Lettres de Paris #20


«Bonsoir à ma sociologue préférée…»

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disse a Julie, a rapariga da Bourgogne, mal entrei no café Le Saint-André para jantar, esta noite. Ainda lhe perguntei se conhecia assim tantas sociólogas… mas ela riu-se e perguntou-me o que queria comer. Passado um bocado, já tinha a comida à frente, passou por mim e perguntou-me se o trabalho estava a correr bem e quanto tempo mais iria ficar em Paris. Aproveitei e perguntei-lhe o nome. Julie. Perguntou-me o meu. Formalmente apresentadas, portanto, apesar de já termos conversado algumas vezes. Não a via desde sábado à hora do almoço, quando eu e o André fomos lá beber um café e um ‘verre d’eau’. Não sei se trabalha todos os dias, terá seguramente algumas folgas, mas seja como for eu não janto fora todas as noites. A maior parte delas faço alguma coisa na minha mini-cozinha. Ou como o meu prato preferido: queijo e baguette estaladiça. Ou preparo uma salada. Qualquer coisa deste género. Mas de vez em quando apetece-me uma coisa mais substancial e vou ao Saint-André. Não vou lá sempre, mas vou lá a maior parte das vezes que decido ir comer fora. A comida é boa. E não é exageradamente cara, comparando com outros sítios onde a comida não é nada de especial. Além disso tem a Julie que acha a sociologia uma coisa genial e o empregado simpático que fala comigo em português do Brasil com sotaque francês. ‘Bouua noitche’ diz-me quando me vê entrar ou apenas passar em frente ao café.
 

Sou uma pessoa de hábitos, embora talvez não pareça porque gosto também de mudar de sítio e de andar de um lado para o outro. Mas gosto de ter as minhas rotinas, os meus sítios, fazer as coisas de um certo modo. Quando acontece passar mais de uma semana fora do meu quotidiano, arranjo hábitos, mesmo sem querer. Encontro um sítio para comer que passa a ser meu. Outro para beber café (pode ser o mesmo) e passa a ser também meu. Encontro os meus lugares, as minhas coisas. Creio que faz parte de uma tentativa de me adaptar aos lugares onde passarei algum tempo. Pelo menos para ter a ilusão de que ali pertenço. Aqui tenho também os meus percursos diários para ir para o Ladyss. São dois ou três, para ir variando. Já quase que os podia fazer de olhos fechados, não fora o medo de escorregar nos passeios molhados de chuva, com as folhas caídas das árvores em cima, numa combinação perigosa para quem como eu tem algumas dificuldades. Mas também fazê-los de olhos fechados para quê, se o que vejo todos os dias – mesmo seguindo os caminhos de sempre – é tão bonito?
 
Hoje, por exemplo, fazendo o meu percurso mais frequente – pelo Boulevard Saint-Michel até ao cruzamento com o Boulevard Saint-Germain, depois a Rue des Écoles, a Place Marcelin Berthelot que fica em frente ao Collège de France e de onde se avista o jardinzinho dedicado a Foucault e a seguir a Rue de Lanneau até à Rue Valette – fiquei de novo a observar a cor das árvores e os corvos que passarinhavam por ali. Gosto de corvos e em Paris há imensos em toda a parte. Sendo o símbolo de Lisboa, confesso que raramente vi um corvo na minha própria cidade, quanto mais tantos como aqui. Os corvos são aves curiosas. Grandes demais para os saltinhos que dão quando não estão a voar. Deslocam-se muitas vezes aos saltinhos ou em passos desengonçados que combinam com o seu grasnar estridente. Fiquei um bom bocado a ver dois na Place Michel Foucault, voando entre a relva e o Collège de France, de cá para lá. De vez em quando pousavam e debicavam qualquer coisa. Outras vezes saltitavam sem elegância pelo chão molhado da chuva. Não, apesar de poder, não quero percorrer os caminhos de olhos fechados e perder a dança dos pássaros e as cores das árvores e as bicicletas encostadas as gradeamentos e os candeeiros trabalhados de Paris. Nem as pessoas que passam, mais elegantes que os corvos, numa azáfama de véspera de feriado*.
 
Além de observar os corvos deselegantes na sua atividade de pássaros, gosto de ver as pessoas e de ouvir as conversas. Hoje quando bebi café, estava um grupo de três raparigas atrás de mim, com os seus computadores. Falavam de classes sociais e de capital simbólico. Estudantes de ciências sociais, pela certa de sociologia. C’est geniale la sociologie, como me disse a Julie há uns dias. Mas é mais genial ainda, ouvir três raparigas muito jovens embrenhadíssimas numa conversa sociológica, usando conceitos que não ouvimos muitas vezes os jovens utilizar com tanto à vontade e interesse, já agora. A dança dos corvos foi depois da conversa das raparigas. É evidente que os corvos não querem saber do capital simbólico para nada, embora sejam o símbolo da minha cidade. Estes que vi hoje pareceram-me até alheios a qualquer teoria sobre classes e hierarquias sociais. Como camaradas dividiram o que encontravam para debicar e, uma vez ou outra, até olharam juntos na mesma direção, como se procurassem um amanhã onde não grasnassem, mas cantassem maviosamente.
 
Hei-de falar à Julie nas teorias das classes sociais, da mobilidade social, do capital material e do capital simbólico. Hoje voltou a falar-me na filha pequena, que vê apenas 2 vezes por semana. Não sei porquê, mas suponho. Disse-lhe que devia ser difícil. Perguntou-me se tinha filhos. Disse-lhe que não. Respondeu-me que o que importava era que a filha estivesse bem. Acho que a sociologia assentaria bem à Julie e hei-de convencê-la antes que a minha estadia aqui termine, a inscrever-se na licenciatura. Talvez de outra vez que cá volte a encontre, no Saint-André ou noutro café qualquer, a discutir estas matérias com outras raparigas, como se fossem as questões mais importantes do mundo. Seguramente são. Mas há demasiada gente que não sabe.
 
* dia 11 de novembro é feriado em França. Assinala o dia da assinatura do Armistício, que marca o fim da I Guerra Mundial.

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