Lettres de Paris #30


Jusqu’ ici tout va bien

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Parece então que faz hoje um mês, 30 dias portanto, que estou em Paris. Apesar de algumas breves contrariedades, coisas sem relevância, só posso dizer que ‘jusqu’ici tout va bien’, ou melhor, ‘jusqu’ici tout va très bien’. Paris tem-me, já o disse outras vezes, tratado bem. Tenho um sítio para dormir em pleno Quartier Latin, um sítio para trabalhar em pleno quartier de la Sorbonne, todos os cinemas, todas as ruas, todos os cafés, todos os museus, todas as torres, todos os jardins, de Paris. Penso que não podia querer mais neste momento. E efetivamente não quero. Nem sequer, como já sabemos, na maior parte do tempo pelo menos, companhia. ‘Jusqu’ici tout va bien’ exatamente ‘comme il est’.
 
Apesar disso, ‘je me suis pas levée du bon pied’, quer dizer, não me levantei com muito bom humor, mesmo porque já era tarde. Estava escuro lá fora, e chovia, como choveu todo o dia, aliás. Entrava pouca luz pela janela que dá para a rua estreita. Ainda para mais puseram andaimes no prédio mesmo em frente e isso escureceu ainda mais a rua e a luz que tinha pela janela. Lá me fui animando, tentando por-me como se me tivesse levantado ‘du bon pied’… quando saí de casa e entrei no Saint-André, a Julie deu-me os bons dias, lamentou-se do tempo ‘clássico’ de Paris e explicou a uma senhora que estava ao balcão (e que já vi de outras vezes por lá) quem eu era. Deu-lhe a ficha completa, digamos, tal como eu lhe a tinha dado antes a ela. Suponho que isto queira dizer que já sou do quartier, bem entendido. Gostei disso. Outro dia, quando jantei lá, o dono levou-me o café à esplanada (não chovia) e trouxe a conta com ele e disse-me:’ o café eu ofereço’. Coisas simples, coisas muito simpáticas, de pessoas que quase não me conhecem. Há sítios em Aveiro onde vou desde sempre e nem um copo de água me ofereceram nunca! Paris trata-me bem, é como vêem.
 

Paris tem-me tratado bem, segundo me dizem, também pelo tempo que tem feito. Não muito frio, nem muita chuva, dizem-me, para esta altura do ano. Tenho agradecido mentalmente não sei bem a quem, os dias de sol que por vezes há e os dias cinzentos mas sem chuva, mais frequentes. Hoje não tive tanta sorte. Chovia, de facto, copiosamente. Assim mesmo levava a máquina fotográfica, a que não dei grande uso. Apanhei o Rer C na estação de Saint-Michel, em direção a Pontoise. Passados uns minutos de me sentar ouço um rapaz dizer para a namorada e olhando para a porta: ‘mas ela está bem??’. Virei a cabeça e uma rapariga estava encostada à porta fechada, com a mão entalada. O rapaz levantou-se, eu levantei-me, as duas miúdas japonesas que estavam à minha frente levantaram-se também. A rapariga tinha os dedos da mão esquerda metidos entre as duas portas do comboio que, entretanto, não se conseguiam abrir, nem com mais rapazes que o primeiro foi chamar. Passou uma estação, a plataforma era do outro lado, a porta não abriu. A rapariga estava estranhamente calma. Era inglesa. Estava muito calma. Já eu estava com vontade de chorar a pensar que a rapariga iria ficar provavelmente com os dedos partidos, no mínimo. Ligámos o botão do intercomunicador, nem resposta. Liguei eu para um número de emergência que estava na carruagem. Atendeu-me uma senhora e a custo lá lhe expliquei que estava uma pessoa com a mão entalada nas portas. A chamada caiu, sem que ela me dissesse o que se podia fazer. Passámos outra estação, a porta não se abriu, e outra estação, o mesmo. A plataforma era sempre do outro lado.
 
A rapariga continuava calma, nós, os outros, estavamos bastante mais nervosos. A próxima estação – onde eu iria sair – era Pont de l’Alma e começámos a ver a plataforma do lado certo. A rapariga agarrou-me na mão com toda a força, com a mão que lhe sobrava. Fui-lhe dizendo ‘tenha calma’, mas calma aparentemente estava ela. Quando o comboio parou e segundos antes da porta abrir a rapariga disse-me ‘não quero ver’… eu pensei ‘nem eu’, mas não lhe disse. A porta abriu, um rapaz agarrou devagar no cotovelo do braço da mão que tinha estado ali presa. Os dedos estavam vermelhos mas não estavam esmagados como eu temi (e acho que ela também). Saímos para a plataforma. O rapaz disse-lhe que mexesse os dedos um por um e ela mexeu. Não lhe doiam… estranhamente. Parecia que estava tudo bem. E espero que esteja. Deixei a rapariga e os seus dedos aparentemente intactos depois de terem estado 3 estações pelo menos entalados nas portas de um comboio, desejando-lhe boa sorte. Ela agradeceu, mais não sei a quem do que a mim ou aos outros que basicamente não fizemos nada. Eu fui para a saída, do lado de Pont de l’Alma a pensar na calma daquela rapariga, com a mão presa nas portas… se tivesse sido eu de certeza que me tinha farto de gritar. Mesmo que não me doesse, como ela dizia que não lhe doia… só de ver os meus dedos entalados numa porta que se fecha com tanta força que não se consegue abrir, ter-me-ia dado qualquer coisa. Admirável a rapariga. Espero mesmo que os dedos não estejam danificados.
 
Cá fora, fumo um cigarro, com os nervos. Atravesso a Pont de L’Alma debaixo de chuva. Ali está a Torre Eiffel e ali está o Sena e ali está a nova Igreja Ortodoxa Russa, de cujas cúpulas douradas tanto gosto. Atravesso para a rive droite, para a Voie Georges Pompidou e a Avenue de New York. Quando atravesso vejo a Flamme de la Liberté, muito dourada. Vou até lá. A chama da Liberdade é uma réplica da chama que a Estátua da Liberdade de Nova Iorque transporta. Foi oferecida pelos Estados Unidos à França, em 1989, como agradecimento do trabalho de duas empresas francesas no restauro da estátua americana. Alguém colocou ali flores e uma fotografia de Lady Diana. Ao princípio não percebo, mas passado uns segundos lembro-me. Estamos em cima do Tunel de L’Alma, o mesmo em que ela teve o acidente que a levaria à morte. Deixo a chama e a fotografia da Lady Diana e encaminho-me para a Avenue du President Wilson, onde no número 11 fica o MAM – Musée d’Art Moderne de la Ville de Paris*. Um bom programa para um dia de inverno e chuvoso como este. Entro no museu pela ‘via prioritária’ e não pago qualquer bilhete. Claro. Também nisto Paris me trata bem. Há uma exposição temporária, uma retrospectiva de Bernard Buffet, um pintor genial, odiado por alguns, amado por outros. Os quadros, sobretudo os da última fase são brutais. Como em brutalidade. São magníficos. Foi um pintor de extremo sucesso em França, revelando-se muito jovem e ganhando diversos prémios, especialmente na primeira fase. A última é muito mais angustiante, ainda que com mais uso da cor, muito mais agressiva, dura e desafiante.
 
O MAM é um (outro) museu absolutamente magnífico. Desde logo o edifício em que está alojado e que partilha com o Palais de Tokyo. Imponente com um grande pátio sob as colunas gigantes de onde se vê o Sena e a Torre Eiffel. Nos dias bonitos deve ser bom beber ali um café. Hoje não estava assim tão agradável, mesmo quando, ao cair da noite, a Torre começou a cintilar em milhares de estrelas artificiais. É também enorme. Tem uma coleção permanente gigantesca e, obviamente, por ter chegado hoje já tarde, vou ter de regressar para ver com cuidado a coleção. Tem também a Sala Mattisse com duas grandes obras: Dança Inacabada e Dança de Paris. No piso de cima, na Salle Dufy, perdemos o fôlego e não é de subir a escadaria que lá nos conduz. É de La Fée Electricité, pintada por Raoul Dufy por ocasião da Exposição Universal de 1937. A obra é composta por 250 paineis de 2 metros por 1 metro e 20, que cobrem uma parede de 600 metros quadrados, em U. É verdadeiramente impressionante, digo-vos.
 
Quando saí do museu era já noite. Ainda fiquei um bocadinho a olhar para a Torre Eiffel, do terraço encharcado, mas ela já não cintilava, estava apenas ilumidada e lançava o seu raio azul sobre os céus de Paris, fazendo jus à fada eletricidade, portanto. Decidi não apanhar o Rer C do outro lado da Pont d l’Alma e apanhei o metro um bocadinho mais à frente do museu, na estação de Alma/Manceau. Apanhei a linha 9 até Strasbourg-Saint-Denis e a seguir a linha 4 para Odéon. Queria ir ao cinema, outro belo programa para um domingo de chuva. Fui ver um filme que estreou também em Portugal há pouco tempo: ‘Juste la fin du monde’**, de Xavier Dolan, com interpretações magníficas de Vincent Cassel, Gaspard Ulliel, Marion Cotillard, Léa Seydoux e Nathalie Baye.Uma família perfeitamente disfuncional no dia em que o filho mais novo regressa a casa, após uma longuíssima ausência, para dizer que vai morrer. Acaba por não dizer. Já é o fim do mundo, mesmo assim. É um filme com uma fotografia brilhante.
 
Continua a chover quando saio do cinema. O tempo de Paris, portanto, ao que parece. Não é, também este tempo, o fim do mundo, certamente.
 
 

Comments

  1. Paulo Só says:

    Os franceses melhoram muito ultimamente, mas o tempo permanece o mesmo. Não sei se os lisboetas melhoraram, mas aqui o tempo é o melhor da festa.

  2. Bom, Paulo, o tempo em PT também não tem estado grande coisa…

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