Lettres de Paris #16


‘(…) Ne perdez pas de vue que Paris, c’est Paris. Il n’y a qu’un Paris’ (*)

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isto foi o que Van Gogh escreveu em 1886 a Horace Mann Livens, quando viveu em Paris, passando tempos difíceis. Apesar deles, dizia ao seu amigo que o ar de Paris, o ar de França, aclarava as ideias. Fazia bem, muito bem.
É verdade, o ar de Paris, não direi de toda a França, veja-se por exemplo o que se passa em Calais, faz bem. Especialmente este ar cheio de um frio fininho que começa a ser cortante. Mas é bom este ar frio num dia de sol, como hoje. Voltei (voltámos) a ser turistas e quando saímos da Rue Suger, apanhámos a linha 4 do metro na Place Saint-André-des-Arts, depois do café no Le Saint-André, o sítio do costume. Saímos em Barbés-Rochechouart e percorremos o Boulevard Rochechouart até encontrarmos a Rue Steinkerque e, no fim desta, a Place Saint-Pierre onde apanhámos o pequeno funicular para o Sacré-Coeur. As escadas e toda a área em volta da igreja estavam cheias de gente, mas isso foi, claro, apenas um pormenor sem importância.

Depois de vermos o interior da igreja (e de eu, claro, como sempre, ter acendido uma velinha, porque gosto de velas e gosto especialmente de velas nas igrejas) fomos pela Rue Azais até à Place du Tertre, que contornámos só um bocadinho, até à Place du Calvaire e à Rue Poulbot, onde fica o Espace Dalí. Achei a Place du Tertre diferente de há 20 e tal anos e memso de há dois anos. tem mais restaurantes e menos pintores, o que, convenhamos, é uma pena. Continuámos, a seguir ao Espace Dalí pela Rue Poulbot até à Rue Norvins e entrámos na Rue des Saules. O ar continuava a respirar-se frio, mas assim mesmo bem, muito bem. Respirámos melhor quando alcançámos a Rue de l’Abreuvoir e as suas casinhas bonitas e os seus muros outonais. Daqui formos até uma praça curiosa: a Place Dalida, essa mesmo, a cantora.
Deve dizer-se que os franceses tratam bem da sua história. Preservam a memória. Há placas a assinalar diversas coisas, em muitos edifícios de Paris. Aqui nasceu este escritor, ali viveu esta pintora, aqui foi morto um resistente, ali um soldado que combateu pela pátria. Acolá viveu um compositor, ali mais adiante morreu um cientista. Il n’y a qu’un Paris, c’est vrai. E Paris trata bem dos seus habitantes, pelo menos de alguns cujo nome figura em placas espalhadas por toda a parte.
Da Place Dalida, metemos por uma alameda muito pequenina e verde e bonita – a Allée des Brouillards, ao fundo da qual, no início da Rue Simon Dereure, existe um jardinzinho bem bonito. Invejo as pessoas que moram aqui, especialmente aqui, nesta rua sossegada e rodeada de verde. Ainda vou a sentir inveja quando chegamos á Avenue Junot, onde descemos umas escadas (na Rue Julien Metiver) até à Rue Caulaincourt. Lanchámos umas tartes de maçã e de pêssego maravilhosas numa Boulangerie-Patisserie desta rua. Não sei se conhecem os bolos e doces franceses. A comida em geral (bom, não falemos dos queijos) é apenas razoável. Não há nada (bom, a não ser os queijos, outra vez e as maneiras como cozinham o pato) digno de grande nota. Exceção feita aos doces. São obras de arte, os bolos com creme e sem creme, com fruta amontoada delicadamente em cima de massa fina. Os millefeuilles de chocolat e com outros variados recheios, os macarons de mil cores, os palmiers, enfim, um mundo colorido, doce e perigosíssimo, porque difícil de resistir ao seu encanto. Mas ‘ne perdez de vue que Paris, c’est Paris’.
Depois do lanche continuámos pela Rue Caulaincourt, compridíssima, até ao cemitério de Montparnasse. A Rue de Caulaincourt é uma ponte sobre o cemitério e vamos vendo as campas, com as suas flores amarelas, vermelhas, brancas, à medida que passeamos. Pelo caminho passámos no Café qui parle – que nome tão bonito para um café! Finalmente chegámos ao Boulevard de Clichy e descansámos num banco de jardim a admirar a escultura moderna de homenagem a Charles Fourier, um socialista utópico. A escultura chama-se a Quarta Maçã, uma teoria do próprio Fourier, e é exatamente uma enorme maçã de aço polido que repousa sob o pedastal onde, até 1942, se ergueu uma estátua do próprio Fourier.
Deixamos a Quatrième Pomme para trás e avançamos pelo Boulevard de Clichy em direção a Pigalle. Passamos pelo Moulin Rouge, bem entendido e por toda a espécie de clube, folies, lojas, hoteis, museus, relacionados com sexo. Tinha passado aqui há mais de 20 anos, a parafernália não era tanta. Depois nunca mais voltei aqui. Sem ser puritana (que não sou) suponho que seja um destes sítios onde se vem uma vez e é o bastante. Em Pigalle apanhámos o metro para a estação de Sévres-Babylone (linha 12) e daí a linha 10 para Cluny-Sorbonne. Queria mostrar ao André as ruas que percorro todos os dias para ir ao Ladyss. E a Place de la Sorbonne, e a Sorbonne, e o Collège de France e o Panthéon. Tudo isso. Os sítios onde bebo café, onde compro o pão, onde vou às compras também. Os cinemas. Tudo isso. Quando saímos da Place du Panthéon estava já escuro. Caminhámos devagar até Place Saint-André des Arts, comprámos uma baguette tradition na Maison Pradier e parámos no Chez Clément para uma cerveja. A vida podia ser apenas isto, mais vezes. Amanhã o André regressa a casa dele e eu à minha vida temporária aqui. Il n’y a qu’un Paris, c’est vrai et moi, je suis ravie d’être a Paris en ce moment.
Bonne soirée.
(*) as Cartas têm 3 dias de atraso, é por isso que hoje não se fala de Trump.

Comments

  1. Paulo Só says:

    Não “dans ce moment”, mas “en ce moment”….Morei mais de 30 anos em Paris, e tenho-me deliciado com as suas cartinhas.
    Parabéns e continue, por favor.

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