Lettres de Paris #15


‘Be not inhospitable to strangers/ Lest they be angels in disguise’

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É uma frase de W. B. Yeats que há décadas recebe os visitantes da livraria Shakespeare and Company, que sobem ao primeiro andar. É uma frase que se adequa a Paris e ao dia de hoje. A cidade não é pouco hospitaleira a estranhos, recebe-os bem, com simpatia, já o escrevi aqui em quase todos os postais. O André que chegou ontem a uma Paris chuvosa concorda comigo nisto da simpatia extrema dos franceses. Hoje quando acordámos na Rue Suger não chovia, o céu estava mesmo azul, embora houvesse nuvens que o tornavam ainda mais bonito. Depois do pequeno almoço, bebemos café no Cafe Saint-André, onde um rapaz se ofereceu, sem mais nem menos para nos tirar uma fotografia.
 
Na impossibilidade de escolher onde levar uma pessoa que visita Paris pela primeira vez, decidi pelo óbvio: um passeio de barco no rio Sena. O mesmo que havia eu mesma feito há poucos dias. Como então escrevi, não há maneira mais bonita de ver Paris. Antes de embarcarmos no BateauBus no Quai Montebello, parámos – claro – na Shakespeare and Company. Gostando ele de livros e livrarias, era impossível estar em Paris e não ver esta. Há muitas outras, muitas, livrarias em Paris, muitas encantadoras, mas nenhuma das que conheço já tem este encanto. Tirámos a típica fotografia no banco da entrada, passeámos entre os livros colocados nos sítios e recantos mais espantosos e depois apanhámos o barco. Gostava de saber – de me lembrar, melhor dizendo – da primeira vez que vi Paris. Gostava de sentir, com o André, hoje, essa sensação primeira. Mas não consigo, claro. Perguntei ao André o que sentiu a ver Paris pela primeira vez, suspirou fundo. Está tudo dito, penso. E é isso, Paris é um suspiro de espanto e admiração sem fim, em cada canto, a cada ponte, a cada pessoa, a cada bonjour, a cada bonne soirée.

Fizemos todo o percurso do BateauBus, que já há uns dias descrevi, por isso poupo-vos agora essa descrição. Direi apenas mais uma vez que o céu estava azul e salpicado de nuvens brancas e cinzentas que pareciam ter sido coladas ali por um pintor de céus. Saímos do barco na torre Eiffel, onde mais? E claro que hoje subimos. A paisagem é deslumbrante, já se sabe. O elemento novo nessa paisagem – para mim – que a não via há 2 anos – são as maravilhosas cúpulas da igreja ortodoxa-russa que, apesar de todas as polémicas, para mim, só acrescenta beleza, ou diversidade, suponho – como sempre – que vá dar ao mesmo. No cimo da torre Eiffel entretemos-nos a identificar elementos na paisagem. Ali o Arco do Triunfo e os Champs Elysées. O Trocádero, os Champs de Mars. La Defense, o Sacré-Coeur, a ponte Alexandre III, o Louvre… e por aí adiante. Gosto de torres altas porque delas se vê o mundo inteiro. A torre Eiffel não é exceção, uma vez que uma boa parte do meu mundo estava nela e segurava-me na mão.
 
Paris é uma cidade romântica ao que se diz e eu já o escrevi também há uns dias. Não sei se é, mas hoje terá sido, mesmo que eu não seja a pessoa mais romântica do mundo, estava acompanhada por um #pingaamor et bien… acho que o passeio de barco foi romântico, a vista da torre Eiffel foi romântica, o passeio noturno pelo Louvre e as suas pirâmides iluminadas foi romântico, o concerto do grande órgão da Notre-Dame foi romântico e bonito, como sempre e o jantar no Fourmi Ailée, romântico foi. E Paris foi sempre simpática para com o estranho que a visitava pela primeira vez, tanto como comigo, que não sendo a primeira vez, sou sempre estranha. Ou quase. Hoje não fui, visto que não estava só*. Depois de amanhã já estarei. Talvez mais do que antes de ontem. A ausência só faz sentido depois da presença. Hoje esteve aqui alguém que daqui a nada já não estará. Estou segura de que irá notar-se.
 
O dia romântico em Paris acabou de forma pouco romântica no Hôpital Dieu, mesmo ao pé da Notre Dame, já depois do jantar. Poupo-vos os pormenores dos motivos que me levaram lá (nada de grande cuidado, não se preocupem, assustei-me por pouco, como quase sempre) mas já que falamos em hospitalidade e em anjos, posso dizer que o serviço de saúde francês – o público – é de elevadíssima qualidade e de um atendimento incomparável. Por uma razão ou por outra já fui a serviços médicos em algumas cidades da Europa. Em Portugal, obviamente, vou com bastante mais frequência e frequentemente a hospitais ou consultórios privados. Posso, portanto, assegurar-vos que em nenhuma parte – nem sequer nos sítios onde vou há já bastante tempo – fui tratada como hoje no Hôpital Dieu. Não esperei sequer 5 minutos para que uma enfermeira me atendesse, com toda a gentileza do mundo, me tirasse a febre, me medisse a tensão, me colocasse todas as questões com grande detalhe, me pusesse numa sala de observação, dobrando-me o casaco com mil cuidados. Quando a médica – jovem – chegou, perguntou-me em francês se queria que falessemos em francês ou português. Português, disse eu, evidentemente. Era uma médica portuguesa a fazer a especialidade em Paris. A enfermeira teve o cuidado de me fazer ser atendida por alguém que falasse a língua em que me sei expressar melhor. Nada disto tem preço, apesar de ter de pagar uma taxa moderadora (que me será enviada depois, mas ronda os 30 euros**). No total não demorei mais de uma hora. Nunca por um segundo duvidei da competência daquelas pessoas. Anjos. Hospitaleiros com os estranhos.
 
Não tenho nada de especial, não se inquietem. Vai continuar a estar tudo bem nesta cidade hospitaleira e cheia de anjos. Hoje uma cidade ainda mais bonita, familiar e aconchegante, porque nela caminha o meu amor.
 
*A minha frase de sempre, no que se refere às viagens solitárias: «quando viajas com alguém tudo te é estranho, quando viajas só o estranho és sempre tu» (Enrique Vila-Matas)
 
** O salário mínimo em França ronda os 1400 euros.

Comments

  1. Adorei esta frase: « A ausência só faz sentido depois da presença.» que tanto explica sendo tão subtil.

  2. Nascimento says:

    Pois fique a saber que uma consulta na Bretanha fica por 23€!E o atendimento?5estrelas!E numa clinica privada!Um aparelho de medição de tensão fica por metade do preço numa farmácia! Aqui a chulice dos crápulas de bata branca nunca pode parar!E se fizerem greve? São apoiados pela” esquerda” “querida! Basta ver os “meninos/as” que saem do HSM em Lisboa!O vicioso está la todo.Passeiam de bata branquinha pelos corredores como se fossem uma Elite! Serão…. mas de Merda!!
    Só que não sabem…. imbecis!

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