Lettres de Paris #18


Presque tous les auteurs de la sociologie rurale que j’avais lu à l’université, il y a prés de 30 ans, ils sont ici et je peux les connaître

Este slideshow necessita de JavaScript.

Não é pouca coisa, desculpem lá. Quero dizer poder conhecer uma parte importante de sociólogos rurais que li e reli e voltei a ler quando me sentava, como estudante de sociologia, nas carteiras do ISCTE. Isto foi há quase 30 anos. 27 para ser mais exata. Todas estas pessoas eram bastante mais jovens. Eu também. Alguns deles deviam ter, nessa altura, a idade que tenho agora mais ou menos. Falo, por exemplo, de Marcel Jollivet que já mencionei nestas cartas. Ou de Nicole Mathieu que se prontificou para me receber aqui e me escreveu a carta de recomendação para ficar alojada na Maison Suger (que pertence à Fondation Maison des Sciences de L’Homme e onde não é assim tão fácil ter lugar) mais simpática de sempre. E exagerada, claro. Conheci a Nicole Mathieu em 2004, creio, em Trondheim, Noruega, por ocasião de um Congresso Mundial de Sociologia Rural. Cheia de vitalidade e energia. Aproximei-me dela, cheia daquele nervoso miudinho (e algum temor, confesso) que temos quando conhecemos alguém que admiramos e disse-lhe que na universidade, quando era estudante, tinha lido tudo o que ela escrevera até então. E que continuava a ler. Aliás, para o meu doutoramento, os trabalhos dela com o Marcel Jollivet (sobretudo o livro que editaram ‘Du Rural a l’Environment’) foram importantíssimos. Ela olhou para mim surpreendida com o francês num sítio onde todos supostamente falariam inglês. E riu-se. E ficámos ali a conversar.

É evidente que quando conhecemos pessoas de quem lemos muitas coisas, que foram importantes nos nossos estudos, nas nossas investigações e, mesmo, na determinação do nosso futuro profissional (mesmo sem o saberem, mesmo se indiretamente) nos sentimos intimidados e pequeninos. Mas a Nicole não me fez sentir assim. Creio que simpatizámos uma com a outra e desde então, por razões profissionais mantivemos algum (pouco) contacto. Ainda não vi a Nicole desde que cheguei. Está fora de Paris, por uma situação difícil da sua vida pessoal. Espero vê-la, nem que seja para um café. Mas o sítio onde trabalho está cheio de pessoas de quem li os trabalhos quando estudava no ISCTE e mesmo depois, sobretudo – como já disse – para fazer o doutoramento. A sociologia rural francesa é uma instituição! Quero dizer, os franceses consideram a sociologia rural uma disciplina ‘nobre’ no âmbito da sociologia. Nunca desistiram do seu objeto de estudo e estiveram sempre na vanguarda nesta área. É verdade que atualmente (desde há 20 anos pelo menos) devido à ‘ditadura do inglês’ e à ‘obrigação’ de publicar em inglês, assistimos a um certo ‘desaparecimento’ da cena internacional, destes sociólogos maiores. Excetuando a Nicole e uns poucos mais, os franceses não costumam ir aos congressos europeus e mundiais de sociologia rural. Publicam pouco sem ser em francês.
Hoje, enquanto fazia mais uma das minhas pesquisas bibliográficas, descobri um manancial de publicações interessantes e importantes em francês, escritas por estas pessoas de quem li quase tudo o que havia para ler, no ISCTE. A ideia de vir aqui foi também perceber onde andavam estas pessoas e o que andavam a fazer. Estão todas aqui e eu posso, efetivamente conhecê-las. Acho que não se estranhará o meu entusiasmo. Mas se se estranhar, paciência, é porque nunca se entusiasmaram pelo que fazem e/ou estudam e, olhem, tenho pena se assim for. Eu entusiasmo-me muito com o meu trabalho. Mas é verdade que, por vezes, não faço mais nada ou parece que nada mais sei fazer. É mentira, mas a ser verdade, seria também digno de pena. Entre estas pessoas que tanto admirei (e admiro, bem entendido) estou eu. É um prazer poder conhecê-los, trocar ideias com eles. Escrever coisas com eles, espero. Mas seja como for, a experiência de estar sentada no mesmo sítio onde estas pessoas – especialmente os dois que citei – se sentaram e trabalharam e pensaram é já fenomenal.
Fenomenal é também a experiência de viver, mesmo que seja por poucos meses, num sítio completamente diferente da nossa cidade e do nosso país. Ver como vivem as pessoas noutros sítios, conhecer hábitos diferentes, aprender a falar melhor uma língua pela prática diária, ir aos supermercados, aos cafés, às padarias, às lavandarias… ir a toda a parte como se vivessemos cá. E aproveitar o que é diferente aqui, em Paris: a quantidade fenomenal de museus com exposições excelentes, a quantidade enorme de cinemas com filmes de toda a parte e de todas as épocas mas, sim, sobretudo franceses, aproveitar os concertos de jazz (principalmente), aproveitar as livrarias em cada esquina, aproveitar a paisagem, aproveitar a simpatia, os bonjours e os bonne soirée em toda a parte, aproveitar as conversas de circunstância e as outras, aproveitar tudo sem muita pressa, porque não temos de ir – como quando somos apenas turistas por uns dias – embora já amanhã. Passei pela mesma experiência há 6 e 5 anos atrás, primeiro em Wageningen, na Holanda e depois em Florença, em Itália. Gostei de viver em ambas as cidades, por razões completamente diferentes (se as conhecem percebem porquê), tal como gosto de viver aqui e, tenho praticamente a certeza, gostarei de viver temporariamente seja onde for.
Estou em Paris há 18 dias e tenho aproveitado tudo muito bem. O meu quotidiano é já fácil aqui, como é na cidade onde vivo habitualmente. Passo quase todos os dias por sítios já familiares, as pessoas já me reconhecem em alguns deles e eu já reconheço algumas das pessoas, mas reconheço sobretudo os lugares. Assim mesmo, e apesar de não ter de me ir embora já amanhã, fico a olhar para alguns desses lugares com vagar. Como hoje, para as folhas vermelhas e castanhas sobre a relva na Place Michel Foucault em frente ao Collège de France. Passo lá quase todos os dias da semana, mas asseguro-vos que as folhas nunca estão no mesmo sítio.

Comments

  1. Sugiro, já que anda por Paris, trazer-nos a visão de quem anda imerso na realidade, do porquê de tanto terrorista ser daí (bairros peridericos da França e Belgica. Os nossos jornaleiros, investidos de jornalistas deram muito lero lero que ouviram a companheiros seus nos halls dos hoteis, mas falharam , quanto a mim em toda a linha.

  2. Elisabete Figueiredo says:

    É uma boa sugestão. Mas não sei se posso dar essa visão. A bem dizer, não ando assim tão imersa na realidade local. Talvez daqui a uns tempos. De qualquer modo, tenho umas ideias, ou basta ver filmes como L’Haine para se entender um pouco mais.

Deixar um comentário

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s