Lettres de Paris #31


Dans ma tête il ya une grosse confusion

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Hoje também não tirei fotografias, por isso uso uma de outro dia qualquer, que até se adequa, do caminho que faço alguns dias para o Ladyss. Hoje fiz esse caminho bastante cedo. Tinha reunião logo de manhã com os colegas do meu ‘eixo’. Chovia quando acordei e o céu era cinzento chumbo. Não tive tempo para beber um expresso sequer, fora de casa. Lá fui eu a toda a pressa para não chegar atrasada. Cheguei uns 5 minutos depois da hora, mas houve muita gente que chegou bastante depois de mim.
Tive de me apresentar em francês, pois claro, a uma boa parte dos meus colegas do Ladyss, procurando não dar muitos erros, mas certamente dando. Uma boa parte deles nunca os tinha visto por ali. Acho que me desculparam os erros e foram todos simpáticos. Disse-lhes que esperava que no dia 16 de janeiro, quando fosse a minha vez de apresentar o seminário, esperava falar melhor francês. O meu problema não é a pronúncia – que é boa, sem modéstias. Nem o vocabulário, que também não é mau. É o tempo que demoro a falar, acho eu e os tempos verbais. O francês não é assim uma língua muito fácil e uma coisa é falar na rua e nos cafés, ou em conversas informais com os colegas, outra, bem diferente, é fazer uma apresentação do meu trabalho. Pode ser que em janeiro já fale mais depressa. Mas não é fácil. E depois, na minha cabeça vai uma trapalhada. Continuo a pensar em português, a maior parte do tempo, mas a verdade é que também o faço em francês e em inglês numa alegre misturada. Vá lá que aqui não corro risco de acrescentar a estas três línguas o castelhano e o italiano. Já aconteceu falar em castelhano com uns espanhóis num sítio qualquer, mas foi tudo.

O meu caderno de apontamentos é uma confusão, tal como a minha cabeça. É absolutamente trilingue (esta palavra existirá?) e no mesmo apontamento misturo as três línguas com a maior naturalidade. Depois, claro, fico a olhar para aquilo. Mas hei-de conseguir apresentar o seminário em francês, ou eu não me chame Elisabete Maria. Afinal, depois de alguns meses, alguma coisa devo ter aprendido. Quanto mais não seja a desenvoltura. A verdade é que lé isso que me prejudica. Enquanto que em inglês ou castelhano (em italiano já não é bem a mesma coisa) falo e pronto, em francês não é bem assim… o francês é uma língua muito bonita, quando bem escrita e bem falada. E é adorável ouvir apresentações e discussões científicas (da minha área bem entendido, que não é exatamente física quântica) nesta língua magnífica. As voltas e os floreados, as expressões muito típicas (que às vezes não percebo), soa tudo lindamente e com bastante mais elevação. Não estou a desdenhar do português que é também uma língua feita para os floreados e para a poesia e a literatura (todas o são, já sei, mas a algumas falta-lhes um certo ‘je ne sais quoi’).
De maneira que hoje, acompanhando quase tudo (salvo algumas expressões, que, de qualquer modo, se compreendiam pelo sentido) lá assisti a duas apresentações de dois colegas. O Alphonse e o Thomas. Ambas sobre o Senegal. Gostei bastante mais da do Thomas, um rapaz muito jovem, cheio de entusiasmo e frescura. Está a fazer o doutoramento e eu penso… quem me dera ter muitos alunos assim, cheios de entusiasmo e muito trabalhadores e dispostos a correr riscos teóricos e práticos. Ambas as comunicações são sobre as cooperações descentralizadas e o seu conteúdo, atores, agentes, problemas e bloqueios. A do Thomas tem um conteúdo bastante mais empírico que a do Alphonse. Nunca hei-de falar francês como o Thomas, nem como o Alphonse, nem como nenhum dos colegas que estavam hoje na sala. Nem nunca hei-de ir ao Senegal, suponho.
O seminário durou até às 13h mais ou menos. Cada um deles teve mais de 45 minutos para falar. Sossegou-me aquilo. Quando for a minha vez, com 45 minutos precisarei de menos desenvoltura, poderei falar mais devagar. Se conseguir falar em francês, bem entendido. A seguir quase toda a gente dispersou e eu também. Fui almoçar a uma boulangerie na Rue des Écoles, morta de sono, devo dizer. Regressei ao Ladyss depois do almoço e continuei cheia de sono, pela tarde fora, basicamente a ler e a mandar emails em francês, português e em inglês. Ao fim do dia, voltei para casa, ensonada na mesma. Sou noctívaga, nada a fazer. E dormi 5 horas a noite passada. Não se pode esperar muito de mim nos dias em que tenho que me levantar – para os meus hábitos – escandalosamente cedo. Sobretudo quando tenho de usar várias línguas. Nestes dias de pouco sono misturo-as ainda mais. Une grosse confusion dans ma tête. Hoje mandei um email em francês à secretária do Ladyss para ela ‘disséminer’ informação sobre o ‘call for abstracts’ para o próximo congresso da European Society for Rural Studies. Quando disse à Aline isto mesmo… ‘disséminer l’information’ ela riu-se e disse que seria mais adequado ‘diffuser l’information’ já que ‘disséminer’ se utilizava para vírus e sementes e coisas assim. Eu bien, voilá. Também em português uso muitas vezes palavras estrangeiras adaptadas, por isso espero que a Bèatrice não vá considerar que a mandei disseminar um vírus aos colegas do laboratório.
E assim vai a minha pacata existência em Paris, com uma grande confusão linguística das la tête. Hei-de sobreviver. Mesmo porque entretanto, daqui a umas quantas (muitas, na verdade) horas, j’espère, vou ver a minha casinha, a ria, Lisboa e os meus pais. Coisas e pessoas que já não vejo há 34 ou 35 dias. Interrompo também, a correspondência por uns dias. Se tudo correr bem, volto a escrever cartas ainda nem vocês lhes sentiram a falta.
A bientôt

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