Lettres de Paris #26


«Paris a mon coeur…

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dès mon enfance. Je ne suis français que par cette grande cité. Grande surtout et incomparable en variété. La gloire de la France est l’un des plus nobles ornements du monde*» escreveu Montaigne.
Paris não tem o meu coração desde a minha infância. Mesmo porque a primeira vez que vi Paris já tinha mais de 20 anos. Mas é como se Paris tivesse o meu coração desde a minha infância. Pelo menos, neste momento, tem o meu coração desde que aqui cheguei há 26 dias. O tempo passa a correr e, na verdade, sinto que aproveitei pouco. É certo que estou aqui para trabalhar, mas não se trabalha 16 horas por dia (bom, às vezes sim, como é evidente) e, portanto, penso que poderia ter aproveitado (ainda) mais estes 26 dias que já passei aqui e estes 26 dias em que Paris tem o meu coração, como se fosse desde a minha infância.

Conheço muitas cidades. Vivi algum tempo em poucas. Aveiro, onde vivo há mais tempo, Lisboa, onde vivi a minha infância e tem também o meu coração, Wageningen, Florença e Paris. E visitei muitas mais cidades, tantas que já lhes perdi a conta, mas sempre poucas para as outras tantas que há por conhecer. Nenhuma delas – à exceção de Lisboa, por razões óbvias, é o local onde nasci – ficou com o meu coração. Gosto de escrever que sim, que adoro (quase) todas as cidades que visito, mas a verdade é que o meu coração fica apenas em partes dessas cidades, não fica inteiro nas cidades inteiras. Sempre gostei de Paris, mesmo quando a conhecia menos ou apenas conhecia dela as atrações turísticas. Na verdade, agora, conheço pouco mais. Ou talvez conheça já bastante mais, depende do modo como entendemos o conhecimento que é possível ter sobre o que quer que seja, principalmente sobre uma cidade, foi Montaigne que o disse, já escrevi ali atrás, ‘grande sobretudo e incomparável em variedade’. Agora não gosto apenas de Paris, entreguei-lhe o meu coração, como se fosse desde a minha infância.
E gosto de Paris não por ser uma cidade bonita, que é. É uma cidade magnífica do ponto de vista arquitetónico e urbanístico. Cheia de contrastes também aqui e da tal incomparável variedade. É uma cidade tão magnífica que se torna amigável para os peões. Até para mim que não gosto de andar muito a pé. Tenho andado mais a pé em Paris nestes dias, do que ando em Portugal num ano. É uma cidade para percorrer a pé, embora tenha bons transportes públicos, já o disse. É uma cidade doce, apesar de tudo, dos atentados dos últimos anos, dos avisos em cada estabelecimento público ou muito frequentado sobre a vigilância e a segurança. Uma cidade doce, educada, amigável. As pessoas são geralmente simpáticas. Também já o disse. Raramente noto a ‘arrogância’ que se diz terem os franceses. Há uma descontracção na cidade, apesar da sua imponência arquitetónica. Uma descontração que vem, penso eu, do imenso amor à arte, destas pessoas. Não houve uma única vez que tenha ido ao cinema, e já fui pelo menos uma vez por semana (mas poderia ter ido todos os dias a mais que uma sessão por dia e nunca veria um filme repetido – o paraíso) que a sala não estivesse cheia. Não houve uma vez que fosse a um museu e não houvesse fila para entrar (e não, não são os turistas, sobretudo no cinema não são de todo os turistas). As livrarias, que são muitas, só aqui no Quartier, estão sempre cheias de gente a ver e a comprar livros. Os concertos de órgão na Notre-Dame, a que fui, estavam igualmente muitíssimo compostos. Há sempre uma oferta cultural imensa nos vários cantos da cidade. Concertos de jazz, com nomes importantes, há diversos por dia. Colóquios e Seminários há dezenas também por dia. É impossível não adorar Paris.
Mas mesmo que eu não gostasse de nenhuma das coisas que acabei de elencar, seria impossível não ter dado já, desde a minha infância, o meu coração a Paris. Só andar na rua, fazer os percursos diários, é já uma das melhores coisas do mundo. Van Gogh, citei-o outro dia, escreveu a um amigo a dizer que só havia uma Paris. E que em Paris se respirava bastante melhor. Vou contar-vos um segredo: concordo com Van Gogh. Aqui respira-se bastante melhor. E não é do ar frio que faz agora que falo, embora também nisso não tenha razões de queixa. Também não é de fumar bastante menos aqui do que no meu dia a dia normal, em Aveiro. Não sei do que é. Mas sei que respiro muito melhor em Paris do que em qualquer outro sítio onde já tenha estado. Mas sei também uma outra coisa. Isto só acontece se gostarmos de estar sozinhos, a respirar. Caso contrário, embora se fale com gente durante o dia, os franceses são faladores, creio também já tê-lo dito, Paris não será bem o sítio ideal.
Como eu gosto de estar sozinha e nunca me lembro de me ter aborrecido um segundo sequer quando estou só comigo mesma (e o mesmo não poderei dizer de quando estou com outras pessoas) respiro melhor em Paris. Falo se me apetecer, com quem me apetecer. Não conheço ninguém aqui, de um conhecimento que vá mais além da superfície. E ninguém me conhece do mesmo modo, aqui. Gosto de ir ao cinema sozinha, aos clubes de jazz sozinha, às livrarias sozinha, aos colóquios sozinha, aos museus sozinha, gosto de caminhar pelas ruas e não conhecer ninguém em lado nenhum. O meu coração é, portanto, desde há 26 dias, desta cidade, grande sobretudo, de que faço momentaneamente parte, tal como da sua incomparável variedade. Paris tem o meu coração e pode ficar com ele. Por enquanto não me tem feito grande falta.
——
*«Paris tem o meu coração, desde a minha infância. Não sou francês senão por esta grande cidade. Grande sobretudo e incomparável em veriedade. A glória da França é um dos mais nobres ornamentos do mundo»

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