Lettres de Paris #29


«Mais qu’est ce qu’on veut?

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papiers!». Era a resposta gritada e acompanhada de punhos no ar e tambores. Estava eu, tranquila, a admirar o carrossel do Hotel de Ville quando começo a ouvir gritos e tambores. Vou até à esquina da Place de l’Hotel de Ville e da Rue du Renard avançam umas 20 pessoas, com megafones e tambores. Gritavam de forma articulada com o tambor, como se fosse uma canção, a canção dos sem-papéis, que o que queriam era tê-los. Ainda pensei em juntar-me à manifestação, animada pelos punhos erguidos principalmente, mas curiosamente (ou não, melhor dizendo) não havia uma única pessoa branca na manifestação e, mais a mais, tenho papéis. Podia ter-me juntado em solidariedade, bem entendido, mas pensei que os manifestantes tomassem isso como desrespeito ou gozo da minha parte e, portanto, deixei-os continuar para a Rue do Rivoli, poucos mas barulhentos, timidamente acompanhados por uma ou duas motas da polícia. Voltei ao Parvis de l’Hotel de Ville para admirar outra vez o carrossel, enquanto os gritos dos manifestantes e os tambores se ouviam cada vez mais ao longe.
Antes desta pergunta – ‘Mais qu’est ce qu’on veut?’ ter entrado na minha tarde, de forma inesperada, tinha saído não muito cedo da Rue Suger, bebido o café servido pela Julie, que foi simpática comme tous les jours, quero dizer aqueles em que vou lá. Atravessei a Place Saint-André des Arts e fui ao quiosque comprar uma carteira de bilhetes de metro (e de autocarro e de comboio, já que dão para tudo isso). A seguir voltei a atravessar a praça, entrei na Place Saint-Michel, depois na Rue de la Huchette, atravessei a Rue Saint-Jacques e depois entrei na Rue de la Bucherie. Passei em frente da Shakespeare and Company, segui pelo Quai de Montebello, atravessei a Pont au Double e entrei no Jardim João Paulo II, onde se ergue uma estátua ao agora santo e continuei, reparando nas cores das folhas contra a brancura da pedra da catedral de Notre Dame, até à Place Jean XXIII onde as cores das folhas das árvores continuaram a surpreender-me. Estava um casal de noivos sentado num banco a posar para fotografias. A noiva, coitada, com este frio, mantinha o sorriso, mas estava com os ombros e os braços descobertos. Reparei também nas pessoas sentadas nos bancos de jardim, por baixo das árvores quadradas da Place Jean XXIII e saí do jardim pela Rue du Cloître Notre Dame. Fui até à Pont Saint-Louis, que justamente cruza o Sena entre a île de la Cité e a île Saint-Louis. A ponte está fechada ao trânsito e estava bastante gente. Um rapazinho bastante novo tocava acodeão sentado num banquinho. No mesmo instante em que reparei nas nuvens por cima do Sena e e da Pont de la Tournelle, o rapazinho começa a tocar, e bem por sinal, ‘sous le ciel de Paris…. la la la la la’. Um clássico, portanto, mas no momento certo.

O meu objetivo era ir ao Memorial dos Mártires da Deportação que fica mesmo na ponta da Île de la Cité, atrás da Notre Dame. Por isso, deixei o rapazinho e o seu acordeão e o céu de Paris e caminhei pouco até à Place de l’île de France, onde fica este belíssimo memorial. Belíssimo a todos os níveis. O edifício em primeiro lugar. De linhas simples, construído como um bunker, simples, mas imponente ao mesmo tempo. Imponente não pela arquitetura belíssima (de Georges-Henri Pingusson), mas pelo modo como a simplicidade de tudo nos oprime, como se fossemos nós os deportados e os presos e os mortos nos campos de concentração nazis. Conheço um ‘museu’ em Portugal que podia aprender aqui como se cultiva a memória, como não se deixa esquecer, com simplicidade, impacto e informação a sério. Quando se entra dentro do memorial, por uma passagem estreita, há só silêncio. É verdade que não está quase ninguém (comigo contei quatro pessoas), mas o guarda à entrada pede-nos silêncio, naturalmente e compreende-se porquê. Entra-se por essa passagem estreita para uma espécie de cripta, escura, rodeada de citações de vários poetas e escritores franceses que nos lembram a importância da liberdade e da resistência. Atrás de grades há um longuissimo corredor, estreito, ladeado de pequenas pérolas de vidro que simbolizam os milhares de deportados mortos nos campos. No início desse longo corredor um túmulo que contem os restos mortais de um deportado desconhecido que morreu no campo de Neustad e que foram para aqui transferidos em 1962, ano em que foi inaugurado o memorial.
Depois de subir escadas atrás de escadas, numa intrincada rede, pontuada de portas e janelas com grades, entra-se numa sala com um mapa dos campos de concentração na Europa. Há também um mapa de França noutra parede que nos mostra, por província, o número de deportados, entre judeus e resistentes não judeus. Há de novo outro longo corredor, com desenhos dos presos e mortos nos campos de concentração, cadernos de apontamentos, fotografias… ou melho, com reproduções destas memórias, sempre acompanhadas de explicações completas. Aquilo tudo é evidentemente comovente. Na última sala, antes das escadas para sair, um pequeno documentário conta-nos a história das deportações em França. Tudo sugere a dor, sem nunca se ver a dor propriamente dita. Tudo sugere a prisão sem estarmos de facto presos. Tudo sugere a morte, sem de facto a vermos. Tudo sugere a preservação simples e respeitosa e digna da memória. Saio do memorial e fico um momento sentada num banco da bela praça, onde as árvores explodem também em gritos de cor, acompanhadas pelas gaivotas que pousam em cima dos muros do memorial. Depois vou devagar a contemplar o Sena, até à Pont Saint-Louis, onde o rapazinho do acordeão já não está. Atravesso-a para a outra margem e engro na île Saint-Louis. Há pessoas nos cais do Sena, admirando os cisnes, comendo, ou simplesmente sentadas. Há um pouco de sol nesta tarde fria e as pessoas aproveitam-no. Atravesso a île Saint-Louis, que é bastante estreita, pela Rue Jean du Bellay e encontro a Pont Louis Philippe para chegar ao Quai de l’Hotel de Ville.
Viro à esquerda e vou andando até à Place de l’Hôtel de Ville. Ao lado, há um jardim – o Jardin des Combattants de la Nueve, dedicado aos republicanos antifascistas espanhóis que ajudaram a libertar Paris. Encontro antes outra placa de homenagem a estes combatentes. Aliás, encontro de novo muitas placas assinalando que ali e acolá tombaram resistentes. Muitas com flores da Maire de Paris. Na Place de l’Hôtel de Ville está muita gente. As pessoas estão sentadas em bancos, em pé, passam apenas, andam no bonito carrossel. Há bastante agitação. Sento-me a fumar um cigarro perto do carrossel enquanto admiro a alegria das crianças e adutos nas pequenas viagens que fazem neste carrossel gratuito, como outros espalhados por todo a Paris. Ainda hesito em montar um cavalinho, mas depois reconsidero. talvez de outra vez, se tiver companhia. Estou nisto e ouço os gritos ‘Mais qu’est ce qu’on veut… Papiers!’ e levanto-me para ver o que se passa. É curioso pensar que estas pessoas sem papéis não são muito diferentes, nesta questão do despojamento de uma identidade e de direitos, dos deportados a quem os franceses tão dignamente prestam homenagem no memorial que venho de visitar. Não é exatamente a mesma situação, bem sei. Ou o mesmo horror, bem sei. Mas fico a pensar nisto do despojamento da identidade e dos direitos. E encontro muitas semelhanças. É outro tipo de guerra, bem sei também. Mas estes homens que gritam que querem ‘papiers’ são também resistentes numa luta extremamente desigual entre quem tem uma identidade que lhe dá todos os direitos de cidadania e entre quem não tem direitos nenhuns. Muitos destes homens e mulheres ‘sans papiers’ são também escravos aqui e noutros países de uma Europa, que apesar de recordar tão belamente, parece que se esqueceu do que é essencial.
Quando os homens da manifestação dos ‘sans papiers’ entram na Rue de Rivoli, eu depois de voltar por mais um pouco à Place de l’Hôtel de Ville, entro na Rue du Renard. Passo as traseiras do Centro Pompidou, percorro um pouco da Rue Beaubourg e viro à direita para a Rue Rambuteau, cheia de frutarias, cafés, lojinhas gourmet. A rua está cheia de gente com ar de aterafada. Não é o meu caso, que vou devagar, como sempre, a olhar para tudo… logo à frente viro na Rue du Temple, onde fica o Musée d’Art et d’Histoire du Judaïsme, no número 71. Não entro no museu, pelo menos não desta vez. Continuo a andar pela Rue du Temple, a pensar que ali perto fica o Jardin Anne Frank mas já não sou capaz de dizer onde é (quando chego a casa e vejo no mapa… percebo que estava muito perto do jardim, que fica mesmo por trás do museu) e portanto continuo a andar. Vejo um cafézinho com ar simpático e entro. Como um ‘guardanapo’ e bebo um café. Quando me sento começo a reparar em tudo à minha volta… sumos compal, cerveja super-bock, doces com nomes portugueses, vinho português… pois, daí os ‘guardanapos’, que é a primeira vez que aqui vejo… ah e vejo pastéis de nata… ‘Natas Republic’, assim mesmo. Pergunto ao senhor se é português. Que não. Que o patrão é que é. Está explicado, portanto.
Saio do café a pensar que devia ter bebido um leite com chocolate Ucal, de garrafa, em vez do café. Para me saber a Portugal por um bocadinho. Ou um Compal. Ou mesmo uma Super Bock. Mas não, bebi um café, bem bom, talvez fosse delta. Pena o ‘patron’ não estar para dar dois dedos de conversa em português. E elogiar-lhe o café. Continuo pela Rue du Temple até ao cruzamento com a Rue Réaumur. Há uma pracinha com ar simpático e, como sempre, com as cores das árvores a explodir. Vou até lá à Place du Temple e sento-me num banco. Começou já a escurecer e deixo-me estar um bocadinho a ouvir as crianças e as conversas. Depois vou pela Rue Réaumur até à estação de metro Arts et Métiers. Apanho a linha 3 para a Opéra. Quando saio, justamente na Place de l’Opéra, está já completamente escuro e é Natal de repente, porque ali ao fundo da Rue Gluck são as Galerias Lafayette e tudo está iluminadíssimo. Há também, do outro lado, uma árvore de natal em neon. Mas a Opéra é linda de morrer, sobretudo ao anoitecer, com os seus anjos muito dourados iluminados, os seus candeeiros de bolas dentro das varandas, as suas estátuas todas. Um espetáculo merecedor de atenção. Há um rapaz que toca guitarra e canta (bem, por sinal) e as escadas estão convertidas numa sala de concertos temporária. Há até um casal que dança.
Deixo o cantor e os dançarinos e entro na Rue Gluck. Já que aqui estou posso ir ao terraço das galerias Lafayette que tem uma vista fabulosa sobre Paris. Quando chego às traseiras do Palais Garnier começo a arrepender-me. Há um mar de gente a entrar e a sair de todos os edifícios das galerias. Está tudo iluminadíssimo como se fosse Natal e há música da estação. As entradas do Boulevard Haussmann estão apinhadas. Há razão para isso logo ali nas montras, lindas de morrer, das galerias. Também eu, quando consigo furar a multidão fico maravilhada com aquilo. Numa das montras está uma carteira, horrorosa na minha opinião de pessoa simplória, da Miu Miu que custa 1800 euros. Noutra uns sapatos da mesma marca que custam 800. Penso: ainda bem que não vim para comprar nada. Entro finalmente nas galerias e vou imediatamente para o sétimo piso. Imediatamente mais ou menos, que tenho que percorrer corredores de várias marcas até chegar aos elevadores. No 6º andar saio do elevador. Não está a funcionar o elevador até ao 7º. Procuro, entre corredores, mas desta vez de ‘souvenirs de Paris’ e de cafés e restaurantes, as escadas rolantes. Encontro-as e subo ao terraço.
A vista é linda, mas está muito frio ali em cima. Não consigo tirar uma fotografia de jeito, mas pouco me importa. Aquela vista precisa lá que eu lhe tire fotografias. Ando a toda a volta do terraço a ver as luzes da Torre Eiffel, da roda gigante, das igrejas, e do outro lado do terraço a ver o Sacré Coeur a espreitar. Depois quero voltar para casa e vou até às escadas rolantes. Olho para elas, começo a por o pé no degrau e dá-me vertigens. Já vos falei na minha recente mania com as escadas rolantes. Volto para trás, respiro fundo, e volto ás escadas. O mesmo. Começo a pensar que é melhor ir pelas escadas normais e vou perguntar ao segurança que vi no terraço. Que as escadas normais estão fechadas, diz-me e que elevador também não há. Só as escadas rolantes. Sabendo do ridículo que aquilo ia soar aos ouvidos do senhor lá lhe disse que tinha vertigens, que não era sempre, mas justamente agora, nas escadas rolantes das galerias Lafayette estava a acontecer. O senhor não achou nada ridículo, disse que compreendia perfeitamente e veio comigo até às escadas. Nem com ele ali. Desta vez a travadinha foi a sério, penso, já a ver a minha vida para sempre no terraço das Galerias Lafayette. Bom, há sítios piores para se viver, suponho. O senhor disse para eu voltar ao terraço e apanhar ar, antes de insistir de novo. Eu não sabia se havia de rir ou chorar diante da minha tolice com o raio das escadas rolantes a descer. Veio ter comigo outra vez passado um bocadinho com uma chave esquisita na mão. Tentou abrir a porta das escadas normais com ela, não conseguiu. Disse-me que não me preocupasse que ia ligar ao chefe a pedir a chave da porta que dá para as escadas. Disse-lhe que ia experimentar as escadas rolantes outra vez, a ver… respirei fundo, não olhei para os degraus e voilá. Ele fez-me um like! E comum grande sorriso disse, está a ver, só tem de respirar fundo e não olhar para os degraus. Agradeci-lhe, já nas escadas, muito. Só pensava que em Portugal o segurança se teria matado a rir. Aqui o senhor tratou de tudo com muito profissionalismo. Deve ter achado que eu era parva, mas assim mesmo nem por uma vez deixou que isso se percebesse. Estava mesmo interessado em arranjar uma solução para que eu saisse do terraço.
No sexto andar fui para o elevador, não fosse dar-me outra vez a parvoeira das vertigens nas escadas rolantes. Cá em baixo admirei a grande cúpula das galerias cheia de agradecimento por estar no rés-de-chão a olhar para cima. Vejo numa outra montra das galerias um pequeno exército de unicórnios e fico mais descansada. E mais descansada vou apanhar o metro na estação Lafayette/Chaussé d’Antin, a linha 7, até Strasbourg-Saint-Denis onde apanho depois a linha 4 para a Place Saint-André des Arts. Vim sempre a pensar no raio das vertigens a descer escadas rolantes. Acontece-me às vezes, outras não dou por nada. Suponho que o senhor tenha razão, se respirar fundo, não olhar para os degraus que descem, nem pensar no caso, é mais fácil. Para a próxima chamo o pequeno exército de pequenos unicórnios lilases. Os unicórnios voam, não é?

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