Lettres de Paris #27


Marie, agricultrice, et son choix de ne pas se moderniser

Hoje não há fotografias, só uma de uma placa à entrada do portão do 105 (que é também o 101, onde se encontrava a placa) Boulevard Raspail, onde fica a École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS). Por momentos e por ignorância pensei que a placa dissesse respeito exatamente aos estudos das ciências sociais, de um tempo passado e agradou-me logo aquilo dos ‘êtres organisés’. Claro que depois reparei melhor na placa e já não me pareceu tanto que tivesse a ver com as ciências sociais. Tem e não tem, afinal. Parece que antes de ser criada, em França, na Sorbonne, em 1888*, a ‘chaire’ se iria chamar Philosophie Biologique, mas por razões de designações científicas acabou por se chamar Évolution des Êtres Organisés e, claro, diz mais respeito às chamadas ciências da vida. Mas já não estamos em 1888 e sabemos já que embora sejamos êtres organisés biologiquement, somos igualmente êtres organisés socialment e que as duas dimensões, pelo menos, se entrecruzam de maneiras intrincadas e difíceis de separar.
 
Estava diante da placa ainda não eram 10 da manhã, imagine-se. Levantei-me antes das 8 e meia na Rue Suger. Porque tinha de estar na EHESS às 10 da manhã exatamente. Mas também porque aparentemente vão fazer obras no prédio em frente, e a rua é demasiado estreita, e hoje os homens a montarem os andaimes, parece que estavam dentro do meu estúdio. Impossível dormir portanto, de manhã. Adivinho já dias turbulentos, se as obras durarem muito. Seja como for, ali estava eu, hoje de manhã diante da placa da ‘Chaire’ de ‘Évolution des Êtres Organisés’. Fui assistir a um dos seminários ‘Ruralités Contemporaines’, organizados na EHESS por um grupo de cientistas sociais ‘ruralistes’ franceses. O seminário de hoje consistia na apresentação de um filme-documentário – ‘Marie, un engagement paysan’** – e da discussão em torno do que ele nos mostra. Os realizadores, Daniel Blanvillain et Alain Barthot, estavam presentes, assim como Marie, a pequena agricultora e produtora de queijo (especialmente de ovelha), com 4 vacas e 40 ovelhas, da região do Bourbonnais. As vacas e as ovelhas não estavam presentes, naturalmente. Estava lá também ‘du monde’, quero dizer umas 40 pessoas quase, todas mais velhas que eu, à exceção de uns 5 ou 6 estudantes. Estava lá um monte de gente de quem li muitas coisas: Bernadette Lizet, encantadora, Françoise Dubost, Aline Brochot (claro)… e uns quantos mais… um mundo de gente, portanto.
 

O filme suscitou um intenso debate (o seminário terminou já depois da 1h da tarde, sendo que o documentário tem apenas 33 minutos) sobre o que é a petite paysannerie aujourd’hui, sobre afinal ser possível ser pequeno agricultor num mundo de agricultura globalizada e produtivista, sobre os petits paysans e o seu papel na manutenção das paisagens e das tradições, ainda que com inovação… mas tudo isto com uma elevação e profundidade que há muito tempo não tinha o prazer de escutar. Os franceses ‘ruralistes’ sabem muitíssimo bem o que fazem, é pena, repito o que disse já de outras vezes, que raramente ouçamos falar deles fora de França, c’est a dire, temos de procurar em francês, é evidente.
 
A Marie, uma mulher independente que, sozinha, deixou o seu emprego de professora, comprou uma pequena exploração e os animais e começou a fazer queijo que vende nos mercados locais. Vive sozinha, na montanha, tem dois ou três vizinhos, também pequenos agricultores (de notar que a pequena agricultura em França não é como a pequena agricultura em Portugal: a Marie, por exemplo, tem 17 hectares. Em Portugal, no norte e centro, é evidente, a dimensão média das explorações deve andar à volta de 6 ou 7 hectares, sendo que na generalidade as propriedades são extraordinariamente fragmentadas). Claro que é tudo relativo ao contexto onde nos encontramos e claro que a Marie se fosse pequena agricultora em Portugal, com 5 ou 6 hectares repartidos por várias propriedades teria mais dificuldades em levar a sua vida de agricultora adiante. Não seria impossível, como se sabe, mas seria mais difícil. Trata ela da maior parte dos assuntos da quinta. Tem um plano económico e uma contabilidade bem organizada. mais uma diferença face à generalidade dos nossos pequenos agricultores. Tem um plano. Ponto. Ou tinha, quando há 10 anos, ainda ela não tinha 40, resolveu comprar a exploração. Teve dúvidas e quis desistir, diz-nos. Mas foi adiante, reformulou planos. Diz que ama os seus animais e não quer modernizar-se. Diz que vive bem assim, lá nas montanhas com as suas 4 vacas (que agora, 2 anos passados sobre o momento de fim do documentário, são 7) e com as suas 40 ovelhas (que agora são 60). Tem gatos e cães. E a paisagem toda só dela. Conduz uma carrinha e um trator. Faz os trabalhos pesados. Já teve várias tendinites e distensões musculares. Não quer modernizar-se. Nem vender o queijo mais caro. Disse que não quer ser uma agricultora pobre a produzir para os muito ricos. Nem produzir mais do que produz agora. Consegue, pagar as dívidas com os empréstimos que contraiu, tirar aproximadamente 2000 euros de salário mensal. Daí tira também o dinheiro para investir em pequenas melhorias. Não me pareceu infeliz, a Marie.
 
Não quis, eu, intervir no debate sobre as petites paysanneries e as diferenças entre a França e Portugal e blablabla. Primeiro porque (salvo a Aline) ninguém ali sabia que eu era portuguesa e depois porque o meu francês não é assim tão bom que me permita ter um debate destes a sério. Foi só quando se falou na difusão do filme que decidi, malgré mon français, intervir. Perguntei – explicando que era portuguesa e que teria gosto em mostrar o filme aos meus alunos numa ou duas disciplinas, ou até em organizar um seminário sobre o mesmo – se o filme não poderia ter legendas noutra língua, até no sentido da sua maior difusão. Primeiro olharam todos para mim com um ar de quem nunca tinha pensado na necessidade de legendar o filme noutra língua. Uma senhora ao meu lado disse mesmo: ‘ah nunca pensaram nisso. C’est la France!’. A seguir concordaram que era importante traduzir e legendar o filme e, isto já durante o almoço, puseram-se a indagar quem poderia fazer a tradução para a legendagem. ‘C’est la France’. A outra coisa que perguntei foi se era possível ter acesso ao filme. Que sim, que bastava escrever um ‘couriel’ (courrier elétronique, bien sûr, c’est la France, ils disent pas email, ils disent couriel) ao realizador e mandavam-me o filme por webtransfer (webtransfer disseram em inglês).
 
No fim da sessão fui pedir o email (perdão, o couriel) ao realizador Daniel, enquanto o realizador Alain me perguntava onde ensinava eu au Portugal. Disse que em Aveiro e o rosto dele iluminou-se. Tem um cunhado na Murtosa, vejam bem! Le monde est trop petit, en fait. Fomos todos (pelo menos uns 20) almoçar. Uma animação e um manancial de comida, pesadíssima, que ainda estou a digerir neste momento, várias horas depois. Os empregados do Chez Marcel ficaram entusiasmados por eu ser portuguesa e disseram ‘muito obrigada’. Um deles disse que adorava ‘bacalhau à brás’ e deu ali a receita diante de todos. O outro acrescentou que a concierge dele era portuguesa. Olha que novidade.
 
A seguir ao almoço apanhei de novo o metro, mas desta vez em Notre-Dame-des-Champs, nome adequadíssimo à minha manhã, e bem bonito já agora, e saí aos pés da Rue des Carmes, que subi até à Rue Valette. Trabalhei muito devagar, porque estava a digerir o gigantesco almoço. Como disse, ainda estou a digeri-lo e é 1 e meia da manhã. A seguir passei pela livraria Compagnie, na Rue des Écoles, e trouxe o livro que estava encomendado: ‘Paris vue et vécu par les écrivains’. Já estive a ler algumas partes. Acho que vou começar a fazer o ‘percurso’ de alguns deles. Bom, farto-me – ainda hoje – de fazer os percursos da Beauvoir e do Sartre. Passar pelos sítios onde eles andaram, nas mesmas ruas, vendo as mesmas coisas. Quer dizer, não as mesmas, mas as coisas que tomaram o lugar dessas outras que eles viam, nas ruas e cafés por onde passavam e onde, muitas vezes, trabalhavam. Quer dizer, mesmo que ainda sejam as mesmas, essas coisas que eles viam, hoje são já diferentes porque se instituiram como as coisas que eles viam ou faziam (no café Les deux Magots, por exemplo, há pequenas placas a indicar o sítio onde eles se sentavam a trabalhar) e são mais uma das ‘amenidades’ consumíveis de Paris. Não quero saber, hei-de seguir o rasto de Hemingway, podem ter a certeza. E o do Prèvert. E o do Modiano. Suponho que as cidades não tenham escolha, no que toca à modernização, ou tenham menos que a Marie, no meio das verdes paisagens Bourbonnaises, das 7 vacas e das 60 ovelhas.
 
*a descrição do processo de criação do curso aqui: http://www.persee.fr/doc/bmsap_0301-8644_1888_num_11_1_5388
 
** uma descrição do filme (visto que não há trailer disponível, aqui: http://cameradeschamps.free.fr/Cameras%20des%20Champs/Les%20ressources%20doc/marie,unengageme.html

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