todos os dias quando vou para o Ladyss. Apresentam ciclos de cinema sobretudo. E filmes antigos, alguns dos quais nunca tive oportunidade de ver. Assim, tal como adotei um café – O Le Saint-André, aqui mesmo à esquina da Rue Suger, adotei um cinema. Creio ter também adotado uma livraria, a Compagnie, igualmente na Rue des Écoles, mas disso não tenho tanta certeza.
 
Fui almoçar com a Fabienne, uma francesa que conheci há uns meses em Aveiro, por causa de uns projetos financiados pelo Centre Nationale de la Recherche Scientifique (CNRS). É antropóloga, fala português e é simpática. Faz algumas coisas de que tenho uma pontinha de inveja… do tipo dar algumas aulas no Musée do Quai Branly. Fomos almoçar ao Fourmi Ailée. Aliás, foi ela que me tinha falado nisso, quando combinámos por couriel este almoço. Foi um almoço simpático, tal como ela é simpática. Falámos em português e soube-me bem. Perguntou-me que tal me estava a tratar Paris, disse-lhe que très bien e é absolutamente verdade. Falámos de tudo e um par de botas e também, como é evidente, de trabalho, apesar de eu não estar aqui para desenvolver nada com ela. Mas nunca se sabe, como é evidente.
 

A seguir fui para o Ladyss onde não estava – que surpresa – praticamente ninguém. Na minha sala, nem uma alma. Fiquei lá até quase às 8 horas. Bebi um café quando saí, na Boulangerie da Rue des Écoles e pensei em ir ao cinema. Tinha visto que o Le Champo passava às 19h50 o filme de Ivan Passer, de que nunca vi nada, um realizador da nouvelle vague Checa que se exilou nos Estados Unidos em 1968, após a Primavera de Praga. Aliás, o filme – Éclairage Intime – foi realizado em 1965 e proibido durante várias décadas na ex-Checoslováquia. O filme é magnífico. A sala estava quase cheia, aliás, de muitos jovens, acrescente-se. É um filme maravilhoso sobre absolutamente nada. A câmara acompanha as deambulações dos atores, que na sua maioria não são atores sequer. Quer dizer, o filme tem um argumento, mas é tão natural como se a câmara passeasse com os atores. E o argumento é basicamente sobre coisa nenhuma, dois dias em que dois amigos visitam outro amigo, que vive no campo, numa casa de família, com a mulher, os 3 filhos e os pais. Ah e são todos ou quase todos músicos. Mas nada há de substancial no filme, em termos de argumento, e é, como disse já maravilhoso. Não se percebe sequer, como é que este filme sobre coisa nenhuma foi proibido durante o regime comunista. Va savoir!
 
Antes do filme começar aparece um homem jovem na sala, agarra num microfone e fala um pouco do filme. Desconhecia que esta sessão ia ter esta introdução. Achei genial. E mais ainda quando ele diz (e umas senhoras começam a distribuir umas senhas) que só por termos vindo à sessão estamos convidados para o Centro da Cultura Checa, em Paris, onde um especialista em cinema checo vai promover um debate em torno do filme e onde, a seguir, haverá jazz. Temos direito a isto tudo e ainda a uma cerveja checa, aboslutamente gratuita. Percebo que o homem faz parte da Malavida Films, uma editora/distribuidora de filmes. O debate de que ele fala será a seguir ao filme.
 
Decido logo que não vou. Não jantei ainda e o filme acabará às nove e meia. Decido que não vou, mas registo esta surpresa e prometo a mim mesma que da próxima vez irei, independentemente de ter jantado ou não, antes. No fim do filme, aparece o tal especialista em cinema checo que nos fala, logo ali, na sala 2 do Le Champo, do filme. Quando saio do cinema, uma das senhoras que andou a distribuir os pequenos convites pergunta se não vou ao debate. Digo que hoje não. Fiquei ainda, com mais pena. Deveria ter ido. Em Paris estas coisas parece que acontecem a toda a hora. Vou ter, terei certamente, outras oportunidades e o que me interessa verdadeiramente – não estudo cinema, só gosto de cinema – são os filmes e não os debates acerca dele. Pronto, o jazz era também tentador, é verdade. Mas também há imensos concertos por aqui. Ainda amanhã, ou hoje melhor dizendo, o Dave Douglas toca em Antony, no festival Place au Jazz. É a mais ou menos 25 minutos daqui, no Rer B. Talvez lá vá. Também toca segunda feira no Sunside/Sunset, muito perto daqui, mas os bilhetes são mais caros e o lugar é minúsculo.
 
É isto que me fascina sobretudo em Paris. Esta diversidade de ofertas culturais, esta diversidade toda. Habituada que estou a viver há 26 anos em Aveiro, onde raramente se passa alguma coisa para além de blockbusters para pipocas, esta diversidade é alucinante. Ter coisas – mil coisas – por onde escolher todos os dias! Ça c’est génial! Todos os dias se consulto os cinemas, ou os sites dos museus, ou o Paris Jazz, para dizer apenas alguns, tenho a mesma ‘éclairage intime’ que quando ando pelas ruas de Paris, especialmente pelas do Quartier Latin: esta cidade trata-me bem. E eu… j’aime bien Paris.
 
* Aqui, o trailer de Éclairage Intime

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