Lettres de Paris #23


‘Vous êtes du quartier?’

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perguntou-me uma senhora, não sem antes dizer ‘bonjour, madame’, quando eu estava na esplanada do Saint-André – depois da Julie me ter cumprimentado com um ‘bonjour Elisabete!’ quase cantado – a beber o meu café e o meu copo de água do costume. Disse-lhe que não, à senhora, que não era ‘du quartier’, mas fiquei a pensar que tinha pena de não ser deste bairro e poder dar à senhora a informação que ela precisava.
Depois do café, desci as escadas do metro ali mesmo em frente. O passar a ferro de ontem, fez alguns estragos nas minhas pernas. Algumas horas de pé e é uma lástima. Por isso há que poupá-las, quer dizer, o mais possível, se bem que – como disse ontem – no metro de Paris se ande muito, sobretudo se temos, como é frequentemente o meu caso, que mudar de linha. Apanhei a única linha de metro que passa em Saint-Michel (também passa o Rer C e o Rer B) a linha 4, para Chatelêt, onde mudei para a linha 1 em direção a La Défense. Começo a ser perita no metro de Paris. Na verdade não tem nada que saber. Nem este, nem até ver, nenhum metro em que tenha andado seja lá onde for. Antigamente perdia-me mais do que agora, é verdade. Devo ter aprendido a prestar mais atenção.

Saio na Concorde, do lado do Jardin des Tuileries. E cá em cima volto a maravilhar-me diante da praça, com os seus candeeiros trabalhados, o obelisco de Louxor, com a sua ponta muito amarela, como se fosse um lápis muito afiado, a fonte dos rios – onde não corria água – e a fonte dos mares onde a água borbotava abundantemente. E depois, a Torre Eiffel, ora do lado esquerdo do obelisco, ora do lado direito. A espreitar altiva entre as estátuas e os candeeiros da praça. Não há como não adorar a Place de La Concorde, com os seus belos edifícios na esquina da Rue Royale ao fundo da qual espreita a Madeleine. Não há como não gostar desta praça entre dois jardins, o das Tuileries e os Champs Elysées com o Petit Palais e o Grand Palais e lá ao fundo o Arco do Triunfo que se ergue, justamente triunfante, na Place Charles de Gaulle. Visto da Place de la Concorde parece pequeno. Como a Torre Eiffel, aliás. Na grande praça do obelisco há hoje uma novidade. Já a tinha visto da Torre Eiffel a semana passada e ontem da Torre de Montparnasse. A novidade é a Roue de Paris, ou seja a roda gigante, para que olho fascinada, de todos os ângulos.
Olho só. Não tenho coragem – com imensa pena – de entrar e ver Paris lá do alto. Tenho vertigens e aquilo parece frágil. Eu sei que apesar das vertigens e das pernas tenho a mania de subir a torres e a sítios altos, mesmo por centenas de degraus, mas esta roda tem um ar mesmo frágil. Não é como o London Eye, seguríssimo e forte. Esta parece de papel. Uma rabanada de vento e voilá. Estatelados no chão da Concorde. Claro que não será bem assim, mas na minha cabeça é assim que a imagino. Tenho vertigens, mais a mais, que procuro controlar e ultrapassar. Descobri recentemente que, por causa disso, às vezes fico também ligeiramente em pânico nas escadas rolantes a descer. Pode-se ser mais pateta? Esta das escadas rolantes é uma sensação recente. Ainda outro dia, na estação dos Invalides fiquei ali a ver os degraus a descer e não fui capaz. Fui pelas escadas. Para o que me havia de dar… mas suponho que não seja culpa minha. Além de que, na maior parte das vezes, se me concentrar a coisa passa.
Andei por ali a tirar fotografias ao obelisco, às fontes, às estátuas, aos candeeiros e, claro, à fascinante roda gigante, um bom bocado. Depois encaminhei-me devagarinho para o Musée de L’Orangerie. Não vou dizer que M ‘O é o museu mais bonito de Paris, mas, bom, podia dizer que é um dos mais bonitos. Pequeno, com uma coleção de Cézanne, Manet e Renoir notável. Uma belissima mão cheia de Picasso, Matisse e Derain e, claro a sala Water Lilies – Les Nymphéas – de Claude Monet, que o pintor ofereceu à França e aos parisienses a seguir à I Guerra Mundial. Duas salas ovais absolutamente fabulosas, como um templo, limpas, depuradas, com quatro grandes quadros cada uma. Na primeira Green Reflections, Morning, Clouds e Sunset. Na segunda The Two Willows, Clear Morning with Willows, Morning with ‘Weeping Willows’ e Reflections of Trees. À entrada para estas duas salas pede-se silêncio. Quando se está lá dentro, compreende-se perfeitamente porquê. Nestas duas salas costuma haver concertos de piano. Deve ser bem bonito. A ver se vou alguma vez, enquanto aqui estiver. Aliás, este Museu e o d’Orsay – ambos M ‘O e com programação articulada, bien sur – têm imensas atividades, muitas delas completamente gratuitas.
Além da coleção do museu e do Water Lilies, o M ‘O tem em exibição, até 30 de janeiro de 2017, a exposição que vim hoje expressamente ver – A Pintura Americana dos Anos 30. Devo dizer que é uma exposição completissíma e belíssima, que nos transporta – através da pintura e também do cinema – à década de 30 nos Estados Unidos e aos tempos da Grande Depressão. É fácil encontrar semelhanças – oh tantas – com os tempos que vivemos hoje, nos quadros de Grant Wood, Edward Hopper, Joe Jones, Georgia O’Keeffe e tantos outros e nos excertos dos filmes que passam em dois écrans gigantes, The Grapes of Wrath, American Madness, Fast Worker, Our Daily Bread, entre outros que, coisa fantástica, vão ser exibidos no auditório do museu, integralmente, entre 25 de novembro e 17 de dezembro. Parece que vou voltar ao M ‘O algumas vezes nos tempos mais próximos, portanto.
Antes de ir ver as duas salas com as grandes pinturas de Claude Monet, vou lanchar ao café do Museu, que é bonito também e muito calmo. Aliás, gosto do Musée de L’Orangerie, também por isso, a calma. Hoje estava bastante gente e assim mesmo, havia silêncio e tranquilidade. Escusado será dizer-vos que não esperei na grande fila para entrar, nem paguei bilhete. Começo a habituar-me a isto, confesso, e receio ficar tão bem habituada que estranhe quando regressar a Portugal.
Saí do museu deviam ser umas cinco da tarde, ainda havia alguma luz do dia e ali mesmo ao lado, no Jardin des Tuileries as gaivotas ensaiavam voos que os patos não podiam acompanhar facilmente. Apesar do tempo cinzento e frio, havia pessoas sentadas nas cadeiras verdes, à beira dos lagos, olhando a dança das gaivotas e as cores das árvores. Sentei-me também eu, numa dessas cadeiras e ali fiquei à espera que a noite caísse e as luzes se acendessem na roda gigante e na Place de la Concorde. Quando isso aconteceu voltei a dirigir-me devagarinho para o metro. Linha 1 em direção a Chatelêt, depois a linha 4 para a Place Saint-André des Arts. Cheguei à Rue Suger antes das seis e meia um bocadinho triste, não pela tarde no museu de L’Orangerie, mas porque em Chatelêt vi imensos sem abrigo sentados e deitados a dormir no cais do metro. A Grande Depressão outra vez. E parece que ninguém, ou quase ninguém, dá conta disso. Até eu, quando ando entretida no meio dos quadros ou dos filmes.
Às oito e pouco voltei a sair de casa. Comi finalmente a pizza que me apeteceu comer há dois ou três dias no Del Arte. Com menu a preço simpático e boa comida. Fica na esquina do Boulevard Saint-Michel com o Boulevard Saint-Germain, mesmo em frente ao Jardin Médiéval. No bairro, portanto. Estava com pressa para ir ao Le Champo, na Rue de Écoles, de que tenho o cartão, (re)ver ‘Les Amants du Pont-Neuf’, de Leos Carax, de 1991 e que eu devo ter visto quando estreou em Portugal, pouco tempo depois. Vi que estava hoje no Le Champo (está a decorrer um ciclo de Carax) às nove e vinte e fui revê-lo. o Le Champo é também no bairro, claro está. A história** é triste e feliz ao mesmo tempo. É triste porque reencontro os mendigos do metro no écran gigante, embora os do metro sejam bem reais. Mas é feliz, no final, porque os dois amantes – Alex e Michèlle – partem para o Havre, a bordo de um navio (une péniche***) pelo Sena fora.
São 11 e meia quando saio do Le Champo. Regresso a casa pelas ruas molhadas de Paris, vendo mais sem-abrigo a prepararem-se para dormir nos cantos abrigados. Gostava que pudessem, no final, ir todos para o Havre num péniche, felizes, quentes e alimentados, como os amantes do filme. Fico a pensar nisto e continuo a andar. Quando chego à Rue Danton e dobro a esquina pelo Saint-André, o empregado que fala comigo em português do Brasil com sotaque francês, vê-me pela janela e faz-me um grande sorriso e um aceno. Se a senhora desta tarde passasse agora e me dissesse ‘bonjour madame, vous êtes du quartier?’ tenho a certeza que lhe diria que sim.
* Uma apresentação detalhada da exposição, aqui
** o trailer de ‘Les Amants du Pont Neuf’, aqui
*** um ou uma ‘péniche’ é um barco de transporte fluvial, de mercadorias.

Comments

  1. Paulo Só says:

    Muito talentosas as suas fotografias. Tem de aprender a andar de autocarro para se poupar. É também muito mais agradável, mesmo se mais lento.

    • Obrigada, Paulo. A verdade é que até gosto de andar a pé… canso-me é um bocadinho mais que o comum dos mortais. Ainda não experimentei os autocarros em Paris. Só o Rer C e B e o metro. Mas imagino que seja bastante agradável.

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